L’Orange & Jeremiah Jae // The Night Took Us In Like Family

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Quando a sabedoria de um produtor veterano funde com o dom da palavra daquele que a sabe usar, o resultado é uma obra-prima no seu sentido mais lato que desperta ouvidos e embala os sentidos de quem ouve um trabalho como The Night Took Us In Like Family, o mais recente disco construído pelas mãos de L’Orange e voz de Jeremiah Jae, lançado este mês com selo da editora Mello Music Group. Sobre o produtor da Carolina do Norte, conhecemo-lo pelas combinações de faixas fumarentas e encharcadas com registos radiofónicos do início do século XX, samplados em loops harmoniosos que nos deixam tontos. Quanto ao black messiah de Chicago, é um prodígio do hip hop contemporâneo com sucesso comprovado em trabalhos com Captain Murphy, onde ajudou a dar vida ao alter-ego alucinogénico de Flying Lotus; e trabalhos de autoria própria aprovados pela Warp ou Brainfeeder .

The Night Took Us In Like Family não é um álbum de hip hop, é aquilo que o torna mais que isso: uma infusão de géneros – apenas capaz por quem tem o ouvido apurado e a mão já treinada para saber fazer dos estilhaços um vidro. E isso só se consegue quando ambos os criadores são multitalentosos, porque tanto Jae como L’Orange sabem como encaixar a escrita no som como o beat na rima sem nos lembrar que existe um processo por detrás da coisa. A narrativa é feita por amostras radiofónicas que servem de prelúdio a uma poesia (“Life is like a movie, they shoot it like a show”) envolta numa espiral sonora feita pelos vento do soul e do funk. Neste aspecto, os louros são sementes colhidas pela mestria do produtor californiano, acostumado a samplar vozes como as de Aretha Franklin (que volta a estar presente neste novo trabalho) e Billie Holliday em melodias do universo soul e R&B, que tornaram discos como Old Soul (o seu primeiro, editado em 2011) em dogmas musicais do género.


 

 


A estética musical pode entender-se como crime noir, que respeita a maneira cinematográfica de contar histórias de perseguições e ajustes de contas (a intro de “All I Need” fala por si). Aqui, Jeremiah aproveita-se de prólogos da rádio novecentista para fazer juz ao estilo de hip hop da sua terra, introduzindo a escrita pensada e conscenciosa no meio da mistela que são os samples jazzísticos da East Coast com o funk sintetizado da West Coast americana (“Taken by The Night” é um dos melhores exemplos da teoria posta em prática). À semelhança de outros artistas da sua zona, Jae traz com ele a atitude com que enfrentou os murros da realidade, rimando com uma dicção à la Earl Sweatshirt e assumindo-se peremptoriamente como o anti-herói de quem gostamos: aquele que vinga no universo que o absorve. The Night Took Us… é isso mesmo: uma promessa tácita selada com sangue entre o rapper e o seu ambiente escuro.

Não podemos entender esta obra apenas como mais um dueto rapper-produtor onde o MC dispara em todas as direcções a raiva que o consome em beats avulsos. Não, Jeremiah não só sabe para onde quer ir como sabe como lá chegar, e recebe as atenções dos holofotes por isso – pela bagagem de conhecimento que traz consigo para este álbum. No mesmo pedestal que contemporâneos seus como Kanye West, Jae tem o know-how da produção e, apesar de não o mostrar em The Night…, mantém-no presente para saber encaixar todas as sílabas em cada fragmento instrumental, sem deixar espaços por preencher nem por criar (especialmente em “Do My Best to Carry On”). Aquilo que ouvimos é um dueto como Madlib e MF Doom numa versão menos madura mas ainda assim promissora.

A coisa está pensada e flui de forma harmoniosa o suficiente para considerarmos esta peça não como mais um lançamento de 2015, mas sim um dos marcos musicais do ano (o meu especial destaque vai para faixa “Part 4 – Revenge & Escape” – uma das melhores produções que ouvi este ano). São fusões como esta que trabalham sobre o conceito originário do movimento sem deixar de o reinventar, aferindo-lhe novas cores e formas, comprovando que as ideias são um mundo de mundos paralelos.


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