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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #20: Keleketla!

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Keleketla!] Keleketla! / Ahead of Our Time – Ninja Tune

Keleketla é uma palavra no dialecto Bantu sepedi que é falado em certas comunidades da África do Sul. Significa “resposta”, no contexto musical da “chamada e resposta”, uma estrutura basilar que a cultura africana legou à música mundial e que hoje se encontra em tantas linguagens, do jazz ao hip hop e bem mais além. É também a palavra que designa um projecto de activismo cultural baseado em Joanesburgo, África do Sul: uma biblioteca comunitária que apoia artistas locais.

Numa ligação à ONG In Place of War, que instiga a criatividade e a arte como formas de resolução de conflitos, os responsáveis da Keleketla! desafiaram os britânicos Coldcut a imaginarem um projecto que pudesse funcionar como espaço de diálogo entre artistas sul-africanos e mentes criativas de outras latitudes. Com o apoio do British Council (e é interessante perceber como se pode lidar institucionalmente com o pesado legado do colonialismo…), Jonathan More e Matt Black viajaram até à África do Sul, contactaram as cabeças da Mushroom Hour Half Hour, rádio pirata que se transformou num dos mais vibrantes selos de Joanesburgo, uma aventura editorial apostada em documentar o presente e o futuro da cena local, e reuniram um elenco de talentos absolutamente assombroso.

As sessões iniciais foram conduzidas pelos Coldcut num estúdio do Soweto com contribuições do produtor de gqom DJ Mabheko, do militante colectivo hip hop Soundz of the South, da rapper Yugen Blakrok (que se faz ouvir na fantástica “Crystallise”), do notável percussionista Thabang Tabane, do guitarrista Sibusile Xaba ou de vocalistas como Nono Nkoane e Tubatsi Moloi (são elas que brilham na belíssima “International Love Affair”).

O lendário Tony Allen, recentemente falecido, foi recrutado para participar nas sessões que depois aconteceram em Londres, emprestando o seu inconfundível pulso a mais de metade dos temas do álbum. Dele Sosimi, outro nome lendário do afrobeat nigeriano – também integrou os Egypt 80 de Fela! – que actualmente reside em Londres, foi igualmente chamado para adicionar os seus teclados ao material inicialmente registado no Soweto. E na capital britânica, Matt e Jonathan não pouparam no orçamento, envolvendo no projecto a nata dos músicos de jazz da nova geração, do flautista Ed “Tenderlonious” Cawthorne, ao saxofonista Shabaka Hutchings, do teclista Joe Armon-Jones ao guitarrista Miles James, cúmplice recente de Tom Misch e Yussef Dayes nas sessões de What Kinda Music, por exemplo. O duo foi ainda mais longe, envolvendo no projecto os lendários Watts Prophets de Los Angeles e os grandes defensores americanos do afrobeat, os Antibalas, vindos de Nova Iorque.

É importante notar a diversidade de talentos envolvida para se compreender também a natureza mais profunda deste projecto, um tubo de ensaio para o diálogo de culturas que usa, em primeiro lugar, o jazz como língua franca, como território comum em que todos caminham, adicionando depois diferentes cadências que traduzem as pontes – culturais, geracionais, musicais – do gqom ao afrobeat, do hip hop ao funk. Os Coldcut assumem aqui o papel de Teo Macero, orquestrando a partir da mesa de mistura os diferentes materiais recolhidos nas sessões, para erguerem uma música que aspira a uma aura de benigno universalismo, mostrando-se ainda os militantes discursos que a diáspora africana ao longo das décadas fez soar dos bairros de South Central, Los Angeles, aos projects do Bronx, em Nova Iorque, daí até às marchas que saindo do Soweto desafiavam as repressivas autoridades sul-africanas na era do apartheid, chegando os ecos destas lutas à capital do império, Londres, e mais além até: em “Papua Merdeca”, sobre um motivo electrónico grave a que Tony Allen adicionou depois a sua sofisticada cadência, os Lani Singers cantam as agruras da luta pela independência da Papua Ocidental, actualmente ainda uma província da Indonésia.

Tendo em conta o elevadíssimo nível técnico dos músicos convocados, este é um disco repleto de momentos assombrosos – escute-se, no já citado “Papua Merdeka”, a interacção de Shabaka Hutchings com o barítono da saxofonista Tamar Osborn, outra talentosa artista londrina com créditos em projectos dos Ill Considered, Colluctor, Emanative ou Sarathy Korwar, para citar apenas os mais recentes. Em “Freedom Groove”, por outro lado, Tony Allen faz a cama em que se “deitam” o “preacher” americano Amde Hamilton, a secção de metais dos Antibalas, o swing cósmico de Joe Armon-Jones e o fervor revolucionário dos Watts Prophets além do tom grave, uma vez mais, da fantástica Tamar Osborn. Criar estas sintonias – transatlânticas, transculturais, transgeracionais – fundindo diferentes línguas e sensibilidades – requer uma entrega generosa e uma visão panorâmica que os patrões da Ninja Tune têm vindo a afinar nas últimas três décadas. Que no final de tudo, um disco destes ainda tenha o propósito nobre de recolher fundos para uma plataforma de positiva transformação como a In Place of War é uma doce cereja em cima de um irresistível bolo de mil sabores.

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