Oficina Radiofónica #3: Violet / Lake Haze / Raez

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça 

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.


[Violet] Bed Of Roses / Dark Entries

Chegar até Bed of Roses com total alheamento das declarações da autora que o procuraram enquadrar, estética e emocionalmente, poderá garantir interessantes recompensas ao eventual ouvinte, que assim irá ler de forma distinta esta suite digital em 10 andamentos. Há um claro véu melancólico a cobrir todo o trabalho que, também por isso, soa coeso evidenciando uma vincada marca autoral na forma como privilegia certos instrumentos que parecem remeter para uma espécie de “cache” textural que grita “early 90s” a cada arpeggio extraído a VSTs que procuram emular a síntese FM predominante nos hits pop da era (e por síntese FM refiro-me à tecnologia em que se apoiavam tantos sintetizadores e sons de jogos de computador, não às condensadas playlists das rádios…). Mas há uma diferença entre melancolia e nostalgia e Violet, inteligentemente, nunca procura fingir que este material foi criado noutra época que não aquela em que presentemente vivemos. Bed of Roses soa, portanto, como a banda sonora para o filme que a produtora lisboeta projectou na sua própria cabeça, história íntima com uma narrativa que requer diferentes cadências e sugestões emocionais. O álbum não é propriamente sombrio, mas também nunca chega a ser solar, parecendo toda a música envolta numa certa penumbra ou neblina, talvez porque a sua autora não esteja assim tão certa do que sente em relação a essas memórias que aqui evoca. E para Violet diferentes estados de alma significam diferentes cadências que, no caso presente, oscilam entre as perfeitamente ambientais e cinemáticas derivas de “Tears in 1993” e “Never Leave” (espécie de “opening” e “closing credits” do filme que aqui se desenrola perante os nossos ouvidos) e ainda das duas partes de “Bed of Roses”, os assomos tribalistas de house na rica drum track que é “In the Aquarius” (e pressupõe-se que o aquário a que a produtora se refere aqui seja o da pista de dança em que já todos mergulhámos), a leitura do hip hop a partir da desaceleração do pulsar house em “Half Crazy”, o tropicalismo obliquamente dancehall de “Fuck a Bully”,  o swing new jack que inspira “They Don’t Wanna Know” ou o assalto techno full on em que se traduz “Spectral”. Violet explicou que o título remete para uma canção de Bon Jovi que a marcou na tenra idade da inocência e que as faixas aqui incluídas, produzidas ao longo dos últimos sete anos, foram concluídas durante uma estadia doméstica forçada por um pequeno acidente, exactamente o tipo de ocasião em que uma quebra abrupta de ritmos e rotinas conduz a períodos de maior introspecção. O importante é perceber que Violet usa toda essa carga emocional na construção de uma música altamente evocativa, que não busca pontos de contacto forçados com “correntes” e “ondas”, antes prefere encontrar-se a si mesma no meio de referências cruzadas, de memórias díspares e da certamente complexa rede emocional em que se foi enredando ao longo da vida. E sabe bem ouvir um disco de música electrónica de dança que olha para dentro em vez de procurar aliar-se com vagas que possam percorrer este presente.


[Lake Haze] Glitching Dreams / E-Beamz

A capa com o distinto traço e cor de Danny Wolfers não permite que nos enganemos no universo para que o produtor português Lake Haze remete com este álbum de estreia, Glitching Dreams, lançado na britânica E-Beamz. Na verdade, a viver na zona de Haia, na Holanda, já há alguns anos, Gonçalo Salgado partilha bem mais do que apenas o código postal com o mestre holandês que o mundo mais informado conhece como Legowelt: as suas paisagens sintetizadas habitam o mesmo espaço estético que o homem do leme da Nightwind Records tem vindo a transformar numa secreta forma de arte cruzando difusas memórias techno do eixo Underground Resistance/Drexciya, romantismo rave e uma desmedida paixão pelos mais obscuros exploradores do futuro electrónico que se abrigaram em caves/bunkers com sintetizadores baratos, caixas de ritmos e gravadores de fita. A essa fórmula, Lake Haze acrescenta aqui uma dimensão pessoal, referenciando o passado em que a Warp previu o futuro lançando no espaço gente como Autechre, LFO, Kid Unknown ou, pois claro, Aphex Twin. E, portanto, é uma viagem o que aqui se propõe, com estes “sonhos carregados de interferências”, como se poderia traduzir o título do álbum (como tão claramente se sente na belíssima “Plant Dust”). Se em “Molecule Processing”, Lake Haze referencia directamente a série de intensos maxis que tem vindo a editar desde 2014 em etiquetas como a One Eyed Jacks ou Crème Organization, com um techno que derrama ácido em abundância, no restante material do álbum explora sobretudo uma mais reflexiva visão em que o electro subtraído aos emuladores de Drumulators e outras caixas se cruza com ecos distantes da Trax e da Metroplex, com o trabalho de synths a servir para filtrar essas memórias a partir de um presente que as sabe subliminar, não sem esconder as saudades desse futuro que se sonhou, sem interferências, entre a segunda metade dos anos 80 e a primeira dos anos 90 do século passado. Há em Glitching Dreams uma densidade “académica” pronunciada: isto é música criada por quem estudou atentamente todos os possíveis futuros que esse passado explorou, música que compreende que a perspectiva que o presente oferece sobre a história é, afinal de contas, a mais impressionante ferramenta criativa que um produtor pode ter à sua disposição.


[Raez] Collapse Now / Monster Jinx

Na apresentação desta que é a mais recente edição da editora do monstro roxo refere-se que Raez, produtor que não dava notícias deste fôlego desde Prince of Persia, que já data do distante ano de 2012, aproveitou o tempo volvido para “coleccionar memórias e influências”. O resultado, que a Monster Jinx disponibilizou há um mês na extremamente bem “mobilada” casa que mantém no bairro Bandcamp (em formato digital de descarga gratuita e em dubplate de prensagem ultra-limitada), é suficientemente entusiasmante para gerar abaixo-assinados que reclamem um intervalo bem mais reduzido para a próxima edição. Não deixa de ser curioso que, partindo de pontos estéticos bem distintos, as três edições seleccionadas para esta nova edição da Oficina Radiofónica se harmonizem nessa declarada exploração emocionalmente carregada de uma certa memória: memórias do éter, romantismo das raves, estudo atento de múltiplos futurismos electrónicos ou, no presente caso, dissecação do particular pulsar 8-bit que determinados jogos de computador e que os alvores da Internet alojaram no subconsciente colectivo. Para Raez, o hip hop fornece a moldura dentro da qual nos oferece os seus retratos, com o seu típico BPM abaixo de 100 a sugerir um estado de permanente indução hipnótica que o produtor portuense polvilha com vozes evocativas e plenas de emotividade, pads de synths que não escondem, antes pelo contrário, brilho de época e uma noção aturada de sound design que torna a audição em auscultadores de qualidade uma experiência imersiva de recompensas renovadas de cada vez que se carrega no play! Para fãs de FlyLo e outros estetas digitais dos mais baixos espectros da escala de BPMs.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu