5K7s # 14

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

O verão inteiro passou sem que houvesse sinal de uma nova incursão pelo universo das cassetes aqui no ReB. O que não significa que elas não se tenham acumulado aqui por casa… Para a presente edição fica aqui uma selecção de propostas lançadas nos últimos meses e que têm em comum o facto de serem todas oriundas do universo electrónico português. Que é, como se sabe, um universo tão vasto como outro qualquer, capaz de se estender do techno de pulsão dub a múltiplas estirpes do hip hop e daí até ao house de filiação disco.

Fica já prometida tentativa de recuperar tempo perdido – e de ganhar espaço na caixa das cassetes ainda por abordar aqui no 5K7s… – com nova edição para breve. É que há por ali títulos que requerem tratamento urgente.

Antes de começar, só mais uma coisa: a primeira das cassetes da lista é também a mais recente e chegou-me às mãos esta semana quando David Almeida – Maria, para quem presta mais atenção às identidades artísticas – fez questão de me entregar um exemplar no Park, mesmo antes de me atirar a mais um set da nossa residência mensal. Falámos por breves instantes, o David e eu, e ele contou-me como gosta deste suporte referindo ainda que é o que está economicamente ao seu alcance. Essa é uma mensagem importante: numa era em que tanta, mas tanta música existe perdida por aí no limbo digital, às vezes a sua passagem para formato físico, mesmo um tão económico e de interesse tão limitado como a cassete, pode ser a diferença entre haver quem repare ou não nela. Pensem nisso, caros produtores e produtoras, DJs e músicos, e mandem lá fazer 50 exemplares da vossa mais recente criação que ninguém ouviu no Soundcloud. E enviem-me um exemplar, claro…

 


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[MARIA] Isto Nem É 1a Beat Tape
(Volta, 2016)

Maria começou por se fazer notar durante a primeira edição do Rimas e Batidas Beat Challenge (e fica desde já aqui o aviso de que outras edições estão a ser preparadas, desta vez com contornos mais ambiciosos e interessantes para os artistas) de que foi finalista (a vitória foi para Cálculo). Depois, Maria – confessando-se impulsionado pelos resultados e feedback obtidos durante o Beat Challenge – estreou este trabalho aqui mesmo, no ReB.

Isto Nem é Uma Beat Tape, garante Maria. Talvez não seja. Talvez seja mesmo algo mais do que isso. A ideia de “beat tape” atribui-se a um trabalho algo incompleto a que faltará, por exemplo, o input de um MC, mas o trabalho de David Almeida aparece aqui completamente formado, maduro e solidificado em termos de ideias.

É o próprio David que esclarece a sua filiação quando refere os nomes de Pete Rock e J Dilla no breve texto que na sua página bandcamp acompanha este lançamento. O que o posiciona algures entre uma velha escola boom bap, fundada no estudo atento das texturas da soul, e o futuro desconstruído por Dilla a golpes de ilógica reestruturação dos clássicos padrões rítmicos do hip hop. Maria tem arrojo, a necessária noção de drama que nos mantém os ouvidos presos às suas progressões, um bom ouvido para resgatar samples significantes ao passado e uma habilidade talvez aprendida no estudo de outros géneros (ele indica que andou igualmente por terrenos mais próximos do house do techno) na hora de estruturar os seus arranjos, carregados de dinâmica e jamais presos nas armadilhas de açúcar dos loops. Venha de lá essa segunda não beat tape, sff.

Edição em caixa de plástico transparente com insert impresso profissionalmente. Artwork do próprio David Almeida. Cassete em concha de plástico branco opaco com impressão simpls do nome do artista e do título do álbum. Edição limitada a 50 exemplares.


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[VULTO. & SECTA] “Marcha”
(Lingua Nativa, 2015)

Este é o mais antigo lançamento deste lote e até mereceu por aqui crítica pelo punho de Gonçalo Oliveira. O nosso saudoso colega já referiu praticamente tudo o que importava referir sobre este trabalho do rapper Secta, da Marinha Grande, especialista em multies que nos atam nós incríveis no pensamento – “Sou garganta gárgula, garanto / MC de garagem afundada num pântano”, diz ele a rematar “Vodkijoi”, o primeiro tema deste ep relâmpago de meia dezena de rajadas de sentido e absurdismo sobre cortes sónicos à medida de Vulto., um dos mais irrequietos e prolíficos construtores de túneis no nosso complexo subterrâneo.

Aos beats de Vulto. falta sempre a luz, ele decididamente prefere traduzir a sombra, a escuridão e o abismo, e consegue-o com beats capazes de fazer ressoar as paredes do nosso próprio crâneo. E Secta lá evolui sobre esses labirintos negros, com a voz e as palavras a funcionarem como uma lanterna que vai tornando visíveis tarolas e pratos, graves e parcos agudos, médios fundos e soluçantes cadências que oferecem uma das mais diferentes paisagens ao nosso hip hop moderno. E em cassete tudo isto faz ainda mais sentido, sobretudo se escutada num bom walkman: há qualquer coisa de justo no plano analógico que reveste todo este som de um véu granulado que o complementa de forma feliz.

A edição é numa caixa de plástico transparente, ccom insert de dois paineis a cores impresso profissionalmente, cassete em concha transparente com impressão do nome dos artistas e do título do projecto.

 


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[VÁRIOS] Roxo 02
(Monster Jinx, 2016)

A Monster Jinx é um valoroso pilar da nossa modernidade hip hop e tem efectuado um trabalho louvável de documentação dos labirintos dessa mesma modernidade com uma série de oportunos lançamentos. Este segundo volume da compilação Roxo nem sequer é o mais recente… Mas foi o último a merecer dimensão física numa cassete de edição limitada que será um importante acrescento a qualquer discoteca focada neste suporte. Ou nestes géneros aqui documentados – hip hop, pois claro, mas também electrónica de velocidade mais lenta que tenta sempre traduzir o futuro para este presente multifacetado.

A música é assinada por pretochinês, NO FUTURE, Darksunn, dgtldrmr, Spark, OSEB, Roger Plexico, Raez e Ghost Wavvves, tudo gente de valor, cada um com a sua própria abordagem a esta ciência rítmica avançada, uns mais interessados em deambulações pelas margens do trap, outros mais devedores de uma linhagem boom bap, exploradores das profundezas pós-bass, outros ainda desejosos de navegarem por águas não cartografadas da electrónica mais sintonizada com auscultadores do que com pistas de dança, mas todos com uma declarada vontade de fazer novo, de erguer edifícios reluzentes de futuro através da paleta de frequências ao seu alcance. O que resulta no paradoxo de apesar de todos terem uma proposta personalizada, ouvir este Roxo 02 não deixa de soar à audição de um trabalho uniforme, como se todos eles fossem transmutações de uma mesma personalidade. O que não deixa de ser verdade: afinal de contas, quem manda aqui é o monstro roxo…

Edição em caixa de plástico transparente, com base preta opaca, com artwork impresso profissionalmente num insert a cores, cassete em concha de plástico transparente com lettering impresso a branco. Edição limitada.

 

 


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[RUI MAIA] Fractured Music (Belong Records, 2016)

A música fracturada de Rui Maia é, afinal de contas, fruto de uma visão plena e integrada que tem tido diversas manifestações, dos X-Wife ao projecto Mirror People. Agora, sem máscaras, percebe-se afinal que essa fractura mais não é do que a manifestação de um desejo de evolução constante – um artista que não se cansa de se desafiar a si mesmo: com novas ferramentas, com novas abordagens, com novas ideias.

Neste extraordinário registo em nome próprio ouvem-se ecos de disco e electro, de house e de techno, de cold wave e techno pop. Da América. Da Europa. E até de Marte. É toda uma tradição electrónica que é aqui atirada para a mesa de trabalho, com Rui Maia a baralhar as múltiplas coordenadas coleccionadas ao longo do seu percurso enquanto artista, claro, mas também enquanto fã e ouvinte. Esta é, muito claramente, música que resulta de um sentido apurado de devoção.

Rui Maia tempera tudo com um óbvio pulsar pop que segura as fundações de cada tema e os torna tão funcionais nas pistas quanto eficazes na cabeça. Há um refinamento na produção que também reforça a vocação universalista desta música: pode ser produzida em Portugal em 2016, mas soa como se fizesse sentido em Nova Iorque em 1983 ou em Berlim daqui a nada. E isto resulta assim porque Rui Maia consegue evitar a ratoeira das fórmulas e das tendências, das soluções já testadas e retestadas, em detrimento de uma obediência ao instinto que o tempo apurou. Há também os samples vocais, subtraídos a filmes ou documentários, a emissões de rádio ou a velhos discos, ou até, quem sabe, produzidos para soarem assim, confundindo coordenadas de espaço e tempo e marcas de autenticidade, contribuindo para o mistério e para a missão sempre renovada de boa parte da música – a de superar as amarras do tempo.

E ainda bem que assim é.

(Uma versão editada deste texto foi usada para crítica nas páginas da revista Blitz)

Cassete em caixa transparente, com artwork impresso profissionalmente a preto e branco e cassete em concha de plástico branco opaco com etiqueta simples com informação impressa a preto sobre papel branco colado..

 

 


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[OVER8] Dharma
(Fungo.pt, 2016)

Dharma é um extraordinário trabalho de Over8 que é um alter-ego artístico de Bruno Pereira. Ou era, já que na página bandcamp de apresentação deste trabalho se indica que este será o seu último lançamento sob essa designação. Claro que importante será que Bruno Pereira continue a trabalhar, mas será uma pena se isso significar o abandonar do território explorado com este lançamento: Dharma é um extraordinário exercício de progressão lenta, fundado na corrente dub techno, mas com um nível suficientemente profundo de personalização para evitar os mais óbvios clichés do género.

Bruno descreve o trabalho como estando posicionado entre uma dimensão mais esotérica e outra mais próxima da percepção humana, mas de onde me encontro o todo parece resultar sobretudo profundamente melancólico. A música soa ao eco distante que emana de uma rave fantasma algures numa cave perdida, num silo automóvel vazio ou talvez o som que se agarrou a uma qualquer estrutura industrial abandonada, um espectro de memória. E os sons, os arranjos, as programações carregam um elevado nível de sofisticação, com soluções imprevisíveis que tomam refém a nossa atenção, o que é um sinal claro do grau de maturação que estas peças contêm. Ainda há exemplares disponíveis – mas já não muitos – no bandcamp, por isso não durmam.

Edição limitada a 60 exemplares disponível em caixa transparente com insert que parece serigrafado ou até desenhado à mão. Cassete em concha preta opaca com impressão simples do nome do artista e do título do trabalho.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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