Ser conciso é uma qualidade rara na arte atual. Já ninguém pede ao realizador que mantenha o filme abaixo das duas horas, o tempo outrora suficiente para contar uma (boa) história. Assim como ninguém exige aos músicos que deixem esta ou aquela faixa de fora. Numa era de playlists, em que a parca atenção se perde num scroll infinito, a quantidade de álbuns editados com mais de uma hora é estranhamente anacrónica. Há um elogio do excesso, um fazer questão em sobrar, como se a arte tivesse também ela de alimentar o nefasto desperdício que rege todas as outras facetas da sociedade atual.
Michael John Jefford, o produtor que assina como Laguna Seca, é o mais conciso possível em Live From The Müsli Mountain. Em 6 temas, com pouco mais de 22 minutos, há apenas o necessário. A malta do techno conhece-o como Positive Centre, com discos desde os 2010’s, em que o destaque vai para In Silent Series de 2014. Em 2017, haveria de formar uma editora com esse nome em… Lisboa. Nasceu em Kent, no Reino Unido, mas, como tantos outros produtores ingleses de bass music, mudou-se para a influente Berlim em meados da última década. Daí para Lisboa foi um salto e agora vive no Porto.
Sempre fez um deep techno bastante particular. Lançou-se em 2013 com An Assembly na OCS, um EP de eletrónica dançável com baixos poderosos, às vezes em four-on-the-floor. Depois disso lançou vários trabalhos e fez-se nome grande das cenas do techno e da bass music. O seu estilo está entre a pista e o sofá, muito escuro, onde os baixos disputam a relevância com os BPM. São músicas para dançar noite fora, algo atmosféricas e com teclados ocasionais. Monad XIX, de 2015 na Stroboscopic Artifacts, é particularmente duro. Na magnífica “Sum Tolerance”, a última faixa de Ancestor One, de 2018, aparece um dub marado, muito na onda daquilo que Kevin Martin faz quando assina como The Bug. É a primeira vez que esta sonoridade invade Positive Centre.
Nada disto previa Live From Müsli Mountain, onde assina como Laguna Seca. “Bookends” começa com aquele breakbeat e está desde logo apresentado o menu: música eletrónica de autor, com a profusão de géneros que esta segunda década do século XXI tanto aprecia.
“Hougen” é mais atmosférico mas sem nunca perder o pé, não se esquecendo daquele ritmo dançável, por um lado, e demasiado quebrado, por outro. O trabalho na drumpad é estranhamente meticuloso aqui. Ao mesmo tempo que tudo vai mudando e nada parece fora do sítio, há uma sujidade impressa que, sendo propositada, nem por isso deixa de permanecer casual.
“The Dark Star” é a faixa mais óbvia. Tem o 4 por 4 ritmado da pista de dança e os teclados vintage franceses… Ou alemães, depende a quem perguntarem. Tema convencional, num crescendo em lume brando, que embora nunca se consuma, permite bater o pé debaixo da mesa.
“Retribution VHS” é, como o nome aponta, uma homenagem às gloriosas bandas sonoras dos anos 70/80. Sim, as mesmas que fascinam nomes dos Jungle aos Justice e que levou os Daft Punk a venerar Giorgio Moroder. Há laivos de Carpenter e a contemporaneidade daquele BPM que, não surpreendendo, tem a magia de ser concisamente complexo. Em 4 minutos conta-se a história, sem desperdícios nem subterfúgios.
“Eggnog” é mais doce. A culpa é do baixo, mas a nossa atenção está na batida e naqueles ruídos de fundo que entretanto se tornam evidentes. O BPM é, como quase sempre em Live from Müsli Mountain, impercetivelmente mutante. Aprecia-se a delicadeza, como ela evolui lentamente, com mudanças subtilmente difusas até se diluir no espaço sideral.
“Death Race” é um industrial madmaxiano, apunkalhado e divertido. Em 2 minutos e meio, curto e grosso, mantém a energia ritmada e antevê-se o dançar possuído como se, numa pista de um qualquer clube, por baixo de uma bola de espelhos, pudesse haver um moshpit.
Há uma boa onda em Live From The Müsli Mountain, algo que perdura e onde nos apetece voltar. A partir de agora, Laguna Seca é um nome para o qual devemos estar atentos. O disco é editado pela Throttle Records, a editora de Clark, que recentemente tivemos a oportunidade de entrevistar.