CD / Digital

Joshua Chuquimia Crampton

Anata

Edição Independente / 2026

Texto de Filipe Costa

Publicado a: 23/04/2026

Tags: Joshua Chuquimia Crampton, Los Thuthanaka

pub

Para o ouvinte mais desatento, o lançamento de Los Thuthanaka, em 2025, irrompeu como um raio no oceano, quebrando o marasmo instalado nos modelos da música ocidental. Mas o álbum de estreia homónimo da dupla norte-americana não nasceu no vácuo. Os títulos individuais dos irmãos Chuquimamani-Condori e Joshua Chuquimia Crampton, espalhados ao longo da última quinzena de anos em discos comoThe Light That You Gave Me to See You (2013), DJ E (2023) e Estrella Por Estrella (2024), são documentos vitais de uma prática artística enraizada nas tradições andinas, confrontando as feridas do legado colonialista e a resistência de pessoas trans nos territórios ocupados das Américas através de uma música radicalmente inovadora. 

E se a aclamação de Los Thuthanaka constituiu uma espécie de reconhecimento tardio para Chuquimamai-Condori, no caso do irmão, o guitarrista Joshua Chuquimia Crampton, assumiu-se como um momento de revelação, colocando o seu trabalho sob uma nova luz. Agora, com uma visibilidade inédita, o músico está de regresso com um novo capítulo em nome próprio. Lançado em fevereiro último, Anata vai buscar o seu título à cerimónia homónima de homenagem à Terra (“Pachamama”, no idioma indígena aimará, do qual Crampton descende), que antecede a época das chuvas. O quinto trabalho a solo do músico surge assim um ano após o lançamento do disco que o colocou no centro do discurso crítico, representando simultaneamente um desafio e uma oportunidade: a de penetrar o zeitgeist, de nadar na espuma do momento. Em vez disso, Crampton entrega-nos o seu registo mais dissonante até à data, uma obra excessiva que fragmenta os cânones convencionais do rock, reconfigurando-os num corpo estranho que desconstroi a própria noção de composição para guitarra.

Há um mundo por descobrir na música do artista, que se deu a conhecer no começo da década com o lançamento de THE HEART’S WASH (2020), depois de ter explorado inúmeras vias à margem de outros projetos a curto prazo. Em todos eles, o guitarrista procurou esticar os limites do seu instrumento, sugerindo-lhe diferentes possibilidades. Anata não é exceção. Os seus temas, inteiramente instrumentais, encontram pontos comuns na música de contemporâneos como ML Buch e Richard Orofino, bem como nas linguagens monolíticas dos compatriotas Sunn O)))). Com eles partilha o gosto por timbres incomuns, pela exploração de temperamentos igualmente improváveis e por uma visão própria de caos organizado, que cruza com ideias familiares de união, reciprocidade e ligação com a natureza. Há um equilíbrio umbilical entre técnica e filosofia ancestral, repensando os valores da herança aimará num exercício sónico que evoca questões de memória, território e identidade.

O encanto pastoral do anterior Estrella Por Estrella dá lugar a uma descarga avassaladora de riffs e texturas esfuziantes, convertendo o compasso percussivo da música cerimonial andina (a saya, o huayno e o caporal) em linhas picadas de guitarra, num processo de escuta ativa que coloca o ritmo em segundo plano. É o som espectral das arruadas, procissões e demais celebrações comunitárias andinas, destilado na centrifugadora de um músico que discorre com propriedade sobre as “medicinas” dos seus antepassados nativos, ao mesmo tempo que evoca a herança do rock alternativo na formação do seu gosto. É nesta confluência, entre a celebração como ato de resistência dos bolivianos Los Kjarkas (autores de “Llorando Se Fue”, a verdadeira “Lambada”) e o rasgo noventeiro dos Smashing Pumpkins e Boris que reside o chão comum de Joshua Chuquimia Crampton.

Em entrevista à newsletter Tone Glow, Crampton apontava “o dogma e a religião que imperavam” na sua família, em contraste com a liberdade que o rodeava durante a sua juventude no México. Ao libertar-se desses constrangimentos, o músico entrega uma obra impossível de classificar, enquadrando a tradição num organismo vivo e instável que recusa fixar-se.


pub

Últimos da categoria: Críticas

RBTV

Últimos artigos