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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #5: Irreversible Entanglements / Don Pie Pie / Old Mountain

Ilustração: Riça
Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.
[Irreversible Entanglements] Who Sent You? / International Anthem – Don Giovanni Records Alex Smith acerta em cheio quando, nas liner notes que acompanham Who Sent You (e uma palavra de profundo apreço para a inclusão de notas de capa em discos de jazz, uma tradição com raízes fundas que se parece ter, infelizmente, perdido), escreve que este é “um álbum que funciona como um pacote de ajuda selado a quente para as maquinações pré-voo do Afrofuturista moderno”. E o Afrofuturista moderno, parece dizer-nos Camae Ayewa, aka Moor Mother, nas intensas palavras com que dá a este novo trabalho dos Irreversible Entanglements uma claríssima espessura ideológica, tem que estar preparado para sobreviver nestes apocalípticos tempos presentes porque, afinal de contas, e como nos diz a poetisa, “you can’t save the night here in America”. Os Irreversible Entanglements são o resultado de um encontro de dois projectos diferentes que se uniram numa data organizada pelos Musicians Against Police Brutality à época a protestarem contra a morte “acidental” de Akai Gurley, em Brooklyn, em 2014. Às palavras de Camae Ayewa junta-se o tremor colectivo conjurado por Keir Neuringer (saxofone e percussão), Aquiles Navarro (trompete e percussão), Luke Stewart (contrabaixo e percussão) e Tscheser Holmes (bateria e congas). E é quase como se os músicos deste quarteto levassem à letra a ideia defendida por James Brown de que na sua big band todos os músicos – os da secção de metais, o pianista, a secção rítmica, o organista, o guitarrista… – tocavam bateria. Há, de facto, uma noção de movimento constante, de propulsão, que traduz a urgência que atravessa as palavras. “Stay on it”, começa, aliás, por nos dizer Ayewa, um incentivo para que se mantenha o curso porque já não sobra assim tanto tempo: “A mountain ain’t nothing but a tombstone for fire/ And you can’t save the night here in America/ where we forget the names of our ancestors/ and scream out into the void, helpless without courage/ We forget how strong our grandfathers hands/ brick by brick building new America/ and our mothers/ and our mothers giving birth to us”. Para mudar esta América que arde, diz-nos a poetisa, esta geração de Afrofuturistas precisa de conhecer o seu próprio passado e entender a premência da luta. Musicalmente, isso implica um foco extraordinário. Andy Smith, uma vez mais nas notas de capa, defende que “ao passo que o homónimo trabalho de estreia da banda era todo feito de hinos ruidosos e explosivos e algazarra cósmica, Who Sent You é um ritual paciente e focado”. Certíssimo, mas ainda assim com espaço para a incandescência como se percebe escutando, por exemplo, “Who Sent You – Ritual”, com os instrumentos a ecoarem a poesia inquisitiva que retrata a violência do fim dos tempos. Jazz livre, erguido sobre a lava que escorre da camada percussiva, com gritos de metais dissonantes que soam como lamentos humanos, uma cacofonia que traduz o ruído do mundo, dos media, do tráfego nas cidades, dos conflitos que se estabelecem entre o espírito e a carne. Mas também há pulso firme, como se demonstra em “No Más”, com o contrabaixo de Luke Stewart a funcionar como o leme do colectivo, desbravando o terreno entre os escombros rítmicos espalhados pela bateria e restante percussão. Este é o som de Nova Iorque em 2020, mas é também o som de uma Nova Iorque com memória, que remete para as experiências que se foram abrigando nos lofts onde os artistas desenharam, pintaram, escreveram, dançaram e tocaram a liberdade desde pelo menos a era em que o Harlem renasceu e mais além, até ao tempo em que as panteras eram negras e Shaft era superfly. E daí em diante, porque a luta contra o poder assumiu muitas outras bandas sonoras. Esta é a de agora e está cá tudo, o tal pacote de ajuda é de facto completo: a mensagem, o ritual, o dedo acusatório, a música que nasce da invenção livre, o nervo humano e a força herdada dos tais antepassados que fizeram as cidades. Sobreviver é possível.
[Don Pie Pie] The Life of Pie / Monster Jinx Os Don Pie Pie são a nova e inesperada surpresa da Monster Jinx, editora portuguesa que tem operado sobretudo no difuso terreno em que o hip hop encontra o futuro, um pouco como aquele em que a Brainfeeder se move. Inesperada surpresa, escrevia-se, porque tendo construído o catálogo sobretudo em torno do output de produtores, agora é a música de uma banda – formada por Saloio, Miguel e Liquid – que o Monstro Roxo propõe numa limitada edição em cassete (e, como é habitual neste selo, em gratuitas versões digitais disponíveis no seu Bandcamp). Don Pie Pie é um power trio que usa guitarras, bateria e teclados para explorar todas as dinâmicas possíveis de imaginar entre o rock de recorte psicadélico ou progressivo e o novo jazz que se vai inventando entre Los Angeles, Chicago e Londres. E basta escutar a irrequieta “BujiGang” para se encontrar o manifesto Don Pie Pie: em pouco menos de cinco minutos percorre-se o caminho que separa a contemplação da acção, começando o tema com uma exposição melódica simples na guitarra sobre cadência vincada por cowbell e grave extraído de sintetizador, para depois dar espaço a um break que soa a King Crimson a tentarem tocar Rage Against The Machine antes do trio regressar a um plano em que o groove volta a ser dolente e um sintetizador estratosférico nos coloca em órbita cinco milhas acima da Terra para depois tudo se colar numa reviravolta comandada pelo grave arrancado ao Moog que bem poderia dar o seu loop para Denzel Curry cuspir em cima. Ao todo reúnem-se aqui nove malhas que resultam da junção do material de três EPs. O suficiente para confirmarem Don Pie Pie como mais uma ultra-válida peça para o crescentemente complexo puzzle da modernidade tuga. Com estruturas de sofisticação prog (que tanto podem derivar da escola britânica dos já citados Crimson ou Soft Machine como do lado jazz-rock americano que nos anos 70 foi povoado por bandas como Weather Report ou Return to Forever e até Rush ou Steely Dan) a ilustrarem um orgulhoso nervo (os rapazes sabem tocar), há por aqui também uma deliciosa leveza lúdica (e o apropriadamente titulado “Ploy Joy” é um óptimo exemplo) própria de quem está muito naturalmente a retirar um óbvio do prazer do acto de tocar em conjunto, com a ideia de exploração livre, que traduz um saudável “anything goes”, a servir-lhes de ângulo conceptual. Cassete agora, concerto suado tão breve quanto possível (ou numa conta Instagram perto de si, se não houver alternativa), por favor, porque será interessante perceber como funciona esta fórmula sem a rede do estúdio.
[Old Mountain] ParallelsThis is Not Our Music / Nischo Não um, mas dois álbuns distintos na apresentação na Nischo do projecto Old Mountain do baterista João Sousa e do guitarrista Pedro Branco. Parallels mostra-nos o duo em conversações de proximidade intensa com o trompetista Gonçalo Marques, músico habituado a formações mais contidas que comanda um trio próprio e integra o duo ¡Golpe! com o baterista João Lopes Pereira (embora tenha igualmente dado o seu contributo ao mais expansivo colectivo Lisbon Underground Music Ensemble). Este é, sobretudo, um registo de tom mais contemplativo, de nove belíssimas composições (seis delas a cargo dos próprios Old Mountain, as restantes firmadas pelo trompetista) que servem como ponto de partida para derivas de livre e espontânea invenção, com cada um dos músicos a entender os limites do seu próprio espaço e a ceder, generosamente, o centro das atenções a quem quer que possa assumir a dianteira. “Ballad For Paul” é um excelente exemplo: peça de lirismo profundo, em que o trompete e a guitarra expõem, individualmente, primeiro, e em uníssono, depois, um tema a que a bateria serve discreta, mas sofisticadíssima base, com os pratos a servirem como pontuais rasgos de luz para uma melodia de tons crepusculares. O solo de Gonçalo Marques faz-se de um admirável controle, deixando ao silêncio o papel de pontuação de um lamento que é sombreado de forma magistral por Pedro Branco. Há outra tranquila peça, “Fear & Trembling”, em que, de certa forma, os papéis se invertem, com a guitarra no canal direito a ser complementada pelo trompete, no canal oposto, sempre com a ideia de equilíbrio absoluto a sustentar cada um dos solistas que se erguem, quais funambulistas, sobre a corda bamba esticada pela bateria. Este álbum, gravado em Amesterdão em 2017, vive de um tranquilo discurso outonal (talvez seja isso que se lê na capa, com duas peças de mobiliário de jardim, vazias, a indicarem provavelmente um Verão já distante), de fraseados poéticos e bastante melódicos. This Is Not Our Music começa na mesma toada, até porque recupera logo no seu arranque “Ballad For Paul”. Neste trabalho, igualmente gravado em Amesterdão no final do mesmo ano em que Parallels foi registado, João Sousa e Pedro Branco contam, no entanto, com a companhia de Mauro Cottone no contrabaixo e Nicoló Ricci no saxofone tenor (George Dumitriu toca viola de arco em “Suite To a Young Poet”). A diferente fórmula instrumental também permite ao duo Old Mountain explorar outro tipo de dinâmicas: em “Western Tune”, por exemplo, o groove estabelecido pelo contrabaixo de Cottone e imediatamente “encaixado” por João Sousa, permite escutar o guitarrismo de Pedro Branco de outro ângulo, com outro tipo de técnica, mais agressivo na sua exposição, capaz de disparar notas com uma intensidade bem mais pronunciada do que a que havia exposto em Parallels. Essa capacidade de “correr mais rápido” também anima, por exemplo, a suite que dedicam a um jovem poeta, peça bem mais abrasiva em que o tenor de Nicoló Ricci derrapa por cima do feedback extraído da guitarra por Pedro Branco antes do grupo se remeter a um quase silêncio de onde emerge depois a viola de arco de George Dumitriu que estabelece um interessantíssimo diálogo com a guitarra em modo staccato, aí num registo bem mais abstracto e livre. Branco é bastante inteligente na gestão textural da sua guitarra que se encaixa, em cada um destes registos, de forma perfeita com o perfil sónico dos outros solistas, ocupando um espaço distinto e próprio na paleta tímbrica proposta. E se é verdade que cada um destes discos, mercê também das duas distintas formações, se afirma com o seu próprio perfil, também não é menos verdade que na sua harmonia de moods se pode ler a marca do carácter de Old Mountain, duo que sabe expor uma abordagem decididamente contemporânea na sua música, mas que está bem longe de enjeitar a tradição quando abraça, sem medos, as tonalidades “azuis” das baladas, revelando em ambos os álbuns  um pendor poético e melancólico muito vincado (e tão bem explorado na versão do clássico de Ary Barroso “P’ra Machucar meu Coração”, chorinho blues de beleza profunda que é, no alinhamento de This is Not Our Music, o único tema não composto pelo duo), algo que é perfeitamente adequado para contrabalançar os turbulentos tempos que vivemos.

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