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Fotografia: Algarve ao Vivo
Publicado a: 28/07/2026

De Vardan Ovsepian e Tatiana Parra a As Folhas Novas Mudam de Cor.

Loulé Jazz’26 – dia 2: o som revela o que a semântica oculta

Fotografia: Algarve ao Vivo
Publicado a: 28/07/2026

Uma vez mais esgotada, a segunda noite do Loulé Jazz arrancou com a dupla Vardan Ovsepian e Tatiana Parra. O pianista arménio e a cantora brasileira entrelaçaram piano e voz numa espécie de bailado etéreo e poético que pairava sobre o Castelo de Loulé e parecia transbordar as muralhas. Desde janeiro, em Los Angeles, trabalharam juntos em The Flight of the Hidden Heart, álbum editado em maio, onde as melodias sinuosas e delicadas de Ovsepian encontram a voz doce e suave de Parra para desafiar a própria ideia de canção.

Essa abordagem não é casual. Durante o concerto os músicos referiram a influência do pensamento de Jacques Derrida na concepção do projeto. É a desconstrução entre palavra e significado que atravessa todo o álbum; durante grande parte do concerto, Tatiana Parra abdica da letra e prefere sílabas, vogais e respirações, tratando a voz como um instrumento que procura o sentido pelo som e menos pela linguagem. Prefere comunicar matéria, textura e emoção no lugar de ideias ou significados semânticos. 

Quando finalmente surgem palavras, a primeira ideia a emergir é: “A word is dead / When it is said”, poema de Emily Dickinson, cantado numa das composições apresentadas. Depois de um longo percurso em que a música viveu sem semântica, aqueles versos questionam precisamente o papel da palavra. Esgotar-se-á quando é pronunciada ou a música devolve-lhe novos significados quando é cantada? A resposta não é dada; o concerto explora precisamente essa tensão.

Às 22 horas, o sino da igreja acerta no espaço entre músicas. Os músicos aguardam a décima badalada, começa o piano e regressam palavras. Desta vez em português, “Coração Vagabundo”, de Caetano Veloso. “O meu coração não se cansa / de ter esperança / de um dia ser tudo o que quer”. Em simultâneo, aproxima-se o jazz contemporâneo da bossa nova.

Inesperadamente, convidam Mário Laginha para subir ao palco. Vardan Ovsepian levanta-se e deixa o piano à disposição de Laginha. A emoção é visível no rosto e no gesto de Tatiana Parra. Confessa que, aos 18 anos, jamais imaginaria vir a partilhar um palco com um músico que, durante tanto tempo, admirou à distância, ouvindo-lhe os discos e apresentando-o aos seus alunos. Este encontro foi uma celebração espontânea da escuta e da improvisação sobre o tema “Tanto Espaço”, composição original de Mário Laginha. Ovsepian regressou e concerto terminou com um longo aplauso. 

As Folhas Novas Mudam de Cor é o quarteto em que Miguel Meirinhos (piano), José Soares (saxofone), Hugo Carvalhais (contrabaixo) e Mário Barreiros (bateria) regressam ao universo de António Pinho Vargas sem a intenção de o reproduzir mas sim de o habitar com cada uma das suas identidades. As composições do pianista português são revisitadas com novos arranjos, e espaço aberto ao diálogo permanente entre escrita e improvisação.

Logo em “June”, tema que abriu o concerto, o quarteto desenha um percurso entre o caos inicial e um regresso gradual à serenidade melódica, com o saxofone de José Soares a provocar constantemente o equilíbrio do grupo. Em “Gente Estranha”, é precisamente o diálogo improvisado entre os dedos delicados de Meirinhos no piano e o saxofone provocador Soares que conduz uma paisagem sonora urbana, inquieta e em constante transformação.

Alguma da melancolia apareceu colorida em “Cantiga para Amigos”, introduzida por um solo de contrabaixo de Hugo Carvalhais que suspende o tempo antes da entrada dos restantes músicos. Mais tarde, em “Dança dos Pássaros”, a célebre melodia originalmente escrita para piano reaparece na voz do saxofone. Juntamente com “Tom Waits”, estes dois temas emblemáticos da obra de Pinho Vargas, encontraram no público o reconhecimento coletivo que lhes conferem a intemporalidade e um lugar na memória que atravessa gerações. 

Em “Incontornável Melancolia”, Mário Barreiros assume sozinho o palco durante vários minutos. O longo solo de bateria funciona como construção paciente de tensão e desconstrução do tempo, até que os restantes músicos ingressam e a música reencontra o seu centro. Mário sabe a música de cor, não precisa de papéis, está no corpo. É ele o elo de ligação ao quarteto original António Pinho Vargas do início dos anos 80. Na bateria, abriu mais do que ocupou o espaço para o protagonismo do saxofone e do piano. Procurou sobretudo timbres, texturas e balanço em cada intervenção.  

Fecharam com “Vilas Morenas”, dedicada ao Algarve, encerrando uma noite em que o jazz percorreu as formas do tempo. Vardan Ovsepian e Tatiana Parra procuraram libertar a música das palavras para descobrir significado no som. O quarteto “As Folhas Novas Mudam de cor” fez o caminho inverso: partiu da escrita de António Pinho Vargas para demonstrar que a improvisação não apaga a memória mas prolonga-a. Torna-a viva.

Entre o voo escondido de um coração, melodias que continuam a mudar de forma e composições que permanecem vivas, a segunda noite do Loulé Jazz confirmou que o jazz vive precisamente desse equilíbrio instável entre aquilo que permanece e aquilo que, em cada concerto, renasce. 

A noite terminou apenas já na Casa da Cultura de Loulé. A jam session prolongou a celebração do festival com três jovens músicos lisboetas — Afonso Lopes (guitarra), Francisco Melo (contrabaixo) e Silvestre Lemos (bateria). Entre temas originais e clássicos como “Naima”, de Coltrane, revelaram um equilíbrio raro entre ousadia e escuta coletiva, fechando a noite como o jazz melhor sabe fazer: em conversa.


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