5K7s # 17

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

A Finders Keepers Records de Andy Votel e Doug Shipton tornou-se, com o passar dos anos, num dos mais fascinantes depósitos de memória esotérica musical de que dispomos no presente. Na sua intrincada teia de etiquetas — Cache Cache, Cacophonic, Dead-Cert Home Entertainment, etc — abriga-se alguma da mais incrível música em que podemos mergulhar, do jazz mais libertário à música concreta, das experimentações library à electrónica mais exploratória, das bandas sonoras psicadélicas às declinações de tudo isto em latitudes menos conhecidas. Andy Votel e Doug Shipton fizeram da investigação séria do passado obscuro impresso em vinil uma forma de arte levando até às últimas consequências a ideia tão esvaziada em tempos recentes de “curadoria”, com uma editora de identidade sonora e gráfica bem vincada, de liberdade irredutível nas suas escolhas e de coragem evidente nas opções que toma na hora de expandir catálogo.

As cassetes continuam, claro, a servir as intenções de Votel e de Shipton: não só servem para recolocar no presente e na dimensão física algumas mixtapes e sets que tinham em arquivo, mas também permitem manter o espírito limitado, que reserva a circulação de alguma desta música a um contido círculo de “iniciados” no seu universo. A Hypocrite ? é, aliás, um dos selos do universo Finders Keepers que serve para lançar (pelo menos até agora) títulos exclusivamente neste formato, quase sempre carimbados pelo próprio Andy Votel e também com ocasionais parcerias com Doug Shipton ou Sean Canty (dos Demdike Stare). Mas as cassetes que hoje por aqui sugerimos não chegam apenas com carimbo da Hypocrite ?, com as marcas Cache Cache, DDS e uma prensagem privada a servirem igualmente para abençoarem a chegada destas diferentes propostas musicais à dimensão da fita analógica.


[Andy Votel]
(Histoire D’Horreur, Hypocrite ?)

Set que há meia dúzia de anos circulou na net, nomeadamente no SoundCloud, este Histoire D’Horreur foi agora convenientemente recuperado a tempo de mais um Halloween. Trata-se de Votel a mergulhar fundo na sua incrível colecção de discos para depois vir à superfície com uma série de excertos de bandas sonoras irreconhecíveis, com muitas cordas dramáticas, sombrias passagens electrónicas, vozes inocentes e algo infantis e muitas melodias sombrias apoiadas em acordes menores que evocam sempre uma sensação de perigo. Este é o tipo de música a que os realizadores recorrem para nos dizerem que há algo de malévolo à espreita. E o facto de não haver qualquer tipo de alinhamento obriga-nos a “shazamar” com alguma frequência, o que só contribui para a nossa frustração quando percebemos que nem assim se chega à identidade desta música. Ou seja, nem toda a música está na nuvem e escavar o mais fundo possível ainda é a melhor maneira de encontrar tesouros.

Título disponível em caixa de plástico transparente de tamanho XL, impressa com artwork a uma cor. A cassete é impressa em concha transparente, polvilhada de glitter vermelho (estão a ver porque valem estas coisas tanto a pena?…)


[Andy Votel]
(Archipelagogo – Original Soundtrack By Andy Votel, Hypocrite ?)

Criação original de Andy Votel, entre o sampling e a simples colagem, resultando numa música que sendo produzida no presente bem poderia ter sido encontrada numa bobine gravada em meados dos anos 70: entre a folk psicadélica, bandas sonoras para filmes experimentais europeus, alguma library music (sobretudo a de produção italiana) e com os arranjos envoltos numa aura subtilmente infantil e onírica esta é música que Votel criou para servir de banda sonora à exposição Archipelagogo de Felt Mistress, uma homenagem à obra e vida de Tove Jansson, autora sueca dos livros Moomin que tanto parecem inspirar e fascinar o patrão da Finders Keepers. Ou seja, faz sentido esse lado mais infantil e, portanto, bastante hauntológico, uma vez que é aos sons da memória que Votel apela, como se voltássemos a espreitar os filmes que Vasco Granja nos mostrava vindos do lado de lá da Cortina de Ferro.

Edição disponível em caixa normal, de plástico transparente e base branca com a cassete a ser impressa em concha igualmente bicolor, com uma face azul e outra cor de rosa.


[Doug Shipton]
(Dedicated Swallower of Fashion, no label)

Doug Shipton partilha com o seu companheiro de aventuras Andy Votel o gosto pelo lado menos convencional e mais esotérico da música e tem ele mesmo lançado vários trabalhos em cassete. Esta mixtape recoloca no presente (e em cassete…) um set lançado originalmente em CD pela loja Fat City de Manchester em 2011. À época, Shipton descreveu o conteúdo como “45! vintage cuts decanted and mixed into a 56-minute Molotov cocktail of Bolshevik beats, Kollywood funk, ostracised ostrock and pan-Asian pop oddities”. E pouco mais há a dizer a não ser “tracklist, please!”: baterias carregadas, perfeitas para b-boys e samplers, e música que se desvia das convenções como o Neo de Matrix se desviava das balas – ou seja, com elegância inexplicável, pois claro.

Cassete em caixa transparente com insert de triplo painel, impresso a cores profissionalmente. A cassete vem em concha cor de laranja, com o título impresso a branco.


[Beach Surgeon]
(Cassette Roulette (1979 – 1984), Cache Cache)

Após a inclusão de uma faixa de Beach Surgeon no segundo volume da compilação Plastic Dance (que também tem carimbo Cache Cache), a curiosidade foi suficiente para gerar esta edição que inaugura uma nova série no catálogo dessa etiqueta do universo Finders Keepers, de título PVC. E em boa hora isso aconteceu, uma vez que esta Cassette Roulette que reúne, como o sub-título indica, trabalhos criados entre 1979 e 1984, nos revela o lado menos conhecido da carreira de Graham Massey, homem dos 808 State.

Inserido na fértil cena subterrânea da música industrial que circulava sobretudo em cassetes em finais dos anos 70 e arranque dos anos 80 do século passado, Beach Surgeon produzia instrumentais com recursos electrónicos limitados, mas que já permitiam antever o futuro alinhado com a cultura rave da segunda metade da década aqui mencionada. O próprio Massey refere-se a este som, de forma bastante acertada e feliz, diga-se, como “portastudio post punk”: produção caseira, exploratória, revestida da inocência própria da inexperiência, e por isso mesmo também bastante livre de convenções, com passagens mais percussivamente vincadas e outras mais abstractas e ambientais.

Caixa em plástico vermelho, embalada em outra caixa de cartão adornada com lixa e um penso hospitalar (ou seja, artwork bastante punk…), com insert em cartão de três corpos impresso a cores profissionalmente e cassete em concha de plástico vermelho transparente.


[Demdike Stare]
(Live @ Rendez-Vous Contemporains de Saint-Merry 26-04-2019, DDS)

Depois da cassete que documentava um set apresentado em Março último em Berlim (e que mereceu por aqui toda a atenção), eis que os Demdike Stare voltam a escolher este formato para disponibilizarem outra performance, desta feita datada de Abril e realizada na igreja de Saint-Merry, em Paris, no âmbito dos Rendez-Vous Contemporains.

Tratando-se da dupla de Sean Canty e Miles Whittaker, pode esperar-se mais uma deriva pelos abismos mais inexplorados da electrónica, uma viagem feita de profundas ressonâncias graves, ruídos e gravações de campo, assomos orquestrais, num misto de produção própria e colagem de fontes alheias, com a ambivalência de se revelar tão abstracta quanto evocativa. Se os vossos sonhos mais sombrios precisam de banda sonora, bem que podem deixar o walkman na mesa de cabeceira com esta cassete dentro!

Como a edição relativa à prestação berlinense, esta cassete também chega em envelope de cartão negro, com carimbo colorido e insert em cartão de qualidade de três corpos, impresso profissionalmente e a cores, com fotografias assinadas por Daniel John Willis que se pressupõe terem sido projectadas durante a performance.

Toda a série 5K7s está disponível aqui.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu