Após vários meses no “forno”, o livro Rimas e Batidas – Uma Década de Mudança na Música Portuguesa e Global (2015 – 2025), criado como forma de celebrar o 10º aniversário da nossa publicação, já começa a figurar em algumas prateleiras de melómanos de todo o país. A obra encontra-se neste momento à venda por 35€ no Bandcamp do ReB.
Ao longo de quase 500 páginas, vão poder encontrar uma compilação de textos por cá publicados em jeito de best of e divididos por cinco categorias distintas — críticas, entrevistas, reportagens, ensaios e obituários —, completados depois por uma série de artigos exclusivos, criados propositadamente para esta edição, e ainda um par de prefácios, assinados pela rapper Capicua e pela radialista Isilda Sanches.
Como forma de antecipar a primeira apresentação de Rimas e Batidas – Uma Década de Mudança na Música Portuguesa e Global (2015 – 2025) em Lisboa já no dia 31 de Julho — que contemplará dois momentos distintos, primeiro na Flur (com showcase de Débora King) e depois na Casa Capitão (com atuação de DJ Gijoe e Lana Gasparøtti, mais DJ sets de Rui Miguel Abreu e Nara808) —, partilhamos hoje o primeiro prefácio do livro, assinado por Capicua, que vão poder ler de seguida.
A consolidação de uma cena cultural, sobretudo quando emergente, alternativa ou marginal, não é completa sem a sua documentação. Quando não há quem escreva a sua história, um fenómeno pode esvair-se com o tempo sem ficar para a posteridade, ainda que seja vivido de forma intensa. A memória daqueles que nele participam, se não for registada, será tão fugaz quanto o próprio fenómeno e incapaz de imprimir na História uma existência. Ademais, não basta documentar, é preciso pensar a respeito, sentir o pulso, encontrar os limites, monitorizar tendências, assinalar a evolução, consagrar os pioneiros ou as grandes referências, diagnosticar dissidências e ruturas, negociar concessões, apontar desvirtuamentos, fazer a crítica. Esse trabalho é importante para que um fenómeno se consolide em cena, não bastando um campo criativo fértil e um público fiel. É preciso que alguém o veja, como uma paisagem, (com algum distanciamento, mas com atenção) e o retrate, como numa pintura em eterno movimento, porque toda a paisagem vai mudando com os dias e as estações.
Num tempo tão rápido, com tantos estímulos, em que a novidade é um ápice e em que a voragem da internet nos apresenta tudo, em todo o lado, ao mesmo tempo, é providencial encontrar quem filtre toda a informação e a organize, quem faça a curadoria do que vale a pena, dentro de uma linha editorial ou de interesse com que nos identificamos, quase como aquele rapaz melómano que trabalhava na loja de discos e que nos guardava as novidades imperdíveis por conhecer bem o nosso gosto.
O gosto, aliás, é uma categoria que sempre soube aproximar, congregar e consolidar pessoas em tribos. Como uma cola comunitária, uma partilha de alma, um sentido de identificação. E no meio do caos em que vivemos, nos idos dos loucos anos vinte do século vinte e um, precisamos mais do que nunca, não só dessa filtragem que ajuda a peneirar o excesso de oferta para nos entregar as pepitas preciosas, como também desse pertencimento, dessa sensação de que encontramos quem gosta do que nós gostamos, esse chão comum.
Ora é esse trabalho incansável que o Rimas e Batidas tem feito, documentar os fenómenos emergentes, dando-os a conhecer, refletindo sobre eles com espírito crítico e um generoso entusiasmo, mas também selecionando o que vai tendo mais rasgo e interesse, entre uma imensidão de ofertas, quer na cena cultural nacional, quer na infinitude do mundo. E se isso tem sido estratégico do ponto de vista coletivo e para quem consome música, tem sido providencial para muitos artistas emergentes, que encontram no ReB o primeiro, e muitas vezes o único, meio de comunicação com genuíno interesse no seu trabalho, num país pequeno, com um mercado cultural diminuto, pouquíssimos meios dedicados à cultura, em que os nichos têm demasiadas dificuldades para se consolidarem e os artistas muito poucos incentivos.
Nesta década, o mundo acelerou, a omnipresença da internet mudou as formas de consumir cultura e de promover o trabalho dos artistas e essa aceleração, essa transformação, tornou tudo mais volátil, mais fugaz, menos significativo. A existência de um corpo de trabalho como o do ReB, aqui selecionado e compilado em livro, resulta de um esforço apaixonado e precioso, esse de documentar, registar, afixar e celebrar, o que de mais interessante tem acontecido na cena musical portuguesa, no espetro da música urbana e alternativa.
Havendo poucas coisas mais românticas do que fazer música, criar cultura e ser artista em Portugal, uma delas será certamente a ideia de editar um livro sobre música, sobre cenas culturais e sobre artistas portugueses. E se houve coisa que as tribos urbanas (que desafiaram o mainstream e o status quo, fazendo da cultura Hip Hop ou da cultura Punk espaços de liberdade e de contracultura) nos ensinaram, é que o romantismo vence sempre, porque por muito cinzento e distópico que seja o mundo, haverá sempre um puto de headphones num quarto, a vibrar com um clássico de Public Enemy ou Black Flag. Cabe-nos a nós, artistas, bem como aos nossos cúmplices e incitadores (como o ReB) continuar a espalhar a semente, para que nunca se perca esse ímpeto e, se algum dia nos perdermos, poderemos sempre voltar a estas páginas para nos orgulharmos do caminho feito e nos inspirarmos para continuar a desbravar os trilhos por inventar.
Capicua (Outubro de 2025)
Flur e Casa Capitão recebem eventos de lançamento do livro do Rimas e Batidas