5 K7s # 15: Deadbeats + Dj Shadow + J Dilla + PB Wolf / Dam-Funk + The Gaslamp Killer

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

Cassetes e hip hop: a simbiose é tão, mas tão perfeita que nem tenho a certeza de a conseguir explicar em condições. Talvez seja a nostalgia das boomboxes, quando a cassete carregava todos os argumentos que chegavam para que os b-boys transformassem qualquer passeio num palco… Ou se calhar é apenas porque estas frequências, alinhadas desta maneira, fazem particular sentido num suporte que trata as baterias de uma forma nobre, engordando-as até bem próximo da perfeição sónica… ou se calhar é uma mera cedência à nostalgia: a cassete foi, afinal de contas, o primeiro suporte em que coleccionei música. Seja lá o que for, a verdade é que elas vão chegando aqui a casa, muitas vezes duplicando (ou triplicando…) títulos que já tenho noutros formatos, mas a que não resisto quando se apresentam assim, belas e portáteis, carregadas de um indiscritível charme. E com o punch certo!

Este mês há por aqui muita Califórnia (Dj Shadow, The Gaslamp Killer, Peanut Butter Wolf com Dam-Funk…), um pedaço gigante de Detroit (J Dilla) e uma amostra obscura dos subterrâneos de Nova Iorque (brokeMC). Hip hop, claro, mas de vistas largas – com piscadelas de olho à electrónica, com ambição orquestral, com vénias ao funk. Há espaço para muita coisa. Segurem-se… e puxem lá pelo volume nos vossos walkman.

 


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[DJ SHADOW] The Mountain Will Fall
(Liquid Amber / Mass Appeal, 2016)

por aqui abordámos o mais recente álbum de originais de DJ Shadow. Mas é uma edição que merece audições recorrentes e a sua disponibilidade noutros formatos para lá dos físicos mais convencionais (CD e vinil) e dos digitais é um motivo tão bom como outro qualquer para se voltar a ele. E é curioso até que nos últimos segundos da faixa de abertura que também dá título ao álbum, “The Mountain Will Fall”, um tema bastante futurista, se escute o som familiar de uma cassete a ser retirada do deck para ser virada para o outro lado e recolocada para audição. Que o tema que se segue seja o bombástico “Nobody Speak”, colaboração de Shadow com os Run The Jewels, é sintomático: este é um álbum que, de facto, vive dessa tensão entre o passado e o futuro, com Shadow a equacionar a sua própria posição no mundo face à discografia que construiu, nomeadamente o inescapável Endtroducing que por estes dias está a ser alvo, aliás, de uma antológica e monumental reedição (e o que eu gostaria de ter uma cópia desse trabalho inaugural da sua discografia em cassete).

Já com alguns meses em cima, este é um álbum que tem crescido alguma coisa, com a visão de DJ Shadow a tornar-se mais nítida a cada nova edição. Continua a não ser um disco perfeito, mas é um álbum com uma saudável dose de autocrítica, em que o produtor questiona velhos métodos e procura explorar novas avenidas sonoras. E essa coragem, quando parece ter um mundo inteiro a gritar-lhe aos ouvidos “repete-te”, é de louvar.

Edição em caixa de plástico transparente com insert impresso profissionalmente a cores em formato desdobrável de múltiplas faces . Cassete em concha de plástico preto com impressão simples do nome do artista e ainda título e alinhamento do álbum.

 


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[THE GASLAMP KILLER] Instrumentalepathy
(Cuss / Low End Theory, 2016)

The Gaslamp Killer é um tipo curioso, de vistas largas, de ambição musical pronunciada, dono de uma discografia já dilatada, mas muito dispersa por diferentes formatos, com Instrumentalepathy a ser, na verdade, o seu segundo álbum de originais e portanto sucessor de Breakthrough, que já data de 2012.

No complexo mapa de Gaslamp Killer coube sempre de tudo, hard rock e Beatles, hip hop e Mulatu Astatke, funk turco e jazz espiritual. E neste álbum pós recuperação de um grave acidente que o deixou às portas da morte, este Killer celebra a vida da melhor maneira, com uma psicadélica mistura de registos orquestrais e breaks, sintetizadores espaciais e o que soariam a outtakes de Black Sabbath se os Black Sabbath fossem um grupo de veteranos da cena de library music escondidos num estúdio californiano com um monte de cogumelos (“Gammalasser Kill”).

O álbum tem aliados de peso, de Miguel Atwood-Ferguson e Malcolm Catto (Heliocentrics) a Mophono, Shigeto e Gonjasufi. Mas é a personalidade excêntrica de Killer que brilha num disco de ambição orquestral, de abstracção centrada no ritmo, mas com suficientes derivas planantes para fazer sentido tanto num bom sistema de som quanto em auscultadores que fornecem banda sonora para a contemplação de uma qualquer paisagem idílica. Excelente regresso de Gaslamp Killer ao mundo dos vivos!

A edição é numa caixa de plástico transparente, com insert de dois paineis a cores impresso profissionalmente, cassete em concha de plástico vermelho transparente com impressão do logo do artista e do título do álbum.

 

 


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[J DILLA] The Diary of J Dilla
(Pay Jay / Mass Appeal, 2016)

Alexandre Ribeiro já tratou da saúde a este The Diary e não teve dúvidas de que é “um álbum coeso e que eleva ainda mais o respeito por um dos super-heróis do universo hip hop”. Mas como é óbvio, J Dilla justifica sempre de forma plena qualquer pretexto para se voltar a falar da sua música.

Este álbum teve uma história complexa, já muito dissecada, e foi terminado por Egon procurando respeitar aquilo que seriam as ideias originais do filho pródigo de Detroit para o que deveria ter sido a sua estreia na MCA com o título Pay Jay. Em cima dos beats intemporais de Dilla (e tanto aqui poderia ter sido produzido ontem…), ouvem-se as rimas de gente como Frank N Dank, Nottz, mas sobretudo a sua própria voz, quase sempre a representar o papel do durão do bairro, talvez a sua maneira de compensar as suas próprias fragilidades físicas, ou apenas uma máscara, um boneco nem sempre de moral elevada (“The Shining Pt.2” é isso mesmo…). Este The Diary conta igualmente com beats de Wajeed, House Shoes ou Madlib e dessa forma o seu legado é emoldurado da melhor maneira: um cientista dos beats capaz de ciência rítmica da mais avançada, um MC dotado quando se aplicava e uma mente aberta às fontes mais inesperadas, incluindo synth pop britânico clássico (“Trucks”), o que é extraordinário se tivermos em conta a tal máscara colocada e a sua origem cultural nas ruas mais duras de Detroit (que, bem vistas as coisas, foi sempre terra de gente com gostos generosos, capaz de facilmente alcançar o lado de cá do oceano com as suas escolhas). Material perfeito para cassetes, na verdade.

Edição em caixa de plástico transparente, com artwork impresso profissionalmente num insert a preto e branco, cassete em concha de plástico preto opaco com lettering impresso a branco.

 

 


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[PEANUT BUTTER WOLF & DAM-Funk] 45 Minutes of Funk (Funkmosphere, 2016)

De velhas e significantes rodelas de vinil para os pratos; dos pratos para a mesa de mistura; da mesa de mistura para o laptop; do laptop para o mundo; e depois também, e ainda bem, do laptop para a cassete. Foi este o percurso dos dois sets que há quase um ano fizeram o podcast # 94 da Stones Throw, com assinaturas desses dois incondicionais devotos da gordura imposta a baixos e baterias que respondem pelos nomes de Peanut Butter Wolf e dam-Funk.

Agora, é o homem da noite Funkmosphere que usa as duas viagens de 45 minutos pelos labirintos do vinil funk colheita anos 80 para esta oportuna edição em cassete. Muito funk de néon e de arcada de jogos vídeo, muitos temas que parecem ter sobrado de bandas sonoras de produções cinematográficas low budget dos anos 80, mas que mantém intacto o charme que vai inspirando as produções de modern funk contemporâneo de gente como Dam-Funk ou da crew da Omega Supreme Records.

Se estão a planear uma festa em casa e têm uma boombox à mão poucas escolhas poderão ser mais acertadas do que esta cassete. E sim, não virá mal nenhum ao mundo se em vez de cassete e boombox usarem o ipad e a ligação bluetooth para tocarem isto numa coluna sem fios à beira da piscina. O importante aqui é mesmo a música. Não foi só James Brown que gerou fértil descendência nos anos 70. Rick James e Prince também largaram vasta prole sobre o mundo. E ainda bem…

Cassete em caixa transparente, com artwork impresso profissionalmente a preto e branco e cassete em concha de plástico branco opaco com nome do artista a identificar cada um dos lados.

 

 


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[brokeMC] Deadbeats
(I Had an Accident Records, 2015)

Há nomes de respeito ao lado de brokeMC, de Homeboy Sandman e Premrock a Rabbi Darkside e Swordplay. esta mixtape é uma crónica de muitos palcos subterrâneos pisados por brokeMC ao longo de uma década de autêntico hustle nas ruas, sempre a rimar de forma invisível, mas honesta. Com beats da sua própria autoria, produzidos sem recurso a samples (só nos interlúdios), de forma algo lo-fi e simples, mas com uma inocência que entusiasma a lembrar algumas coisas do arranque dos anos 90.

Há por aqui muito MCing em estado avançado, arte pela arte, sem mensagens pensadas para ecoar nas redes, antes para brilharem entre iguais, num recanto qualquer onde uma luz simples permita que vários MCs numa roda se possam olhar mutuamente nos olhos enquanto cospem cifras avançadas. Material de walkman perfeito, na verdade.

Edição limitada a 200 exemplares disponível em caixa transparente com insert impresso a cores, profissionalmente. Cassete em concha castanha opaca com impressão simples do do título do trabalho de um lado e motivos decorativos do outro lado.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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