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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #22: Kamaal Williams / Makaya McCraven / Asher Gamedze

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Kamaal Williams] Wu Hen / Black Focus

Diante dos mais aventureiros avanços do jazz nos anos 70, aqueles ditados pelas experiências nas franjas mais progressivas e politizadas do género, normalmente associadas às sonoridades mais “livres” ou “espirituais”, o denominado jazz de fusão representava o topo da cadeia alimentar da cultura, o som que enchia salas, colocava discos nos tops de vendas e servia de banda sonora aos iates ancorados nas marinas de Miami ou San Diego e às festas nas penthouses de Nova Iorque.

Quando a primeira geração que emergiu dos clubes de dança de Londres olhou para o jazz, agarrou sobretudo nas referências do eixo que se estabeleceu entre a sonoridade soul jazz muito explorada por etiquetas como a Blue Note nos anos 60 e 70 e o lado mais latino dessa cultura que músicos como Cal Tjader ou Willie Bobo exploraram em lançamentos em etiquetas como a Verve, com ocasionais desvios pelo terreno mais engajado que artistas como Gil Scott Heron experimentavam trilhar em selos como a Flying Dutchman.

Por todas essas razões, e durante muito tempo, demonstrar qualquer tipo de interesse no lado mais smooth do jazz que gente como os Weather Report, Crusaders ou até os Return To Forever de Chick Corea tinha desenvolvido não era propriamente cool para as gerações pós-hip hop. Mas nos últimos anos essa noção modificou-se, com gente como Thundercat a liderar uma vaga de revalorização desse lado do jazz menos celebrado pela intelligentsia. Integre-se nesse esforço o novíssimo trabalho do teclista britânico Kamaal Williams, Wu Hen.

O álbum com que o patrão da Black Focus sucede a The Return, assume a ambiciosa missão de criar uma ponte entre o lado mais sofisticado do jazz de fusão e a presente cena britânica em que o jazz vive de alianças com o espírito emergente dos clubes pós-quase tudo (hip hop, broken beat, house, dubstep, grime…). Mas, muito mais do que agarrar em marcas específicas do tal jazz que se passeava pelas frequências mais comerciais das rádios nos anos 70 e 80 do século passado, a Kamaal Williams interessa-lhe a aura, o espírito que emanava desses discos. Não tanto os aspectos formais das estruturas de solos preenchidos com muitas notas e demonstrativos de proezas técnicas sobre-humanas, mas muito mais o tipo de som, as texturas, a sofisticação da mistura. E assim se percebe o acto de recrutar o multi-instrumentista Miguel Atwood-Ferguson, o homem a que se recorre quando são necessários arranjos de cordas que envolvam com sofisticada seda a música, seja ela a soul de Ray Charles, o balanço tropical de Seu Jorge e Marisa Monte, a modernidade r&b de Anderson .Paak, as batidas exploratórias de Flying Lotus ou, pois claro, o jazz mais aventureiro de gente como o colectivo Build An Ark.

Atwood-Ferguson assume despesas de orquestração num terço do álbum, mas os convidados determinantes são provavelmente o saxofonista Quinn Mason, o baixista Rick Leon James e o baterista Greg Paul, tudo nomes mais ou menos obscuros, sem currículos muito visíveis. E se o saxofonista brilha de forma intensa em “PIgalle”, tema em que lhe é dada a oportunidade de expor a sua devoção a John Coltrane, já o sinuoso groove do baixista merece todo um tema para se expor, o aptamente titulado “Big Rick”, momento de balanço fusionista perfeito. Já a bateria é elemento fundamental da equação aqui erguida por Williams, definitivamente apostado em ancorar este registo num domínio mais “orgânico” e menos “electrónico”: em “Pigalle”, Greg Paul assume a curiosa missão de transportar a composição do fumarento clube de jazz para a suada pista de dança, levando a sua expressiva cadência mais swingada num primeiro momento até terrenos mais devedores dos ensinamentos de Clyde Stubblefield assim que o astral solo de Quinn Mason dá lugar ao transparente pianismo do líder da sessão. E essa acaba por ser a linha orientadora de todo o álbum, a circulação entre o passado e o presente, entre a sofisticação e a simplicidade, entre a pista onde se dança – “Save Me”, “Mr Wu” – e a mesa do clube de jazz onde se escuta imersivamente – “Toulouse”, com piano e cordas em sublime harmonia, “Hold On”, peça a que a voz de Lauren Faith confere sensualidade e profundidade adicional, ou “Early Prayer”, o tema que encerra o disco e que bem poderia ter ilustrado uma cena romântica num qualquer filme policial dos anos 80 com Michael Douglas como protagonista.

Curiosamente, apesar de tocar nos 40 minutos de duração, Wu Hen soa breve, talvez por fluir de forma tão conseguida, com todas as ideias a imporem-se de forma natural, sem que nenhuma volta melódica ou arranjo soe deslocado ou disruptivo. Sinal da maturidade alcançada por Kamaal Williams e da competência geral dos músicos recrutados.



[Makaya McCraven] Universal Beings E&F Sides / International Anthem

Esta semana estreia Universal Beings, o filme em que o realizador Mark Pallman acompanha o baterista Makaya McCraven no processo de construção do aclamado álbum com o mesmo título, originalmente lançado em 2018. De facto, Universal Beings confirmou em definitivo o que In The Moment, a estreia do baterista na International Anthem, já tinha permitido vislumbrar: um espírito altamente criativo, apostado em aplicar a sua considerável bagagem jazz a um contexto de modernidade em que os ensinamentos do hip hop constam igualmente na tabela de elementos usados na sua distinta fórmula musical.

No revelador filme que está prestes a aterrar nas plataformas de streaming, McCraven explica que a sua “organic beat music” nasce, primeiro, da interacção livre, em palco ou em estúdio, com músicos que reúne em diferentes ensembles (normalmente dependentes do local em que se encontra em cada momento), acto que lhe oferece a matéria que, depois é, muito literalmente “virada do avesso”. “I’ll flip it”, esclarece ele, recorrendo a um termo que os produtores de hip hop sempre usaram para descrever o acto de recontextualizar um sample. “E depois podemos passar o resultado a outra pessoa que também virará isso do avesso”. Makaya McCraven entende, portanto, a música que cria como parte de um continuum histórico em permanente fluxo e, portanto, potencial alvo de novas transformações (esta música que também nasce do sampling quer ela própria ser samplada).

As peças que agora se apresentam nestes “lados extra” oferecidos a Universal Beings obedecem a essa ideia: são novas composições feitas a partir de matéria recolhida nas sessões originais ou, pelo contrário, a própria matéria original que o baterista e produtor pode ter usado – “flipped”, para usar o seu termo – em temas do alinhamento lançado em 2018. Dessa forma, este material adicional impõe-se como um revelador levantar do véu sobre o seu processo criativo.

Um par de exemplos: o tema de abertura de E&F Sides, “Everybody Cool”, revela a gravação original que Makaya “flipou” para “A Queen’s Intro”, a primeira faixa de Universal Beings, mas o que na breve apresentação da edição original do álbum tinha sido processado via sampler, aqui expõe-se de forma mais longa, com uma cadência mais orgânica. Já em “The Loneliness”, o que se obtém é o prolongamento de “Prosperity’s Fear”, tema que em “Universal Beings” chegava ao fim após um fade out do violoncelo de Tomeka Reid em staccato, deixando entrever uma entrada de Shabaka Hutchings em modo ultra-relaxado, que é precisamente o que aqui começa por se expor de forma mais dilatada, com o saxofonista a explorar um tom mais poético e intimista do que é costume.

O material destes lados E&F foi registado ao vivo em Nova Iorque em Agosto de 2017 (com Brandee Younger na harpa, Joel Ross no vibrafone e Dezron Douglas no contrabaixo), em duas sessões londrinas em Outubro do mesmo ano (com o saxofonista Soweto Kinch e o teclista Kamaal Williams, na primeira noite captada no Total Refreshment Centre, e ainda com a saxofonista Nubya Garcia, o pianista Ashley Henry e o contrabaixista Daniel Casimir, na segunda noite), em casa do guitarrista Jeff Parker no arranque de 2018 (sessão com a participação do saxofonista alto Josh Johnson, do violinista Miguel Atwood-Ferguson, do próprio Jeff Parker, de Anna Butterss no contrabaixo e de Carlos Niño na percussão), e ainda, em duas sessões no início e no fim do Verão de 2017, registadas no centro cultural de Chicago Co-Prosperity Sphere (a primeira apenas com Junius Paul no contrabaixo, a segunda com um ensemble mais expandido que além do contrabaixista incluía ainda Shabaka Hutchings no tenor e Tomeka Reid no violoncelo). Makaya McCraven dirigiu todas as sessões a partir da sua bateria.

E a bateria é, precisamente, o elemento nuclear de toda esta música. É a partir do seu kit que Makaya McCraven explora novas noções de swing, claramente informado pelo poder repetiivo do loop como bem demonstrado, por exemplo, em “The Hunt”, mas também sensível à ideia de corrupção do lado mecânico e matemático do loop, tal como J Dilla ensinou ao desligar a função de quantize na sua MPC – “Dadada” mostra-nos uma boa aplicação dessa ideia de interferência no rigor matemático, na fuga à “grelha” da sequência, ou seja da reinvenção do tempo.

E é isso que Makaya McCraven tem vindo a fazer: a reinventar o tempo. O tempo rítmico. O tempo do jazz. O tempo da acção criativa. Universal Beings aconteceu em 2018. E volta a acontecer em 2020.



[Asher Gamedze] Dialectic Soul /On The Corner Records

Faz pleno sentido que Asher Simisio Gamedze tenha começado por se mostrar em “Capetown”, tema que se abriga no alinhamento do espantoso The Oracle de Angel Bat Dawid. É que o fervor humanista da clarinetista que no mesmo álbum questiona “What shall i tell my children who are black” anima também a música que o baterista sul-africano cria, partindo da longa tradição de protesto que o jazz assumiu no país que foi do apartheid em direcção às mais exploratórias paragens que a grande música americana explorou desde que Ornette Coleman apontou o caminho da liberdade absoluta.

(E antes do mergulho no extraordinário trabalho de estreia de Gamedze, um parêntesis apenas para sublinhar como os três nomes hoje merecedores destas notas – azuis, obviamente – fazem parte do mesmo complexo ecossistema de um jazz moderno, pulsante e global: Kamaal Williams, britânico, lança um álbum em que recruta para aliado principal o arranjador Miguel Atwood-Ferguson que também participou numa das sessões em que o americano Makaya McCraven fixou matéria para o atrás referido Universal Beings E&F Sides, álbum em que também participa o teclista autor de Wu Hen e que foi dado à estampa pela mesma International Anthem que lançou The Oracle, registo que nos revelou o músico sul-africano Asher Gamedze!)

Explicam as notas de lançamento que “Asher apresenta os temas que constituem o álbum: bateria livre que representa o autónomo movimento africano, o saxofone que reflecte de forma profunda e honesta a violência do colonialismo. Os ensinamentos de Coltrane, Biko, Makeba, Malsolm e outros inspiram a positiva manifestação de resistência desta música”. É o próprio Gamedze que depois acrescenta: “Fundamentalmente, é acerca da reclamação de um imperativo histórico. É acerca do dialecto da alma e do espírito enquanto ele se move através da história. A alma é dialéctica. O movimento é imperativo. Estamos sempre a mover-nos”. Sobretudo através da música.

À frente de um ensemble que inclui Thembinkosi Mavimbela (baixo), Buddy Wells (saxofone tenor), Robin Fassie-Kock (trompete) e Nono Nkoane (voz), o baterista Asher Gamedze assina um tremendo manifesto de elevação pela arte, em direcção aos picos do espírito, um trabalho que nasce na Cidade do Cabo em 2020, mas que bem poderia ter sido cozinhado nos lofts de Nova Iorque na década de 70. Essa foi, aliás, a intenção original: é que Dialectic Soul é parte de uma reflexão académica sobre os pontos de ligação entre o jazz de protesto americano e o mesmo espírito combativo que animou o jazz sul africano durante os anos de resistência ao repressivo e desumanizante sistema do apartheid.

O álbum abre com a poderosa suite de quase 20 minutos “State of Emergency”, estruturada como um tríptico “hegeliano” com uma tese, uma antítese e uma síntese (tal como, e como sagazmente apontado por Hubert Adjei-Kontoh na crítica da Pitchfork, a histórica Freedom Now Suite de Max Roach se desenvolvia igualmente como um tríptico com as diferentes partes nomeadas como “Prayer”, “Protest” e “Peace”), palco para a aplicação plena das noções intelectuais do líder, um verdadeiro estudo sobre a forma e o conteúdo.

O baterismo de Gamedze é vibrante, irrequieto, inventivamente polirrítmico, com cada um dos seus quatro membros a desenvolver expressivas figuras que nunca chegam a cristalizar-se num groove fechado, antes procuram a divergência enquanto, ao mesmo tempo, sustentam os discursos dos sopros, sobretudo do assertivo e profundamente poético Buddy Wells, cujo tenor consegue de facto concentrar os lamentos mais bluesy, elevando o colectivo aos píncaros espirituais de um género que foi sempre palco de afirmação de identidade. Impossível escutar a tocante “siyabulela” em que brilha de forma intensa Nono Kkoane, sem estremecer, sem que os pelos dos braços se ericem, sem que os olhos se toldem um pouco. A voz que declama em “Interregnum” não é creditada e pode assumir tratar-se da voz do próprio Asher Gamedze, que enquadra poética e espiritualmente um álbum em que o pulsar do baixo reflecte a terra, o estremecimento constante da bateria evoca o movimento, e os dois metais ecoam as dinâmicas da alma e do espírito, numa conjugação que muito deve a Ornette Coleman (que gravou bastas vezes com ensembles de perfil semelhante, recrutando para o seu lado gigantes como Don Cherry, Jimmy Garrison, Elvin Jones, Charlie Haden ou Ed Blackwell). E a belíssima canção que é “hope in azania”, cuja melodia é profundamente africana, vive da alegria expressa no vibrante baixo de Thembinkosi Mavimbela, que parece aqui ser uma voz narrativa sob a qual Gamedze dança sem coreografia fixa, mas de forma a traduzir uma alegria que o mais solene tom do restante disco não faria prever.

Tradição e presente, diáspora e resistência, corpo e espírito, movimento e contemplação, lamento e exaltação. Destas dialécticas nasce um incrível álbum, que consegue retratando o presente e bebendo de tradições passadas, oferecer um possível retrato para o futuro. Altamente recomendado, claro.

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