Jamael Dean // Black Space Tapes

[TEXTO] Miguel Santos

Há qualquer coisa de cósmico na música de Jamael Dean. O pianista e produtor conta apenas 21 anos de idade mas já teve a honra de — e a qualidade para — partilhar palco e canções com gigantes do jazz contemporâneo como Kamasi Washington (Dean empresta as teclas na trepidante “Tiffakonkae”, incluída no mais recente longa-duração do saxofonista, Heaven and Earth) e o dotado instrumentista Thundercat, que Dean acompanhou em tour. A sua música apoia-se no jazz mas o artista esforça-se para desafiar rótulos, começando pela escolha de editora: é a Stones Throw Records a sua casa musical e isso diz-nos algo sobre o seu espírito ecléctico.

Depois do curto EP Eledumare lançado em Setembro, chega-nos agora Black Space Tapes, o álbum de estreia que se esforça para ser interessante e apelativo, um projecto onde estamos continuamente a tentar perceber o que está a acontecer em cada música. É um disco de experimentação, a começar por “Akamara”, uma longa introdução a desafiar as leis do streaming. O tema é esparso, vai saltitando entre vários momentos sem nunca se contentar com nenhum, soa a um soundcheck com batida. Notam-se alguns paralelismos com os trabalhos mais experimentais de Miles Davis como In A Silent Way ou especialmente Bitches Brew, mas “Akamara” apoia-se em demasia na improvisação de Dean e acaba se perder na sua própria liberdade. Já “Adawa” consegue juntar o melhor de dois mundos. Sob uma discreta bateria, a música vai-se desenvolvendo, com ondas de piano que vão e vêm retornando sempre a um doce motivo composto por bonitos arpejos, com uma estrutura que nunca se torna monótona. É a faixa mais “tradicional” de todo o projecto: Dean sabe que antes de reinventar a roda há que entender muito bem como usar os moldes anteriores.

Mas é a inovação que o descreve principalmente, a remistura de “Akamara” torna isso bem claro. É uma das melhores músicas do projecto que junta solos prodigiosos de piano a uma batida com mais groove acompanhada por curiosos e fantasmagóricos sopros. É estranha e “abafada”, mostrando o seu autor como alguém inventivo e disposto a arriscar. 

O piano é o instrumento de Dean mas é na produção que se vê verdadeiramente o seu conhecimento. “Olokun” mostra-o como um perito na modulação sonora com uma composição dançável e calorosa que só falha na maturação da ideia. No entanto, “Emi” demonstra que a valência certeira de Dean ainda precisa de afinar a pontaria: entre fade outs e destreza instrumental, o tema vai-se formando nos nossos ouvidos apenas como uma amálgama de muita coisa que o artista quer dizer mas que ainda não sabe exactamente como, resultando numa canção que parece apressada pela maneira como se desfaz de motivos musicais para passar rapidamente para a próxima. 

Ao ouvirmos Black Space Tapes fica algo claro: é um álbum que nunca se torna aborrecido. É como observar em tempo real uma gigante nebulosa a formar-se mas é uma que ainda não chegou ao seu ponto mais denso. Ainda é um corpo instável, um que está claramente em trajectória de ascensão. Nesse sentido, o nome é adequado: o projecto é uma exploração interplanetária por uma das mais interessantes galáxias musicais dos tempos modernos, uma ode re-introdutória à astronomia que encontramos no jazz. 


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