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Fotografia: Direitos Reservados - Moor Mother

A banda sonora da agitação do nosso presente está a ser criada por jovens músicos que entendem o jazz como um corpo vivo, mutante e potencialmente revolucionário, uma música que pode – e talvez precise – servir de veículo às reflexões, aos lamentos, aos protestos e aos manifestos que este tempo vai legar ao futuro.

A revolução não vai dar na televisão (mas pode ser ouvida na Internet)

Fotografia: Direitos Reservados - Moor Mother

Vivemos tempos paradoxais: se por um lado, a civilização parece ter avançado – nunca a mobilidade foi tão ampla, nunca antes na história o acesso à informação foi tão fácil, etc –, por outro há sinais evidentes do que por vezes parecem recuos incompreensíveis – negacionismos de diversa ordem, ameaças constantes ao equilíbrio democrático de tantas nações, um crescimento generalizado da intolerância. No advento do movimento #BlackLivesMatter, as ruas da América transformaram-se em palcos de batalha, derrubaram-se estátuas que simbolizavam o perpetuar do pensamento que ainda hoje sustenta os desequilíbrios que nenhuma sociedade ocidental desenvolvida conseguiu obliterar, e a música – alguma música pelo menos – assumiu as dores do necessário combate, transformou-se em veículo de pensamento e reflectiu a ebulição em que este pandémico presente parece viver.

Este presente tem, no entanto, raízes fundas no passado. Foi logo em 1970, expondo ele mesmo uma mais radical perspectiva nascida da militância no Movimento pelos Direitos Civis, que Gil Scott-Heron, de forma agudamente presciente, garantiu que a revolução não iria dar na televisão, que seria em directo: “Porque as pessoas negras estarão nas ruas em busca de um dia mais brilhante”, explicava o poeta, “a revolução não será uma reposição, irmãos, a revolução será em directo”. Quatro anos mais tarde, no extraordinário Winter in America, no entanto, o tom já era mais sombrio, e a exaltação de uma vibração que tinha sido captada nas ruas durante as marchas de um milhão de homens e mulheres em busca de liberdade e justiça foi substituída por um fundo lamento, bem exemplificado em “H2Ogate blues”, um amargo retrato de uma América a quem não bastou oprimir homens e mulheres negrxs e que foi para a Ásia tentar subjugar nações quando se mostrava incapaz de resolver os seus próprios problemas:

“How long will the citizens sit and wait?
It’s looking like Europe in ’38
Did they move to stop Hitler before it was too late?
(No)
How long, America, before the consequences of
Keeping the school systems segregated
Allowing the press to be intimidated
Watching the price of everything soar”

As palavras que Gil Scott-Heron escreveu no ano em que por cá também se fez uma revolução nas ruas continuam válidas hoje e talvez isso ajude a explicar porque Makaya McCraven foi recentemente escolhido para insuflar nova vida naquele que foi o derradeiro registo do poeta. Neste novo jazz que se estende entre a Chicago de McCraven e a Londres de Shabaka, entre a América que clama por justiça nas ruas e a Inglaterra onde também se derrubam estátuas de antigos traficantes de escravos, adivinha-se esse mesmo fervor revolucionário que um dia inspirou o poeta a quem não bastou a “small talk”, e que se afirmou como um libertário pensador antes dele mesmo ter sido vítima dos abismos em que viu caírem tantos dos seus irmãos.

Assim, em muitos discos recentes, lançados entre a Inglaterra de Boris Johnson e a América de Donald Trump, encontra-se o conforto de uma mensagem forte de mudança e de superação, escuta-se o eco desse clamor que se ergueu das ruas, e na música que esses registos contêm, vibrante e caótica, espiritual e poética, urgente e sofisticada, espelha-se a riqueza de uma tradição que soube nunca se cristalizar ou enfiar-se dentro da redoma de um museu, que soube evoluir e procurar novas nuances, novas ferramentas e novas práticas, novos swings, novas formas de elevar o espírito sem deixar de agitar o corpo.

Nesta selecção, às baterias e aos baixos, aos pianos e sopros e guitarras, juntam-se os microfones que amplificam as vozes que gritam e declamam, que cantam o que significa ser negrx num mundo em que a cor de pele pode ser uma sentença inultrapassável.



[SAULT] “Black”

“Black is excelent, black is older than earth, black is sweet, black is God. God is Us”. Explica-se em “Black is”, antes de, mais à frente no alinhamento do extraordinário Untitled (Black is), se reduzir o pulsar livre a uma pontuação marcial sobre a qual uma voz masculina declara “I’m black” antes da resposta, vinda de uma voz feminina, expressar a incerteza com “don’t you dare loose yourself, beautiful”. Ser um homem negro nas metrópoles da América ou da Europa parece ser o equivalente a caminhar com uma sentença nos ombros, diz-nos a canção, que é rematada com um angular solo de guitarra eléctrica, urgente, sujo e vibrante, como este tempo.



[Matana Roberts] “her mighty waters run”

É profundo, o lamento espiritual que Matana Roberts aqui expõe: neste continuado retrato da América proposto na série Coin Coin, que o ano passado mereceu o seu quarto capítulo, a saxofonista, compositora e artista plástica mergulha mais fundo na sua própria memória, investigando raízes familiares para expor o seu próprio lugar num continuum histórico e cultural. E o seu jazz libertário procura fundações nos espirituais que os seus antepassados inscreveram no seu próprio ADN, porque o tempo, defende Matana, não é algo imutável, move-se, propõe-se novos significados, revela-se sob novas luzes. E o presente, não restam dúvidas, é uma poderosa lente que permite olhar para a História e nela encontrar novos significados.



[Damon Locks Black Monument Ensemble] “Rebuild A Nation”

“Posso reconstruir uma nação… que já não funciona”, entoa-se, em jeito de promessa carregada de esperança, em Rebuild a Nation, tema do maravilhoso Where Future Unfolds, do artista plástico, poeta, manipulador de electrónicas, pensador e agitador Damon Locks, líder do Black Monument Ensemble em que também milita Angel Bat Dawid. Trata-se de uma trupe, que inclui além dos músicos, cantores, bailarinos, estilistas e pintores, que procuram uma visão total da arte e um engajamento político com o presente. A música como activismo, capaz de impulsionar a mudança. Porque é mesmo possível reconstruir as nações.



[Irreversible Entanglements] “No Más”

“Infinitas possibilidades, sei que somos mais do que círculos”, garante Camae Ayewa, aka Moor Mother, “não somos reflexos desligados de uma fonte de vida”. A poesia de Camae, juntamente com a música criada pelo saxofonista Keir Neuringer, pelo trompetista Aquiles Navarro, pelo contrabaixista Luke Stewart e pelo baterista Tcheser Holmes, ergue-se como um dedo espetado na cara da culpa colectiva, como um alerta para o fim dos tempos, como um farol que aponta o caminho possível, sobre um pulsar firme, assertivo, mas fluído como um rio ao mesmo tempo. É um dos mais vibrantes momentos do enorme Who Sent You, lançado em Março passado. “Já chega”. “No Más”.



[Moor Mother] “OLEANDER”

Antologia lançada digitalmente no passado mês de Junho, este é mais um estonteante trabalho da multifacetada Camae Ayewa, aqui acompanhada por músicos como Aquiles Navarro (trompete, também dos Irreversible Entanglements), Madam Data (clarinete) ou Elliot Levin (flauta). E é sobre uma caótica camada percussiva, colagem de produção electrónica a cargo da própria artista e de Olof Melander, que as palavras de Moor Mother pintam os seus obtusos retratos: “poesia é a minha especialidade”, assegura, enquanto desenrola um denso novelo de palavras sobre uma “nação de répteis”.



[Mourning (A) BLKstar] “These Hands Are Up”

Funk, soul, avant garde jazz, poesia, hip hop… as coordenadas usadas para descrever os Mourning (A) BLKstar, colectivo de Cleveland que este mês merece capa da revista britânica Wire, são um bom indicador da sua híbrida e fluída identidade estética. Como tantos dos seus pares aqui mencionados, estes músicos liderados (relutantemente, revela-nos o artigo de Neil Kulkarni na já referida revista britânica) por RA Washington, mais um poeta com uma visão aguda do presente da América, encontram numa visão total da música negra americana a sua principal inspiração, fincando os pés no presente ao não recusarem nenhuma das possibilidades que lhes foram abertas pelo passado. Este tema, “These Hands Are Up”, está disponível para descarga livre na sua bem apetrechada página de Bandcamp.



[Shabaka and the Ancestors] “They Who Must Die”

“Fomos enviados aqui pela história”, grita-se em “They Who Must Die”, o sufocante tema de abertura do mais recente registo dos Ancestors de Shabaka Hutchings, We Are Sent Here By History.  Com o poeta Siyabonga Mthembu, o baixista Ariel Zamonsky, o baterista Tumi Mogorosi, o percussionista Gontse Makhene e o saxofonista alto Mthunzi Mvubu (além dos participantes pontuais Nduduzu Makhathini e Thandi Ntuli, ambos pianistas, e ainda Mandla Mlangeni, trompetista), Shabaka Hutchings, líder e compositor de serviço, construiu uma espantosa reflexão sobre a História, que parte do legado mais espiritual do jazz ao encontro de um futuro de novas possibilidades que passam pela recontextualização de bagagens culturais específicas. “Estamos a falar acerca de estruturas imaginativas, estamos a falar sobre como entendemos as coisas e como processamos a informação que nos é dada – como nos vemos no sentido de como nos relacionamos com a história”, explicou o líder ao New York Times. Musicalmente, isso significa uma consciência da espiritualidade explorada nas obras de Sun Ra, da família Coltrane, de Archie Shepp ou Pharoah Sanders (Thembi há-de, certamente, ter sido uma referência: também tem saxofone alto e tenor, embora ambos assegurados por Sanders, percussão, baixo e piano…), mas também uma muito clara ideia do contexto presente, do trabalho que tem sido feito por uma nova geração para ancorar o jazz não no dogma, mas nas inúmeras possibilidades abertas pelo escancarar de fronteiras entre géneros, entre culturas, entre experiências.



[Sarathy Korwar] “Birthright”

“A minha casa é a tua casa, diz o homem que te roubou a terra”. A música de Sarathy Korwar, autor do extraordinário More Arriving, é um reflexo da sua complexa identidade: nascido na América, de ascendência indiana, criado em Londres… Misturando jazz, música clássica indiana, hip hop e outras coordenadas, este percussionista é mais um artista que entende a música como espaço de reflexão sobre o mundo, sobre a política opressiva dos estados modernos, sobre a raça, sobre o lugar. E este tema, lançado em Abril último, coloca na voz do poeta e colaborador frequente Zia Ahmed uma pungente reflexão sobre a pertença, a cor de pele, a classe, a fé, a terra, enquanto uma hipnótica base nos tira o chão debaixo dos pés.



[Jaimie Branch] “prayer for amerikkka pt. 1 & 2”

Os dois volumes de Fly or Die contêm alguma da mais estimulante música que o presente nos tem oferecido: jazz com nervo e generosas doses de invenção, com aguerrido espírito punk e capacidade de elevação das consciências, com a trompetista Jaimie Branch a afirmar-se a cada passo como uma das mais relevantes vozes musicais da actualidade graças a uma atitude de feroz independência criativa: Jaimie afirma-se livre de géneros, de expectativas, de correntes. Neste tema, essa urgência é traduzida em palavras que não admitem segundas interpretações: “temos por aí um punhado de racistas de olhos esbugalhados. E eles pensam que mandam nesta merda”, afirma a artista, canalizando o melhor da poética entrega de Patti Smith antes de no final da peça nos oferecer um igualmente poético solo com ecos de Miles e de flamenco.



[The Comet is Coming] “All That Matters Is The Moments”

É Joshua Idehen quem proclama: “O cometa está a chegar! A Babilónia já ardeu!” E mais adiante, depois de uma feérica ascensão de Shabaka Hutchings ao cosmos, “todos estes monumentos, todos estes momentos, caem sobre o meu corpo/ empilham-se na minha mente/ Na minha cabeça há areias movediças e a minha mente não repousa/ o fim do mundo e a minha mente não repousa”. O jazz como trampolim para o infinito, como palco de exposição para os problemas mais profundos dos tempos modernos, sejam eles as complexas lutas que é necessário travar nas ruas, ou as duras batalhas que nos aguardam no nosso mais secreto íntimo.



[Keleketla]Crystallise

O tom de Shabaka Hutchings é por esta altura imediatamente reconhecível. E é ele que brilha sobre o dramático e urgente pulsar grime que serve de pontuação a este tema em que também se impõe a cadência vocal de Yugen Blakrok. É um dos momentos altos de Keleketla!, o projecto em que músicos de jazz sul-africanos, britânicos e norte-americanos se cruzam sob a orientação dos Coldcut que orquestram aqui uma homenagem ao projecto de activismo comunitário Keleketla Library, um hub criativo de Joanesburgo. “O meu coração é uma relíquia sagrada”, revela Yugen, “macio, duro e metálico/ com um sistema nervoso separado que vibra psicadélico”. O afrofuturismo em plena acção.



[Asher Gamedze] “interregnum”

“Fundamentalmente, é acerca da reclamação de um imperativo histórico. É acerca do dialecto da alma e do espírito enquanto ele se move através da história. A alma é dialéctica. O movimento é imperativo. Estamos sempre a mover-nos”, explica o baterista sul-africano Asher Gamedze a propósito do seu espantoso Dialectic Soul, álbum com que agora se estreou na britânica On The Corner Records, oferecendo-nos um tocante estudo sobre o ser e a identidade, num diálogo entre a sua bateria livre que representa “o autónomo movimento africano” e o saxofone que ilustra “a violência do colonialismo”. E neste tema, em modo de solene recitação, uma história, qual griot dos tempos modernos a debitar uma parábola, sobre uma criança e um vestido.



[Angel Bat Dawid] “What Shall I Tell My Children Who Are Black (Dr. Margaret Burroughs)”

Nascida em 1915, no Louisiana, Margaret Burroughs foi uma artista visual, poetisa, escritora, pedagoga e organizadora comunitária que fundou o Ebony Museum de Chicago, explica-nos a Wikipedia. A Dra. Burroughs é também uma das mentes que se elevou num tempo em que a opressão era descarada, ancorada num sistema cultural, político e histórico, pensado para subjugar. Compreende-se que sirva de inspiração a uma mente criativa como Angel Bat Dawid. Pergunta ela, neste belíssimo tema, que arranca como uma canção de embalar, “o que devo dizer aos meus filhos que são negros? O que significa viver aprisionado nesta pele escura?” A sobreposição das vozes representa depois a transformação em música, em arte, das duras questões que assaltam quem não sabe exactamente o que dizer aos seus filhxs negrxs.



[Kassa Overall] “Show Me a Prison”

Foi o próprio Kassa Overall que nos explicou como nasceu este tema, reflexão sobre a América que encarcera os seus filhos, em que surge a voz da histórica activista Angela Davis: “Há um artista chamado Phil Ochs, um cantor folk dos anos 60, e ele tinha uma canção chamada ‘There But For Fortune’, e a Joan Baez, outra grande cantora folk, também fez uma versão desse tema. Eu apaixonei-me por esta canção ao ouvir a versão da Joan Baez. É um daqueles temas que gosto de escutar quando estou com uma certa disposição. Eu peguei no primeiro verso que sempre me disse muito e depois basicamente improvisei em torno daquela ideia. A parte musical do tema veio de um improviso com o Craig Taborn, um pianista com quem eu toquei na Jazz Gallery. E, claro, como já expliquei ando sempre com o meu equipamento para gravar em qualquer lado. Gravei isso que acabou por me servir de base para o tema. A canção já abordava o sistema prisional, era para aí que a coisa se estava a inclinar, e aquele verso que eu aprendi na versão da Joan Baez encaixava no que eu queria dizer. É uma gravação muito complexa: porque nasceu do improviso do Craig Taborn, mas depois fui para estúdio e reinterpretei esse material, cortei-o, samplei-o, e depois a minha banda tocou em cima dos samples, e depois peguei nisso, fui para casa e cortei tudo e foi em cima disso que fiz a parte vocal e depois ainda convidei o J Hoard para cantar também. E tem a voz da Angela Davis… esse tema deu muitas voltas até chegar à forma que escutas no álbum. Mas a minha música, de certa forma, é assim e dá sempre muitas voltas antes que alguém a escute”.



[Gil Scott-Heron + Makaya McCraven] “Me and the Devil”

O velho blues de Robert Johnson, gravado há mais de 80 anos, possui uma tal força que foi ganhando novos significados à medida que a história da América se foi desenrolando, nunca perdendo o seu dramático vigor original. Este diabo de que o lendário bluesman falava podia ser real ou espiritual, o capataz da plantação, o polícia, o vício, a tentação inescapável, a opressão insustentável. E esse é, enfim, o “diabo” de que falam, de uma maneira ou outra, todas as palavras aqui listadas. Na voz de Gil Scott Heron e sobre o esparso beat de Richard Russell, este tema, originalmente lançado em 2010, adquiriu uma igualmente sombria ressonância pessoal: o poeta há 16 anos que não lançava música nova, tendo caído nos abismos do consumo de drogas e álcool que o levaram mesmo a ser preso, cumprindo o retrato que tão claramente havia pintado em tempos num clássico como “The Bottle”. 10 anos depois, o baterista Makaya McCraven foi desafiado a pegar na voz de Gil Scott Heron (e falou-nos sobre isso) e a reinventar o seu derradeiro registo, I’m New Here, que assim se transformou em We’re New Again. E essa é outra das ideias explorada neste artigo: a de que a música negra é um grande corpo em permanente fluxo, alvo de constantes transformações, um depósito de histórias, de ideias criativas, de gestos de resistência, de marcas de identidade. Nas mãos do baterista e produtor, “Me and the Devil”, por Gil Scott-Heron, transformou-se de um sombrio lamento em toada minimal pós-dubstep, num bem balançado tema hip hop, quase barroco na sua sobreposição de samples, completando um longo circulo, nascido nas plantações e prosseguido nas entranhas das grandes cidades, das margens do Mississippi ao Bronx, do sul segregado ao norte que, décadas e décadas depois, continua a ser palco de lutas. O futuro ainda não está ganho. E as palavras feitas poesia, feitas canções, bem o sabemos, também podem ser armas.

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