LP / CD / Digital

SAULT

Untitled (Black Is)

Forever Living Originals / 2020

Texto de Rui Miguel Abreu

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Já se tinha percebido em “Stop Dem”, a segunda faixa de Untitled (Black Is), mas é na terceira ronda deste extraordinário manifesto, no tema “Hard Life”, que a bateria assume realmente a dianteira, revelando o papel que de facto representa na particular (e estranhamente delicada…) arquitectura deste trabalho, o terceiro álbum da discografia dos misteriosos SAULT.

Crua, completamente despida de efeitos, a bateria combina aí os três elementos percussivos fundamentais do hip hop – o bombo, a tarola e o prato de choques – numa marcial cadência sublinhada pelo grave circular de um Moog, em cima da qual uma voz canta as agruras da vida negra, a vida dos que lutam para serem vistos. O hip hop é o elemento fundacional deste trabalho no seu sentido mais elementar: fornece-lhe o mesmo ímpeto rítmico que desde o momento em que Kool Herc alinhou duas cópias de “Funky Drummer” numa festa nas entranhas de Sedgwick Avenue tem sustentado toda uma cultura. Mas não é a única coisa que o hip hop oferece a Untitled (Black Is): o espaço de intervenção, de denúncia, de combate, o espaço de afirmação de identidade, de reclamação de liberdade e de justiça que o hip hop tem alimentado em sucessivas gerações de afro-americanos desde, pelo menos, que Grandmaster Flash nos entregou “The Message”, também orienta cada uma das duras, poéticas, tocantes, urgentes, necessárias e até dilacerantes palavras que aqui se proferem.

E temos, portanto, a bateria, de um lado, e a palavra, do outro. Na verdade, nem há reais diferenças entre a bateria e a palavra na música dos SAULT: ambos os elementos existem para nos impulsionar, para nos forçarem à acção, para destruírem a nossa indiferença, para, enfim, nos inspirarem a movermo-nos. O imobilismo não é opção em 2020. Nunca foi, na verdade, mas agora é mesmo uma opção de justificação impossível. O mundo exige movimento, aquele que nos há-de conduzir à justiça e à igualdade, à redenção, à superação. O movimento que nos há-de salvar. A bateria e a palavra serão ferramentas fundamentais para lá chegarmos e os SAULT sabem bem isso.

Este é o terceiro álbum dos SAULT, banda que o ano passado se estreou sem alarido com a dupla edição de 5 e 7, discos que aterraram de rompante neste plano servidos por misteriosas capas de artwork minimal (a estratégia mantém-se nesta nova edição) e sem qualquer informação que nos esclarecesse sobre a sua identidade. A especulação começou de imediato: no Guardian, Alexis Petridis apontou a possibilidade de Dean Josiah, músico londrino que costuma assinar como Inflo e que regista créditos em música de gente como Michael Kiwanuka, Jungle, Little Simz ou The Saturdays, poder estar envolvido. A cantora britânica Cleo Sol e Kid Sister, rapper com links a Kanye West que partilha com os SAULT o selo discográfico Forever Living Originals, ofereciam mais um par de ténues pistas. Mas nada de concreto.

O mistério permanece em Untitled (Black Is), com os nomes de Michael Kiwanuka e da declamadora Laurette Josiah (yup, mesmo apelido de Dean Josiah…) a serem os únicos mencionados no alinhamento. A intenção dos SAULT parece clara: ao eliminarem a identidade da equação, eles procuram sabotar um dos pilares da pop, a ideia do culto da personalidade que eleva artistas à dimensão de deuses da era digital por via de devoção incondicional nas redes sociais. E ao fazerem isso, descartando igualmente a afirmação de qualquer tipo de imagem (não há vídeoclipes com conteúdos virais, um logo poderoso, fotos promocionais dignas da capa da Fader, nada…), os SAULT forçam a nossa atenção para o que realmente aqui importa, a música, a bateria e a palavra. Parece pouco, mas em 20 faixas eles provam, para lá de qualquer dúvida razoável, que não. Na verdade, a bateria e a palavra são mais do que suficientes.

A palavra, então: este é um álbum urgente, criado na sequência do movimento #BlackLivesMatter, inspirado pela mesma justa raiva que tem varrido as ruas da América após as cruéis mortes de pessoas como George Floyd ou Breonna Taylor às mãos de um sistema policial que sobrevive graças à impunidade, que ampara o sistémico racismo que Trump tem amplificado. Untitled (Black is) é os SAULT a juntarem a sua voz – as suas palavras – ao coro global que grita “NÃO MAIS!”, “NÃO CONSIGO RESPIRAR!”. “The Revolution has come (Out The Lies)/ Still won’t put down the gun (Out the lies)”, começa-se por se declarar, estabelecendo o tom, alinhando estas vozes com todas as outras que têm protestado nas ruas da América, de Inglaterra, de Portugal, do Brasil ou Hong Kong e mais além.

Em “Black is” canta-se o amor: “We all know black is beautiful/ You know, well now you do/ Black is excellent too/ In me, in you/ Black is shiny and new/ Black is older than earth/ All at the same time”. O tom de pregação em altar de igreja assenta na perfeição a um disco que equilibra a urgência das mensagens que o hip hop tem destilado ao longo das últimas décadas com o mais arcano fervor que sempre se desprendeu de quem no púlpito procurava, também pela palavra, salvar congregações, as mesmas que tantas vezes foram assaltadas à bomba, as mesmas que viram tantos dos seus membros serem dependurados como estranha fruta nas árvores com sangue na raiz.

A soul é, portanto, a outra força orientadora da música dos SAULT. O título do novo álbum referencia, de forma clara até, um dos momentos altos da obra de D’Angelo, reforçando a ligação a toda a escola de novos heróis soul que nas últimas duas ou três décadas têm mantido vivo o espírito da canção de Sam Cooke e Aretha Franklin, de Marvin Gaye e Curtis Mayfield, de Bill Withers, de Etta James, de Otis Redding e Stevie Wonder. Todos esses espíritos habitam a casa de SAULT e as vozes que são o veículo que nos entrega as palavras.

Mas é a redução aos elementos nucleares dessas músicas que nos agarra em Untitled (Black Is). Com a bateria sempre na dianteira (e não deixa de ser curioso ver várias críticas a mencionarem a influência do carácter metronómico do baterismo de Jaki Liebezeit dos Can no som dos SAULT, esquecendo que a música negra teve em mestres como Bernard Purdie ou Clyde Stubblefield os seus próprios guardiões do tempo exacto e ainda assim funky), baixos minimais mas assertivos e rasgos de outros elementos esparsos (um sintetizador em “Wildfires” ou “X”, subtis pontuações de piano em “Sorry Ain’t Enough”, uma guitarra que evoca África em “Bow”, o tema em que participa Kiwanuka e que depois desagua em “This Generation”, peça em que se faz ouvir a poesia de Laurette Josiah), os arranjos deixam sempre exposto na música dos SAULT algo que a ultra-processada e comprimida música pop do presente tem esquecido nos últimos anos: o silêncio. Não há espaço para o silêncio na pop contemporânea porque o silêncio deixa a realidade entrar pelos pequenos auscultadores brancos adentro, mas os SAULT parecem convidar essa realidade para a sua música. Escutam-se conversas de rua em fundo, sirenes, passos… a vida real, a vida das ruas, existe em Untitled (Black Is).

Mais ou menos a meio do álbum surge “Black”: um bombo, marcial uma vez mais, uma subtil tarola e um prato de choques que clama urgência na forma como está programado, um grave que nos estremece, um sample do que soa a um conjunto de flautas, outro de um grito, uma voz masculina que diz apenas “Black!”, “I’m black”, e outra voz, feminina, que responde com um possível refrão: “Don’t you dare lose yourself, beautiful/ It’s only a man I got”. O homem que professa a sua negritude e que por isso está em perigo permanente, a mulher que lamenta o risco inerente a essa cor de pele e que urge o seu homem a não se perder. Pelo meio um solo de guitarra e mais nada. Hip hop até ao tutano, com uma força que nos faz estremecer por dentro. E tal como se reduz a música, o hip hop e a soul, até ao essencial, até aos seus elementos fundamentais e nucleares, também a mensagem dos SAULT acaba por se condensar numa única palavra, “Black”, numa singular ideia, “I’m Black”. É daí que se desprende tudo o resto, todos os clamores, todos os lamentos, todas as acusações e reivindicações.

Untitled (Black Is) é, conclui-se, o álbum que o presente exige, um “A change is gonna come” para os tempos modernos, um What’s Going On para estes dias agitados, o “Fight the Power” que é urgente escutar agora, um novo Black Messiah, um novo To Pimp a Butterfly. 2020 precisava de um disco assim. Todos precisamos de discos assim. #BlackLivesMatter. #BlackMusicMatters. Mais do que nunca.


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