Vinil / Digital

Beatriz Pessoa

Muito Mais

Cuca Monga / 2026

Texto de Margarida Sajara

Publicado a: 05/05/2026

Tags: Beatriz Pessoa

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Depois de PRAZER PRAZER de 2023, Beatriz Pessoa regressa com Muito Mais, um longa-duração de 45 minutos que marca uma mudança e amadurecimento da carreira da artista. O álbum é o resultado de um trabalho que se estendeu por quase dois anos, atravessados por momentos de desencanto com a cena musical e com a experiência transformadora da maternidade. Resultado? Um género de desabafo e libertação que podia ser a banda sonora de um musical.

O disco abre com “Pó de Palco”, um dos títulos mais criativos da música portuguesa da atualidade. Além de ser orelhudo, é um trocadilho género trava-línguas que nos coloca um risinho parvo na cara. O tema nasceu de um momento de frustração com o meio musical, que aconteceu ao mesmo tempo que Beatriz Pessoa entrou numa outra fase de vida: a maternidade. Apesar desta desilusão, devido a ambientes pouco estimulantes e marcados por rótulos, a cantora reconciliou este namoro e ofereceu-nos a faixa como forma de mostrar a relação quase tóxica que tem com a indústria. É alérgica a este “pó”, mas não vive sem ele.

Outro trocadilho no disco é “Tania Shwain” referente, obviamente, à rainha do country pop, conhecida mundialmente por temas como “Man! I Feel Like a Woman!” e “That Don’t Impress Me Much”. Apesar da referência, a faixa é prima da MPB e conta com uma fusão de estilos característicos da própria Beatriz Pessoa.

A segunda canção do LP, intitulada “A Pique C’est Chique” vem diretamente da gaveta. O tema foi escrito para uma fadista, mas nunca tinha sido lançado. Acabou por ser reconstruído em patchwork com GUSS, o produtor de Beatriz Pessoa. Pegaram em partes do tema e ofereceram-no com uma roupagem totalmente diferente. Depois de largar o preconceito de ser, talvez, considerada uma cantora pop, eis que surge “Treme”. Uma faixa de 4 minutos que explora ritmos mais dançantes. Not my favorite, mas cumpre o propósito.

Destaca-se também o único (quase) interlúdio cujo título é tão cativante quanto a própria canção. “La Fúria”. Um género de improviso gibberish e que fica na cabeça. Curto, direto, giro. O LP conta ainda com temas como “Fim do Princípio”, “I Wish” (cantado em inglês), “Espanta” (parceria com Guilherme Gomes mais virada para a experimentação e o jazz), e o mais introspetivo “Figuração”.

Contudo, os “meninos de ouro” são outros. O êxito “9,99€” é, sem dúvida, um exemplo de uma crítica irónica ao consumo imediato e ao capitalismo em massa. Se a música e o humor tivessem uma filha, era esta canção. Inspirada por cartazes publicitários, Beatriz Pessoa criou um tema viciante, pop, icónico e com uma pitada de sarcasmo que adiciona aquilo que se quer numa música: a vontade de ouvir vezes sem conta — e esta é de ouvir e chorar por mais.

Segue-se “Ai Quem Me Dera”. Uma colaboração entre duas Mulheres, com M maiúsculo. Raquel Pimpão, conhecida por Femme Falafel, que já era teclista de Beatriz Pessoa, adiciona frescura, autenticidade, ritmo e salero. Além de amigas, a cumplicidade musical de Beatriz Pessoa e Femme Falafel nota-se — e bem! — neste tema. A letra fala de comparações constantes nas redes sociais e insegurança pós-parto, com humor e autocrítica. “Ai Quem Me Dera” é um dos momentos mais fortes do disco.

Outra colaboração é a faixa-título. GUSS aparece novamente e dá um toque mais indie pop à música. Há um dueto que não se complementa, mas completa-se. Óptima escolha musical para fechar e para baptizar o longa-duração. Se estivéssemos a assistir a uma peça de Filipe La Féria e os atores em palco cantassem “Muito Mais”, não nos admirávamos. Fica a dica.

Mas a taça pertence ao único tema ainda não mencionado neste artigo. “Não, Não, Não”. A penúltima faixa do LP é um slow que nos lembra de uma das grandes estrelas deste meio — a malograda Amy Winehouse. Tem sopros, tem cordas, enche a audição. Tem vida. É uma exploração sobre o poder que a palavra “não” possui. E é aqui que vemos que Beatriz Pessoa passou de menina a mulher. Há uma confiança, uma mudança vocal, um toque amadurecido na composição do tema. Não há rótulos. Há a essência da cantora a vir ao de cima e a dizer: “Estou aqui. Não vou sair”. E que bem que chegaste. Chegaste bem, amadurecida e Muito Mais, Beatriz.


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