5K7s #10

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

Têm sido dias especiais, estes os que temos vindo a viver: antecipação do aniversário de J Dilla, o 10º ano do seu desaparecimento, a celebração Dentro da Caixa e todos os sinais vindo do resto do planeta a apontarem para o que já todos sabemos – que a sua obra é gigante e eterna e tão cedo não vai esmorecer. Por coincidência – coincidência porque não preciso destes pretextos para acrescentar cassetes com a sua marca à minha colecção – estavam a caminho e acabam de chegar mais 3 cassetes com a sua marca: uma reedição de Donuts e duas cassetes de Jaylib. Faz por isso todo o sentido que esta seja uma edição especial Dilla. As outras duas cassetes foram escolhidas para figurar neste lote, de entre as novidades que já por ali estão alinhadas (a próxima edição do 5K7s nem deve tardar porque já ali está definido o próximo grupo).

 


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[JAYLIB] Champion Sound
(Stones Throw, 2015)

Em Champion Sound Madlib e Jay Dilla rimam alternadamente nos beats um do outro, numa espécie de troca de estímulos em regime aberto de ideias que se traduz num entusiasmante caleidoscópio hip hop, com beats sujos e fluidos que traem as paixões de cada um dos produtores e que soam como uma noite passada num clube de jazz, com headphones na cabeça. Frank n’ Dank, Talib Kweli, Guilty Simpson e Percee P surgem como convidados num disco que desde a sua data de edição original, nos idos de 2003, cresceu exponencialmente. Não é apenas a força do mito, mas na verdade pode dizer-se que o tempo fez bem à obra de Dilla e Madlib: porque muitas das pistas que exploraram no início do milénio estão hoje, por via das circunstâncias, na ordem do dia. Se Kanye “puxa” Madlib e Karriem Riggins para dentro de The Life of Pablo e se muitos produtores contemporâneos fazem da fuga às regras uma forma de estar, então tudo isso oferece uma nova luz a trabalhos como Champion Sound. E que em cassete soa melhor do que nunca!

Edição em caixa de plástico transparente com insert simples impresso em papel de qualidade e cassete em concha de plástico transparente. O artwork desta cassete foi pensado de forma a articular-se com a próxima cassete que poderão ver já aqui abaixo.

 

 


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[JAYLIB] Champion SoundBonus Trax + RMX
(Stones Throw, 2015)

Esta cassete foi um lançamento do Cassete Store Day (sim, eu sei, não havia necessidade…) de 2015 e reúne algumas raridades e sobras e funciona para fãs e completistas, como eu… Temos temas extra como “Da Rawkus” (numa Sir Bang Version) ou uma Rap Circle Mix para “The Official” e novos interlúdios como “Optimus For Dilla”. São sobras, é verdade, mas há aqui ainda assim suficiente mel para adoçar até os mais empedernidos ouvidos. Até uma Rasta Dub Mix para “Survival Test”. Trata-se, basicamente, do material extra que adornava a edição em duplo CD de 2007. Mas é sempre bom ter este material em cassete, pois claro.

Edição em caixa transparente, com insert em papel de qualidade, com tracklisting, e cassete em concha transparente. O artwork, como se pode comprovar, foi pensado para se articular com o da cassete regular com o álbum Champion Sound.

 

 


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[J Dilla] Donuts
(Stones Throw, 2014)

Mais uma edição da Stones Throw para o Cassete Store Day. Faz algum sentido que Peanut Butter Wolf decida oferecer estes títulos a este suporte: afinal de contas, durante o seu período formativo nos anos 80, as cassetes eram talvez o principal veículo de divulgação do hip hop. E projectos como o de J Dilla, embora perfeitamente comprometidos no futuro quando saíram – e a sua validade no presente é a máxima prova disso mesmo – não deixavam de se erguer em cima de uma série de pistas da golden age, nomeadamente por apresentarem uma tão criativa relação com o sampling. Deixo aqui o que escrevi sobre Donuts aquando da sua edição original, em 2006:

Jay Dee fez parte do trio The Ummah, fez parte dos Soulquarians, fez parte dos Slum Village. Jay Dee fez parte do nosso mundo. E continua a fazer porque a música, ao contrário dos corpos, não desaparece. Com uma carreira tão impressionantemente ligada a grandes vozes – Common, D’Angelo…. -, Dee escolheu no entanto um álbum de instrumentais para se despedir da vida. Porque era, obviamente, um homem de música, com um ouvido impressionante para os mais significantes loops de soul, com uma capacidade de programar ritmos carregados de tradição e futuro. E “Donuts”, apresentado ao mundo pela Stones Throw, tem isso tudo. E tem, caso ainda não tenham percebido, traços de génio em pequenas sinfonias microscópicas de som e emoção.

Edição em caixa transparente, com insert a reproduzir o icónico artwork e cassete em concha de plástico transparente.

 

 


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[dB] 4400 OG
(Biruta, 2016)

E faz todo o sentido do universo, mesmo daquele onde buracos negros colidem e criam ondas gravitacionais que fazem o fantasma de Einstein sorrir lá na quinta dimensão, incluir aqui este trabalho, nesta edição especial de 5K7s dominada pelo espírito de J Dilla. É o próprio dB que reclama a comparação quando afirma, no texto com que apresenta este seu novo trabalho, que “4400 OG está para Gaia como Donuts está para Detroit”. Ora, o trabalho cubista de Jay Dilla no seu fantástico ópus referido aqui em cima é de facto bússola para dB que pinta aqui um nocturno e obtuso retrato de Gaia através do sampling de algumas das suas mais peculiares características, usando os sons como quem usa cores para pintar uma paisagem. Como já havia demonstrado em Corona, dB sabe duas ou três coisas acerca da arte de colocar samples em beats e neste trabalho, mais liberto porque avança em modo solitário, essa imaginação é levada ao extremo: os beats são sujos e cinzentos, densos mas também elegantes, permitindo que a luz entre a espaços para nos dar vislumbres do filme que roda na sua cabeça. Passa-se no Macdrive, usam-se field recordings e sacam-se sons das notícias (bendita CMTV) e no processo constrói-se uma sentida homenagem ao pulsar que provavelmente só dB sente daquela que é a sua cidade. Bonito.

Cassete em caixa transparente com insert com artwork de tons bastante escuros. Inclui download code para o bandcamp e a edição vem com um curioso porta-chaves.

 

 


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[THE MOTHERSHIP COLLECTIVE] Ghetto Galactic
(Bonding Tapes, 2015)

A data é de 2015, mas de 31 de Dezembro de 2015. Logo, trata-se de mais um fresquíssimo lançamento da Bonding Tapes pelo curioso Mothership Collective. Mais uma emissão de rádio dos confins do universo, depois da também por aqui celebrada All Nigga Radio. Funk intergaláctico, hip hop digno dos arquivos dos Digital Underground, uma imensa nuvem de fumo a cobrir tudo que mergulha tudo numa toada psicadélica pensada para deslocar a noção d etempo. E o que acontece é que os 75 minutos que dura esta viagem aos confins do universo parecem esfumar-se (lá está…) em menos do que nada. Muito humor, muito asneiredo, muitos samples carregados de pó (não desse…) e esta é mais uma edição do Mothership Collective que resulta perfeito para qualquer walkman digno de três pilhas alcalinas. E há raps a apontarem para o futuro, com produções inventivas carregadas de sujidade e ruído ácido subtraído ao universo mais abrasivo do dubstep. Ouçam por vocês mesmos, já aqui abaixo.

Cassete limitada a apenas 50 exemplares, com insert impresso profissionalmente (desdobrável) e cassete em concha de plástico dourado opaco. Como deve ser!

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu