5K7s # 16 edição especial: The J Dilla Tape Collection

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

 

Jay Dee aka J Dilla aka James Dewitt Yancey. Dilla. Génio. Fantasma bom. Espírito livre. Uma paixão, por estes lados. Esta é uma edição especial do 5K7s porque se faz exclusivamente de cassetes de Jay Dee/J Dilla. Já no volume 10 do 5K7s tínhamos dedicado atenção a três das cassetes que hoje aqui apresentamos e uma quarta foi alvo de atenção na última edição desta rubrica, mas o mundo não pode ter Dilla que chegue e há títulos novos que precisavam de enquadramento por aqui no 5K7s e nada melhor do que rodear esses novos títulos de outros do mesmo autor. E a verdade é que Dilla merece toda a atenção que lhe possamos dar. Por isso, cá estamos, uma vez mais, de volta do seu legado.

Uma palavra sobre Dee/Dilla em cassete: sim, esta coluna celebra um formato particular, um som diferente e uma maneira igualmente singular de escutar música. A cassete foi em tempos uma espécie de MP3 (ainda se lembram do que era o Mp3?…) para uma certa geração no sentido de que era de todos os formatos então disponíveis (CD, vinil, cassete) o mais economicamente acessível e o que permitia mais facilmente a partilha (quem fez mixtapes, colectâneas caseiras, sabe bem do que se está para aqui a falar). E como para outros géneros das franjas (synth wave, electrónica experimental, out rock de diversos calibres, etc), também o hip hop apoiou muita da sua difusão paralela neste suporte. A mixtape – essa invenção do Bronx para o mundo – viveu décadas neste formato. Não é preciso apresentar mais argumentos, certo? Jay Dee em cassete faz mais do que sentido: é uma questão da mais elementar justiça e por isso, por muito cínicos que possamos ser em relação ao renascimento da cassete que até forçou o seu próprio Cassette Store Day (como o vinil…), a verdade é que a atenção mais ou menos recente oferecida a este formato teve pelo menos o condão de recolocar nesta económica dimensão analógica vários dos títulos do catálogo deste génio de Detroit.

Génio de Detroit. Verdade. Escrevi as linhas seguintes quando desapareceu, em 10 de fevereiro de 2006, fez recentemente 11 anos. Ficam aqui de novo…

 


j dilla


Jay Dee morreu no passado dia 10 de Fevereiro, vítima de prolongada doença do sistema sanguíneo. Jay Dee – ou Jay Dilla como também era comummente referenciado – tem uma discografia tão longa quanto impressionante, mas ainda assim não é dos nomes mais celebrados desta cultura. Talvez por ser um espírito livre.

A carreira de Dilla arrancou de facto em 1996, ano em que o seu grupo Slum Village começou a dar que falar em Detroit e também o ano em que viu o produto do seu talento de produtor ser aproveitado por nomes tão sonantes como De la Soul, Busta Rhymes e A Tribe Called Quest. Foi aliás com Q-Tip e Ali Shaheed dos Tribe que Dee estabeleceu a sua primeira parceria de produção – The Ummah, uma assinatura que adornou as fichas técnicas de muitos grandes lançamentos da segunda metade da década de 90. Jay Dee adorava trabalhos de equipa e ao longo dos anos emprestou os seus talentos a alguns colectivos importantes – além do The Ummah integrou os Soulquarians com D’Angelo e Questlove e nessa qualidade deixou uma marca bem vincada no trabalho de gente como Common. Numa das suas últimas entrevistas, Jay Dee explicou aliás que era suposto ter-se envolvido muito mais no mais recente álbum de Common, o muito aplaudido “Be”, mas a sua saúde já se havia deteriorado bastante e o período de estúdio coincidiu com uma estadia de dois meses no hospital. Kanye West acabou por produzir a quase totalidade do álbum, facto que Jay Dee aliás apreciou bastante: “os beats dele são incríveis e eu só tenho que me sentir orgulhoso por ainda assim estar envolvido neste trabalho. Espero que me venha a abrir portas para o futuro.” O futuro, ao que parece, será diferente e não poderá contar com a entrega generosa de Dee na sua construção.

Dee tinha um talento especial – a sua música conseguia soar cheia de alma e ser simultaneamente profundamente experimental. Talvez por isso se tenha entendido tão bem com Madlib noutra parceria que o tempo se encarregará de transformar em clássico – Jaylib. A Stones Throw, que editou esse trabalho, foi a editora escolhida por Jay Dee para documentar os seus últimos passos. E no passado dia 7 deste mês, três dias antes de falecer, Jay Dee ainda acompanhou a chegada ás lojas do seu último trabalho – o álbum “Donuts”.

Há mais dois álbuns prontos, um deles deverá chegar às lojas em Maio com selo da mesma BBE que editou o brilhante “Welcome 2 Detroit” de Jay Dee. E há música já entregue a gente como Erykah Badu, a Truth Hurts, a MF Doom e Ghostface Killah. Dee sabia que ia morrer, mas percebeu que a música nunca o deixaria ser esquecido.

Obrigado, Jay.

 


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[Jay Dee] Deelicious (The Delicious Vinyl Years 95-98)
(The Bicycle Music Company, 2016)

Dupla cassete fantástica, esta. Esta compilação já tinha merecido edição em triplo vinil (que, aliás, tenho que acrescentar à minha wish list do Discogs…), mas finalmente uma oportuna passagem pela Waxwell de Amesterdão colocou-a no meu caminho (bem como umas quantas outras de outros produtores que deverão constar num futuro volume de 5K7s). E em boa hora: esta é, de facto, música de um tempo em que o hip hop ainda circulava fortemente neste formato, por isso recolocar estes temas com assinatura de Dilla da era em que ainda respondia ao nome Jay Dee é uma forma singela, mas importante, de reequilibrar as energias do universo.

Esta compilação reúne produções e remisturas de Jay Dee para gente como os Pharcyde, Brand New Heavies (aqui em faixas com Mos Def e Q-Tip) e ainda N’Dea Davenport: música do período em que o hip hop se aproximou do jazz, estabelecendo-se as fundações do que hoje identificamos como boom bap. Ou seja, produções apoiadas em drums arrancadas a breaks clássicos de funk, loops erguidos de poeirentas memórias da Impulse ou Blue Note, tudo com muita classe, com muita alma, com arquitecturas bastante claras e definidas (Dilla assumiria, alguns anos depois, uma abordagem mais experimental, menos quantificada, mais livre e solta). Este é o som do período clássico de Jay Dee, ligado à chamada golden age do hip hop, quando parecia que tudo ainda estava por samplar: Rhodes a pontapés, baixos carregados de groove, orgãos, guitarras funky. Tudo certo. O som de uma memória muito especial e particular. E com um bónus particular: a segunda cassete contem os instrumentais! Ouvir a arquitectura luminosa de “Runnin'” dos Pharcyde e perceber que poderíamos ouvir aquele simples loop de “Saudade Vem Correndo” de Stan Getz e Luiz Bonfá até à eternidade é reencontrar-nos com uma memória muito espcial. Como regressar a casa. E agora multiplique-se esse sentimento por 9!

Edição em duas cassetes separadas, dentro de uma caixa de cartão vermellha. As cassetes vêm em caixas de plástico transparente com inserts em papel e são em conchas de plástico opaco (branco e negro) com título e alinhamento impresso.

 


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[Jay Dee / J Dilla] Welcome 2 Detroit / The Shining 

(BBE, 2016)

A britânica Barely Breaking Even lançou no final dos anos 80 e no arranque deste milénio uma série de importantes compilações que alinhavam o presente de então com algum do passado que andava a ser samplado no hip hop e em zonas paralelas. O passo seguinte foi oferecer a alguns importantes produtores o espaço para se expressarem como autores, longe das palavras dos MCs a que tantas vezes apareciam associados. Pete Rock, Marley Marl, Jazzy Jeff ou Will.I.Am (quando o azeite ainda não lhe tinha começado a escorrer dos dedos) ofereceram todos contributos à série Beat Generation que no entanto foi inaugurada pelo grande Jay Dee com o incrível Welcome 2 Detroit lançado originalmente em 2001.

Este álbum já mostrava a arte de Jay Dee a evoluir, a procurar uma maior liberdade e futuro. Essencialmente instrumental, inclui participações de Dwelle (que toca trompete em “Think Twice”, a homenagem de James aos grandes irmãos Mizell), Karriem Riggins ou, no microfone, de gente como Elzhi, Frank N Dank, Blu ou Phat Kat. O tema “Pause” com Frank N Dank, aliás, é um daqueles em que Dilla já espreitava do futuro, com um bounce mais livre e uma produção mais abstrata e solta ao nível dos loops, menos “figurativos” do que era normal. A paixão por texturas mais electrónicas, que Dilla haveria de explorar bem nos anos seguintes, também se começa a fazer sentir em momentos especiais como “B.B.E. (Big Booty Express)” que soa algures entre uma produção de Carpenter e outra dos Kraftwerk…

 

Esta edição da BBE é particular porque se entrega o lado a Jay Dee e Welcome 2 Detroit, entrega o outro a J Dilla e a The Shining, álbum póstumo que foi lançado no Verão de 2006, quando o desaparecimento do filho pródigo de Detroit ainda estava fresco na memória de todos. Com colaborações de ilustres como Common (que adorna o clássico “E=MC2”), Pharoahe Monch (“Love”), D’Angelo (que surge ao lado de Common na fabulosa “So Far to Go”, um dos meus beats favoritos do mestre) ou ainda Madlib e Guilty Simpson (a dividirem “Baby”), este é um trabalho carregado de significado, em que Dilla é justamente entronado pelos seus pares.

Quando saiu, escrevi as linhas seguintes na revista Op..

Dilla morreu, mas não desapareceu. Depois da edição do álbum de instrumentais “Donuts” na Stones Throw, cabe agora à britânica BBE a vez de se juntar ao coro que sagra a carreira de J Dilla. Nos Slum Village ou como parte dos Soulquarians ao lado de D’Angelo e Questlove, J Dilla afirmou-se como um produtor de classe e um dos únicos que provou ser capaz de trabalhar de ambos os lados da barricada que separa o mainstream e o undergound. Neste álbum, MCs como Common ou MED e cantores como D’Angelo ou Dwele mostram o seu respeito entregando-se a pedaços de paraíso criados por Dilla. E todos ganhamos.

A edição é numa caixa de plástico transparente, com parte de trás em plástico opaco negro, com insert de três paineis impresso profissionalmente, cassete em concha de plástico transparente, com informação impressa a preto em etiqueta de papel autocolante branco.

 

 


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[J DILLA] The Diary of J Dilla
(Pay Jay / Mass Appeal, 2016)

Repito por aqui o que já tinha escrito no volume 15 de 5K7s: Alexandre Ribeiro já tratou da saúde a este The Diary e não teve dúvidas de que é “um álbum coeso e que eleva ainda mais o respeito por um dos super-heróis do universo hip hop”. Mas como é óbvio, J Dilla justifica sempre de forma plena qualquer pretexto para se voltar a falar da sua música.

Este álbum teve uma história complexa, já muito dissecada, e foi terminado por Egon procurando respeitar aquilo que seriam as ideias originais do filho pródigo de Detroit para o que deveria ter sido a sua estreia na MCA com o título Pay Jay. Em cima dos beats intemporais de Dilla (e tanto aqui poderia ter sido produzido ontem…), ouvem-se as rimas de gente como Frank N Dank, Nottz, mas sobretudo a sua própria voz, quase sempre a representar o papel do durão do bairro, talvez a sua maneira de compensar as suas próprias fragilidades físicas, ou apenas uma máscara, um boneco nem sempre de moral elevada (“The Shining Pt.2” é isso mesmo…). Este The Diary conta igualmente com beats de Wajeed, House Shoes ou Madlib e dessa forma o seu legado é emoldurado da melhor maneira: um cientista dos beats capaz de ciência rítmica da mais avançada, um MC dotado quando se aplicava e uma mente aberta às fontes mais inesperadas, incluindo synth pop britânico clássico (“Trucks”), o que é extraordinário se tivermos em conta a tal máscara colocada e a sua origem cultural nas ruas mais duras de Detroit (que, bem vistas as coisas, foi sempre terra de gente com gostos generosos, capaz de facilmente alcançar o lado de cá do oceano com as suas escolhas). Material perfeito para cassetes, na verdade.

Edição em caixa de plástico transparente, com artwork impresso profissionalmente num insert a preto e branco, cassete em concha de plástico preto opaco com lettering impresso a branco.

 

 


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[Jaylib] Champion Sound / Bonus TRX + RMX (Stones Throw, 2015)

E agora, do volume 10 de 5K7s: Em Champion Sound Madlib e Jay Dilla rimam alternadamente nos beats um do outro, numa espécie de troca de estímulos em regime aberto de ideias que se traduz num entusiasmante caleidoscópio hip hop, com beats sujos e fluidos que traem as paixões de cada um dos produtores e que soam como uma noite passada num clube de jazz, com headphones na cabeça. Frank n’ Dank, Talib Kweli, Guilty Simpson e Percee P surgem como convidados num disco que desde a sua data de edição original, nos idos de 2003, cresceu exponencialmente. Não é apenas a força do mito, mas na verdade pode dizer-se que o tempo fez bem à obra de Dilla e Madlib: porque muitas das pistas que exploraram no início do milénio estão hoje, por via das circunstâncias, na ordem do dia. Se Kanye “puxa” Madlib e Karriem Riggins para dentro de The Life of Pablo e se muitos produtores contemporâneos fazem da fuga às regras uma forma de estar, então tudo isso oferece uma nova luz a trabalhos como Champion Sound. E que em cassete soa melhor do que nunca!

Edição em caixa de plástico transparente com insert simples impresso em papel de qualidade e cassete em concha de plástico transparente. O artwork desta cassete foi pensado de forma a articular-se com a próxima cassete que poderão ver já aqui abaixo.

 

Esta cassete foi um lançamento do Cassete Store Day (sim, eu sei, não havia necessidade…) de 2015 e reúne algumas raridades e sobras e funciona para fãs e completistas, como eu… Temos temas extra como “Da Rawkus” (numa Sir Bang Version) ou uma Rap Circle Mix para “The Official” e novos interlúdios como “Optimus For Dilla”. São sobras, é verdade, mas há aqui ainda assim suficiente mel para adoçar até os mais empedernidos ouvidos. Até uma Rasta Dub Mix para “Survival Test”. Trata-se, basicamente, do material extra que adornava a edição em duplo CD de 2007. Mas é sempre bom ter este material em cassete, pois claro.

Edição em caixa transparente, com insert em papel de qualidade, com tracklisting, e cassete em concha transparente. O artwork, como se pode comprovar, foi pensado para se articular com o da cassete regular com o álbum Champion Sound.

A versão existente no Spotify não corresponde exactamente ao alinhamento da edição em cassete, que se pode conferir aqui.

 

 


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[J Dilla] Donuts
(Stones Throw, 2014)

E, de novo, texto dos arquivos da coluna 5K7s: Mais uma edição da Stones Throw para o Cassete Store Day. Faz algum sentido que Peanut Butter Wolf decida oferecer estes títulos a este suporte: afinal de contas, durante o seu período formativo nos anos 80, as cassetes eram talvez o principal veículo de divulgação do hip hop. E projectos como o de J Dilla, embora perfeitamente comprometidos no futuro quando saíram – e a sua validade no presente é a máxima prova disso mesmo – não deixavam de se erguer em cima de uma série de pistas da golden age, nomeadamente por apresentarem uma tão criativa relação com o sampling. Deixo aqui o que escrevi sobre Donuts aquando da sua edição original, em 2006:

Jay Dee fez parte do trio The Ummah, fez parte dos Soulquarians, fez parte dos Slum Village. Jay Dee fez parte do nosso mundo. E continua a fazer porque a música, ao contrário dos corpos, não desaparece. Com uma carreira tão impressionantemente ligada a grandes vozes – Common, D’Angelo…. -, Dee escolheu no entanto um álbum de instrumentais para se despedir da vida. Porque era, obviamente, um homem de música, com um ouvido impressionante para os mais significantes loops de soul, com uma capacidade de programar ritmos carregados de tradição e futuro. E “Donuts”, apresentado ao mundo pela Stones Throw, tem isso tudo. E tem, caso ainda não tenham percebido, traços de génio em pequenas sinfonias microscópicas de som e emoção.

Edição em caixa transparente, com insert a reproduzir o icónico artwork e cassete em concha de plástico transparente.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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