A ideia de ilha é muitas vezes equacionada como um quase sinónimo de paraíso: um pedaço de terra isolado de qualquer continente e, por isso mesmo, mais distante da civilização; rodeado de mar ou rio/a, ou seja da natureza que ainda retém algum mistério; de acesso mais difícil, o que significa que só lá chega quem está disposto a algum tipo de sacrifício; um lugar em que a natureza ainda supera a interferência humana… Parte destas imagens correspondem à realidade, outra parte é fruto de uma fantasiosa projecção, mas ambas ecoam essa ideia arquétipo da terra isolada, rodeada de massas de água que a defendem dos males do mundo. Ou, ao invés, que protegem o mundo do que lá se resguarda ou resguardou em tempos. A ilha de San Simón — e a mais pequena ilha de San Anton a ela ligada por uma pequena ponte — é o palco principal do festival galego Sinsal, um evento que o Rimas e Batidas “descobriu” o ano passado e a que este ano regressa.
Vigo é uma cidade vibrante, um dos centros culturais mais activos da Galiza, uma província espanhola com uma distinta e orgulhosa identidade, aqui mesmo ao lado de Portugal, ligada à nossa história e até apreciadora dos nossos heróis — há por aqui, por exemplo, uma genuína admiração por José Afonso, um hábito bonito e comovente de se entoar a Grândola quando o calendário nos oferece o 25 de Abril e um entendimento da nossa língua que permite dispensar o “portunhol” que é essencial à sobrevivência em Madrid ou Barcelona. É fácil sentirmo-nos em casa aqui.
O Sinsal, que acontece ao lado de Vigo, começa, como nos revela um dos seus motes, numa travessia. E uma travessia — de quase uma hora a partir do Porto Marítimo da cidade — é sempre uma oportunidade. Neste caso para submeter as pessoas que embarcam num dos ferrys que as levam até à ilha a uma playlist de folk galego algo hardcore. E esse cancioneiro é sempre interpretado a uma voz por quem navega aquelas tranquilas águas das rias baixas, passando ao lado dos viveiros que criam o marisco tão essencial à gastronomia local. Tudo é cultura, parece dizer-nos o Sinsal: a desafiante música que se faz nos palcos, aquela que se escuta nas colunas do barco, a ria e a paisagem, os sabores e os cheiros. E sobretudo a história. Este festival aceita os fantasmas da ilha e da sua turbulenta vida, como lugar onde se isolavam pessoas com lepra, fosse ela doença de pele ou intenção política contrária ao regime de Franco. Ver incontáveis crianças de sorriso amplo no rosto (e auscultadores de protecção nos ouvidos) ajuda certamente a curar qualquer má energia que o tempo ainda não tivesse apagado deste lugar.
O Sinsal só disponibiliza 800 bilhetes diários e isso significa antes de mais conforto máximo para quem embarca nesta experiência. Não há filas intermináveis para nada: nem para procurar com que matar a sede, nem para escolher o que comer em bancas que servem comida de qualidade, nem para aceder a lavabos. Há muita sombra e espaços relvados e isso permite que as famílias desfrutem em conjunto dos vários concertos ou das instalações sonoras espalhadas por vários pontos da ilha. Os sistemas de som também são de qualidade e mesmo nos concertos de sonoridades mais abrasivas a massa sonora é confortável.
O perfil do público é muito diverso em termos etários e embora o galego seja naturalmente a língua dominante, ouvem-se ao longo do recinto vários outros idiomas, facto que está igualmente espelhado na programação — só na primeira jornada em San Simón foi-se de Braga a Kyoto e daí até Bamaco e Maiorca, por exemplo. Uma viagem e tanto que não foi apenas geográfica, mas também nos levou por muito distintas linguagens musicais. Facto que, aliás, estimula a curiosidade dos próprios artistas que quando não estão em palco circulam pelos outros espectáculos e integram-se no público. Estar em palco ou a dançar numa pista, parece dizer-nos o Sinsal, é condição meramente circunstancial.
A presença portuguesa fez-se sentir sobretudo através dos Travo, de Braga, que tiveram a responsabilidade – e o privilégio – de inaugurar a programação musical da ilha na sexta-feira. A banda correspondeu plenamente à expectativa, protagonizando uma actuação segura e vibrante que rapidamente conquistou um público acabado de desembarcar e ainda a instalar-se no recinto, mas já completamente rendido ao que se passava em palco. Ter sido o primeiro concerto do festival ajudou certamente a concentrar atenções, mas seria injusto reduzir o entusiasmo a esse factor. A música dos Travo, construída sobre uma pulsação motorik de evidente filiação kraut, atravessada por sugestões psicadélicas e incendiada por riffs de guitarra permanentemente em ebulição, revelou-se o arranque ideal para um festival que faz da descoberta uma das suas principais razões de existir. Já os Mocho Gris, projecto luso-galaico que junta João Neves e Lucas de Centi, apresentaram-se num formato alargado a quarteto, com Raquel Pimpão (aka Femme Falafel) nos sintetizadores e Miguel Arribas no saxofone. A expansão do núcleo original – assente nas vozes de Neves e no vibrafone, sintetizadores e programações de Centi – revela ambição e abre novas possibilidades tímbricas, mas ainda denuncia alguma necessidade de rodagem para que todos os elementos encontrem um equilíbrio plenamente orgânico. Ainda assim, o trabalho de reinterpretação do património musical português, que está aliás documentado no álbum 2 disponível no Bandcamp desde finais de 2024, do “standard” açoriano “Os Bravos” a “Grito” de Amália Rodrigues e “Adeus Que Me Vou Embora” de António Variações, deixa perceber um projecto com uma abordagem muito própria à ideia de “portugalidade” e com óbvia margem para crescer, justificando atenção às próximas etapas do seu percurso.
E a verdade é que, ao longo de três dias, o Sinsal voltou a afirmar-se como um dos mais cosmopolitas festivais da Península Ibérica. A programação reuniu artistas oriundos de Portugal, como já mencionado, mas também de vários locais de Espanha (Galiza, Maiorca e Sevilha), Japão, Mali, Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos e vários outros pontos do mapa, confirmando a vocação internacional do festival. Entre as dezenas de propostas passaram nomes tão distintos como Travo, Mocho Gris, Ben Zabo, NI-HAO!!!!, Mary Ocher, AK/DK, Cakes da Killa, Nadeem Din-Gabisi, Virginie Dembelé e muitos outros, compondo um itinerário onde conviviam rock psicadélico, folk experimental, electrónica, hip hop, tradições africanas, improvisação, pop de vanguarda e linguagens difíceis de catalogar. Essa dispersão geográfica é marca identitária de um festival que se afirma curioso perante o mundo e resolve-se num cartaz que voltou a demonstrar uma rara coerência curatorial, privilegiando artistas que desafiam fronteiras estéticas e geográficas.
Entre os muitos concertos, houve alguns que se destacaram de forma particularmente evidente. Na sexta-feira, Travo e Ben Zabo assinaram duas das actuações mais fortes do festival: os primeiros pela intensidade contagiante do seu rock psicadélico de pulsação kraut, o segundo pela forma como a tradição malinense se fundiu com uma energia contemporânea irresistível. Merecem ainda uma menção honrosa as japonesas NI-HAO!!!!, cuja descarga de energia punk e irreverência performativa conquistou facilmente o público, ainda que, a espaços, a insistência numa estética de choque fácil – riffs punk sobre techno gabba? Confere; cadências trap a suportarem vocais gritados em japonês? Idem aspas… – acabe por revelar uma fórmula algo previsível.
O sábado trouxe provavelmente o momento mais explicitamente político de todo o festival. Mary Ocher apresentou-se como pessoa nascida na Rússia, criada em Israel e há duas décadas radicada na liberal Berlim, percurso biográfico que atravessa inevitavelmente as suas canções e o seu discurso. A sua proposta cruza folk, ecos operáticos e uma dimensão teatral que remete para a tradição do cabaré, sustentada por piano, guitarra acústica, flauta e bases gravadas, enquanto as letras afirmam um posicionamento profundamente libertário, anti-guerra e politizado. A ideia de um “karaoke político”, com letras projectadas num grande ecrã para convocar o público, era conceptualmente feliz, mas teria beneficiado de um palco mais íntimo e da cumplicidade da noite. Bem diferente foi o impacto imediato dos britânicos AK/DK, dupla de bateristas que também recorre a electrónica e sintetizadores que assinou um concerto de enorme intensidade física, construído sobre a pressão rítmica metronómica e hipnótica do kraut tal como os Neu! o imaginaram. Já Cakes da Killa confirmou porque é um dos performers mais carismáticos da actualidade, dominando o palco apenas com um DJ, um microfone e uma presença queer magnética, enquanto apresentava temas do recém-editado New Bitch.
No domingo, a atenção centrou-se sobretudo em Nadeem Din-Gabisi e Virginie Dembelé. O primeiro surgiu mascarado, rodeado por loop stations através das quais foi construindo em tempo real camadas de voz, flauta e texturas sonoras que serviram de suporte a uma interpretação vocal verdadeiramente impressionante. As bandeiras da Serra Leoa e do Reino Unido colocadas sobre a sua mesa de trabalho funcionavam como símbolo de uma performance profundamente autobiográfica, reflectindo sobre a identidade, a migração e o sentimento de pertença de quem cresceu em Londres como filho de imigrantes vindos da Serra Leoa. Já Virginie Dembelé confirmou a extraordinária vitalidade da música do Mali, liderando uma banda de enorme energia e precisão que marcou o festival com uma celebração contagiante do poder colectivo do ritmo. Os dois nomes malianos no cartaz, como Dembelé fez questão de saber, chegaram a San Simón graças a um programa cultural desenvolvido em Bamako pela embaixada espanhola local. Um exemplo que poderia muito bem ser seguido por embaixadas portuguesas espalhadas pelo mundo.
Também os DJs tiveram um papel importante na definição da atmosfera do Sinsal, recusando a ideia de simples música de intervalo. Phonotoner, através do alter ego Galis 115, Viktor Flores e a dupla Matéria Prima DJs, formada por Paulo Vinhas e [NOME], desenharam percursos muito distintos mas igualmente estimulantes, capazes de ligar o dub mais espectral aos Roxy Music, o pós-disco dos Tom Tom Club à electrónica mais abrasiva e abstracta, o folclore sul-americano ao rock dos Led Zeppelin e por aí adiante, cruzando fronteiras como quem não tem que exibir passaportes. Em vez de uma única pista de dança, cada sessão propôs uma ideia diferente de dança, prolongando o espírito exploratório do festival para lá dos concertos propriamente ditos.
O Sinsal na ilha de San Simón terminou, mas a aventura prolonga-se até ao próximo fim-de-semana numa extensão ao Caminho Português de Santiago que resulta de uma colaboração com o festival bracarense Semibreve. Concertos, caminhadas sonoras e intervenções em espaços patrimoniais de Braga, Vigo, Oia e outros pontos do percurso confirmam que a organização quis transformar esta edição numa verdadeira travessia, alargando o festival para lá dos limites físicos da ilha e reforçando, de forma simbólica e muito concreta, a histórica ligação cultural entre a Galiza e Portugal. Afinal, esse sempre foi o verdadeiro tema do Sinsal: um destino e um caminho, um cartaz secreto e uma permanente disponibilidade para a descoberta que é, na verdade, um compromisso com um público de curiosidade generosa e de entrega genuína.