Oficina Radiofónica #7: Legowelt / Cornucopia / Steve Moore

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Legowelt] Secrets After Dreams / Mystic & Quantum

Na anterior edição desta Oficina Radiofónica prestei atenção a The Land Is Entranced With Peace, edição em cassete de Danny Wolfers na sua Nightwind Records, referindo que o irrequieto produtor holandês tem um output bastante intensivo e que estava prestes a lançar novo trabalho na editora espanhola Mystic & Quantum. E ele aí está: edição em vinil com artwork criado a partir de uma das icónicas aguarelas com que Wolfers tem vindo a adornar várias das suas capas (e não só: Glitching Dreams do português Lake Haze, trabalho que abordei aqui, também beneficiou dos talentos plásticos de Legowelt) evocando neste caso uma fantasiosa e idílica cena urbana ensombrada apenas pelo que parece ser a silhueta de um esquilo gigante (uma espécie de versão europeia dos pesadelos japoneses com terríveis godzillas?). Uma vez mais, trata-se de um conjunto de vénias de Legowelt ao espírito da tecnologia que em tempos continha nos seus transístores e circuitos integrados a promessa de um futuro consagrado no tipo de cinema que hoje já só sobrevive em velhas cassetes de VHS. Títulos como “Oberheim Blockade Runner” ou “Prophet 2000 a Powerful 12 Bit Sampler” são tudo menos irónicos e revelam que são as próprias máquinas que inspiram o produtor, muito mais do que a música que possa em tempos ter sido criada com essas ferramentas. Uma qualidade transversal a toda a obra de Legowelt (não apenas a que se revela sob essa identidade, mas a que se espraia por todos os alter-egos que foi criando ao longo dos anos) é a sua permanente recusa de cedência a qualquer tipo de revisionismo “retro”: claro que na sua música há elementos de techno, electro e diferentes ecos das raves dos alvores dos anos 90 ou das explorações “kosmische” que Berlim exportou para todo o mundo na década de 70, mas a personalidade musical de Legowelt é tão vincada e a sua abordagem criativa tão distinta que a sua obra parece existir num espaço singular, dificilmente comparável ao de qualquer outro produtor voltado para o universo da electrónica. Neste trabalho, “Squirrell” (lá está o tema que referencia a silhueta da capa…) é a única faixa com vincada marcação rítmica, num tom marcial e ameaçador que se encaixa na vaga e exótica promessa de ameaça que a capa contém. E, já que se recorreu ao classificativo “exótico”, não deixa de ser curiosa a possibilidade de estabelecer paralelos entre o trabalho de Wolfers e o que nos anos 50 e arranque dos anos 60 fizeram compositores como Esquivel ou Les Baxter, eles próprios criadores de mundos irreais através do criativo uso da orquestra clássica e dos microfones no espaço do estúdio. A “exótica” que Wolfers nos propõe é diferente, vive de pulsares analógicos e digitais arrancados a máquinas que hoje parecem já só ter espaço em museus. E percebe-se, em temas como “Meekian Lovedance”, “Don’t Let Your Life Go By On Automatic Pilot” ou “Vesper Sprites”, que as suas hipnóticas derivas ambientais são afinal de contas resultados da procura da espiritualidade (humanidade?) que os engenheiros que criaram esta tecnologia podem ter inscrito nas entranhas dos sintetizadores que tanto fascinam Legowelt.


[Vários] Cornucopia / Folklore Tapes

Uma cornucópia é um símbolo arcano de abundância e essa imagem poderia na perfeição ser usada para descrever o estranho e fascinante mundo que nos propõe a Folklore Tapes de David Chatton Barker que desde 2011 tem vindo paulatinamente a construir um complexo catálogo feito já de algumas dezenas de edições em cassete e vinil de diferentes formatos (flexis, 7”, 10” e 12”) espalhados por um labirinto de pequenos selos. Cornucopia recebe o subtítulo a compendium of practical occultism mas não nos é fornecida mais nenhuma informação adicional sobre a autoria das duas peças de cerca de 20 minutos cada que se apresentam nos dois lados desta já esgotada cassete. Será lícito pensar que se possa tartar de trabalho do próprio David Chatton Barker. No arranque desta “viagem” psico-acústica há uma voz que nos diz algo importante: “I suggest that we put away our broomsticks, garters, grimoires and cauldrons and grow up/ I suggest that we cease giving ourselves grand sounding titles passwords and secret handshakes/ I suggest that we stop imitating that which has gone before, or that which we presume has gone before/ That we stop treating the words in some book as absolute truth and start to think”. A voz possui uma qualidade hipnótica, resgatada certamente a um qualquer obscuro objecto televisivo, de acordo com as mais rigorosas normas hauntológicas. E por baixo uma fascinante base ambiental, feita de névoas difusas de electrónica, resultado de colagens a partir de material recolhido nessa memória catódica distante, como uma banda sonora para um filme a que subtraíram a imagem. Sempre interessante o exercício de escutar estas peças na escuridão, de auscultadores: é como se se abrisse um portal para outra dimensão. Mágica e misteriosa, claro.


[Steve Moore] Bliss / Relapse

A obra de Steve Moore foi sempre motivo de profundo fascínio para mim. Com o duo Zombi, em que também milita o baterista A.E. Paterra, foi pioneiro da vaga internacional de recuperação da música criada com sintetizadores que ainda hoje se encontra ultra-activa e que abriu espaço para o surgimento de incontáveis variações sobre o impulso primordial oferecido pela música dos Goblin ou de John Carpenter (pense-se em Antonio Maiovvi, Umberto ou na dupla Kyle Dixon/Michael Stein que criou a celebrada banda sonora para a série Stranger Things). Nos últimos anos, Moore viu-se frequentemente requisitado para criar música para cinema: The Guest, Cub, Camera Obscura ou Mayhem são interessantes e densos exercícios que se podem ler também como sérios estudos musicais sobre a ideia de tensão, cumprindo todas as regras que o género foi cristalizando no grande ecrã. A novíssima edição de Bliss traz-nos Steve Moore no seu estado mais claustrofóbico o que provavelmente era exactamente o que pretendia Joe Begos, realizador do filme do ano passado que conta a história de uma artista de nome Dezzy que se vê mergulhada nos abismos da loucura após tomar uma droga alucinogénia com que pretendia desbloquear o seu processo criativo. Há de facto no score de Moore uma dimensão de pressão psicológica muito presente, traduzida no facto da música aqui apresentada viver de longos drones, quase sempre nos espectros mais graves, não se vislumbrando aqui qualquer rasgo de luz, qualquer deriva melódica que nos possa apontar para a ideia de êxtase, euforia ou bem-estar que o título do filme sugere. Steve Moore tornou-se de facto num mestre da tensão, usando os seus intensos rendilhados sintetizados para tecer pesadas camadas de névoa analógica com que literalmente nos rodeia ao ponto de quase ser possível ver o filme combinando a leitura dos títulos das faixas – “You’re Not Going to Die” ou “First Kill”, “I’m Scared” e “Murderer” são auto-explicativas… – com a imersão auditiva no seu trabalho que soube aprender na economia sugerida por Carpenter, mas expandir-se timbricamente para outros universos.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu