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Fotografia: Nuno Martins
Publicado a: 19/05/2026

Entre o íntimo e o comunal.

Causa|Efeito’26 — dia 2: (e)vocações 

Fotografia: Nuno Martins
Publicado a: 19/05/2026

O grafismo deste ano no Causa|Efeito levou uma volta. Perdeu o harpejo geométrico e multicolor das outras edições, passou a uma simbologia só. Contudo, pareceu apontar a uma possibilidade, em  hipótese de contracção instrumental, com uma ideia de vórtice pelo meio: uma cravelha, um braço, um corpo sonoro de campânula. Como se um protótipo de cordofone de sopro fosse — o lugar do híbrido ou o risco do novo risco. E torna-se inevitável lembrar a capa d’O Carro de Fogo de Sei Miguel (Clean Feed, 2019), na estampagem um desígnio — a trompete e a espiral. 

Ligação directa à ideia contida no segundo concerto programado para o segundo dia do festival do novo jazz na Nova. Na Sala de Esgrima, no degrau da escadaria, Miguel Abras (sentado) e Pedro Lourenço (em pé) ambos munidos de baixo eléctrico, ladeados por Bruno Silva em guitarra eléctrica, e Fala Mariam em trombone alto — quarteto Depois das Peças. À excepção de Abras, os demais músicos presentes estiveram nessa experiência importante — a quarta formação d’O Carro de Fogo de Sei Miguel. Que citava, como William Blake apelava, “Bring me my Bow of burning gold / Bring me my Arrows of desire / Bring me my Spear: O clouds unfold! / Bring me my Chariot of Fire”. Um propósito na evocação e também esta no nome. Sei referia-se às suas composições sempre como “as peças”, ou umas “pecinhas” até. “Uma pessoa chama as peças e depois, às vezes, os nomes são tão estranhos”, como dizia, entre as mesmas, no concerto do seu quarteto no Museu Industrial da Baía do Tejo aquando do OUT.FEST’17. Nessa ocorrência, e em entrevista, explicava Sei Miguel: “Quando estamos a tocar sentimos um bocado sós, isto aqui é uma música de individualidades”, contrapondo o tocar em quarteto ao Carro de Fogo que, “ao contrário, é um objecto sonoro”. Lembrava ainda sobre a sua prática: “(…) de resto estou sempre em estúdio a trabalhar, a gravar peças, e é muito lento porque eu sou pobre”. Mas de uma riqueza musical como poucos, acrescentemos em justeza.

Depois das Peças apresenta-se em partes — duas. Uma parte minuciosa e ténue, algures no rasto dessa “Manhã Minuciosa dos Planetas” do quarteto de Sei Miguel. A outra voraz, ambas no legado composicional de Sei. Discurso introspectivo através das varas operadas por Mariam que agora já não mais dialogam com a trompete de bolso que brilhava além do metal. A separar as duas peças, a evocação pelas palavras do guitarrista-poema. E Abras na função diseur de Frank Zappa: “Information is not knowledge / Knowledge is not wisdom / Wisdom is not truth / Truth is not beauty / Beauty is not love / Love is not music / Music is THE BEST.” Foi assim, como as individualidades das cordas, da guitarra de Silva (que Sei apreciava na beleza do som), à massa exploratória e densa dos baixos. Vivida nas limitações de cada um, porque e como referia Sei Miguel: “Uma pessoa por mais que trabalhe, que melhore, acaba sempre por ter limitações. O melhor que podemos fazer é escolhe-las, porque vamos ter sempre limitações”. E os limites agora são da natureza da ausência, porque Sei Miguel “apenas” terá escutado esta música, e que era também a que sempre (lhe) tocou.



Antes, o Causa|Efeito fez subir à meia-escadaria da Sala de Esgrima o oudista Gordon Grdina, presença por certo no campo evocativo da tradição árabe e improvisação livre e contemporânea. Algo que este vosso cronista, em funções no Rimas e Batidas perdeu por completo — retido em dédalos nos transportes públicos da grande urbe.

A noite fez-se grande, pela enorme partilha comunal — intensidade, paixão e cumplicidade entre uma bateria percutida e um saxofone lírico e cativante. Sofia Borges nas baquetas, em palco com Ada Rave nas chaves e palheta do tenor. Um concerto com entrada directa para os inolvidáveis do programa alargado às quatro edições de Causa|Efeito. Cada uma é para o que nasce — diz o adágio popular. Borges nasceu para a bateria como Rave para o saxofone. Retomando a ideia de Sei — das limitações no saber fazer —, aqui e para estas duas magas, mais parecem, na pior das hipóteses, estarem ou terem sido muito bem disfarçadas.

De Rave sabíamos-lhe esse sopro em fusão, entre outras vozes de Melt, com Susana Santos Silva (trompete), Mette Rasmussen (saxofone alto) e Kaja Draksler (piano), gravado nesse Portalegre JazzFest de 2019. De Borges demos conta aqui, na sua passagem pelo Rescaldo de 2024, quando se apresentou em premiere com Marta Warelis. Aliás, Borges tem uma predilecção para duos, apresentou a meio do concerto uma outra gravação que verá a luz do dia em Outubro, com Yedo Gibson, para completar o díptico de saxofone e bateria, que abriu com The Unseen Pact (Relative Pitch, 2025), precisamente com Ada Rave. 

Um saxofone tenor que se apresenta ao regaço, em modo sentado, disposto a ser tricotado em trinados. Chamado à cena do rodopio dos sons pelo timbre preciso das placas metálicas perfuradas que a tarola sustenta. Rave e Borges dão e entrelaçam as mãos através do enredo sonoro. Frenéticas logo à partida. Esta bateria ouve-se como uma ciranda sem concessões ou grandes pausas, plena de ideias e que parece não caber de todo no conceito de peles e metais, tem sempre algo mais — uma bateria em percussão. Inumano, talvez, aguentar esse ritmo, e respiramos em conjunto quando chega a acalmia entre tilintares e sussurros que se vêem e ouvem num canto direccionado para o ar. Plasma de palheta feito. Intrometidos os objectos na campânula — em exaptação, e nada do que imaginamos se torna absolutamente impossível. O saxofone torna-se uma busca incessante pela ressonância desconhecida. Respirar — respirando. Acção circular na tarola onde ainda habitam como totens sonoros as entidades perfuradas. O saxofone ao colo presta-se a um dócil ataque feroz que harmoniza bem com os redemoinhos das baquetas, até aos vozeares guturais e outras minudências de subtilezas que fazem “descer” o pano sonoro do primeiro acto.

Ao retomar para o segundo acto em epílogo — meio que a pedido e tornado irrecusável —, Rave tem o saxofone de viés em modo de perna cruzada, elegâncias que se transpõem em visuais sonoros. Rumo ao final pelo som das peles — nem tanto percutidas, mas mais ressoadas pelas baquetas de bola de borracha que não apaga, antes intensifica a vibração. Já o tenor se faz em causa mais alto, oscilando a lata introduzida para o efeito. Um duo deveras operante na imagem do som — ver de ouvidos tapados seria como ouvir de olhos fechados e nisso ter perdido o fio à meada, de todo!



Um trio para fechar o programa, pleno de sentido de uma causa e seu efeito, a terceira e derradeira estreia mundial nesta edição do festival. E refira-se em reforço que todos os músicos tocaram pela primeira vez neste certame — repetição é palavra que só entra neste vocabulário programático para render mais a presença de alguns notáveis — Wilbert de Joode no contrabaixo é o caso. Volta agora com Sun-Mi Hong na bateria e Ziv Taubenfeld em clarinete-baixo. O que dão a ouvir de pronto é acometido por um feedback indesejado. Estavam no ponto de algodão, feltrados pelo som das baquetas sobre as peles. De Joode mostra-se com identidade vincada para retomar — volta-se a ouvir aquele bater de mãos nas ilhargas do contrabaixo junto ao braço — traz-traz, num imprimir do ritmo, no tempo certo. Há uma boa dose de descida aos agudos do grave que este clarinete transporta — imprime um timbre de abstracção que atrai de facto. Um trio a emitir mas que sabe, e muito, escutar, que entende a passagem do enésimo avião como parte da paisagem sonora a respeitar. As cordas do contrabaixo descem na escala até à nota pedal do ruído vindo do pássaro de ferro. Instalam-se duetos dentro do trio. O primeiro a revelar foco sonoro acontece entre Sun-Mi e de Joode, uma linguagem comum talvez trazida das paisagens dos Países Baixos que ambos tomam como casa. Taubenfeld também por lá habitou, e fez-se notar na cena de Amesterdão, antes da sua mudança para Lisboa. 

Desde o sopro de Taubenfeld, o trio assume-se numa veia indomável, que depois de desafiado pela bateria em impetuoso toque, se deixa cair num pós-klesmer-jazz levado pelo clarinete. A propósito, Taubenfeld nasceu na Galileia, cresceu na Europa Central, e o klezmer surge sobretudo enraizado na cultura dos judeus asquenazes. Haverá pontes que o justifiquem, e lhe atribuam propriedade cultural para ali surgir sem nos darmos conta. Já a política manifesta dessas comunidades aos dias de hoje importa melhor esclarecer. Há ocupações e genocídios em curso, a música serve para unir culturas e é o próprio Taubenfeld o primeiro a expressar de viva voz que “nestes tempos é maravilhoso estarmos juntos” — mas perguntamos, em retórica: de que lado efectivo é que estamos?

A passagem do trio a quarteto faz-se a convite de uma sopradora mais — Rave volta à cena, num novo contexto. De Joode é fio de prumo desta música e encontra-lhe ponto de equilíbrio, recentra-a sempre que se justifica. “Desejo que isto continue para sempre”, refere o timoneiro-contrabaixista com satisfação por estes dias de música e comunidade no festival. Os sopros lado-a-lado fazem do encontro nas palhetas jogos de desencontro nos sons. Taubenfeld é mecanismo de suporte e Rave discorre frases  melódicas sob o poder de uma baterista imbuída na sua cultura nativa, evocando o espírito sonoro do janggu — o tambor da tradição sul-coreana. Eis que deste encontro veio de pronto outro. Dá-nos conta José Lencastre, em reportagem para o Rimas e Batidas, que Taubenfeld e Rave encontraram na guitarra de Luís Lopes um novo trio que teve a sua estreia na noite seguinte, sem sair da mesma cidade, e findo que estava este Causa|Efeito. É isso que apontávamos no sentido da combinatória de músicos — exogamia do jazz, com efeito imediato.


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