LUCKI // Freewave 3

[TEXTO] Moisés Regalado

LUCKI ou Lucki Camel, Lucki Eck$ ou “Untouchable Lucki“: “not a rapper, nor a robber”. O nome ainda soa a novo, apesar do arranque ter sido em 2013, mas o autor de Alternative Trap continua presente para fazer escola.

Instrumentais como os de “Believe the Hype” ou “Peach Dream” não fogem assim tanto daquilo que todos os dias se vai ouvindo por aí, e o aparente amadorismo na produção de temas como “4 – U / City Girl” chega mesmo a exigir uma atenção extra para que as peças encaixem. No entanto, quando parece que até as suas drogas de eleição são iguais às de figuras assumidamente genéricas (“I met way too many fans in a day, snuck too many Xans on the way”), LUCKI sai-se com tiradas tão inspiradas — e imprevisíveis — como “Fuck that bitch, she gotta be sick, that’s why she hit me up/Got my momma googling lean, keep sending me kidney stuff”.

O “ay” que lhe serve de muleta e ad-lib funciona em simultâneo como isco (a única finta de Luís Figo chegou-lhe para ser melhor do mundo…) e, dois ou três loops depois, o “trap alternativo” de LUCKI começa a fazer sentido — mas porquê alternativo? Se, diz a tradição, o trap se faz sobretudo das ruas para as ruas, mais até do que de rappers para rappers, o discurso de LUCKI vem agitar as águas. Claro que o trap não vive apenas de caras trancadas ou inexpressivas (Lil Uzi Vert e Quavo, what up?), só que LUCKI chegou a Freewave 3 como uma espécie de Wiki que, num universo paralelo, nasceu e cresceu em Atlanta — e que por lá começou a rimar em 2003 ou 2004, quando a sonoridade popularizada por Gucci Mane e companhia ainda não tinha abandonado os princípios mais básicos.



Na realidade, o MC de Chicago tem apenas 22 anos e letras como as de “All In”, com Earl Sweatshirt, ou “More Than Ever”, onde o poder e a magia da repetição voltam a vir ao de cima, escancaram as portas para o melhor de dois mundos, provando que os bangers também podem nascer na solidão do quarto e não apenas no ambiente condicionado e acelerado do estúdio, profissional ou nem por isso. A extensa discografia que tem construído abunda em referências ao lar, onde tudo começa: “And I’m sippin by myself in the room, ay”; “My drug stash where my gun is, right in my mama room”.

Nesta mixtape que dura tanto como um EP, tendo tantas faixas como um álbum, LUCKI fez o suficiente para se destacar da concorrência por onde tenta furar desde 2013. O tom arrastado e as batidas pouco ambiciosas não revelam o jogo à primeira mas Lucki Camel é um caso sério de talento em bruto — mas em nada agressivo. Depois de praticamente uma dezenas de projectos, falta apenas o álbum para que a consagração seja tão certa quanto as suas capacidades para desconstruir o jogo.


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