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[TEXTO] Alexandre Ribeiro

 

Anuncia-se mais um álbum de J Dilla e todos ficam atentos para a chegada de mais um pacote de instrumentais cheios de curvas e contra-curvas prontos a atrapalhar qualquer MC menos atento. Neste caso, o álbum tem mais a voz de Dilla do que instrumentais. The Diary é o último álbum deixado estruturado por James Dewitt Yancey e acaba por demonstrar que existia mesmo um MC acima da média por trás da capa do produtor.

A história não pode começar sem a introdução e “The Introduction” é uma entrada de alienígena a impor-se no planeta terra. O beat produzido por House Shoes é ambiente sci-fi a criar espaço para um inabalável Jay Dee atirar rimas inflamáveis em catadupa: “I got the MJ disease, emcees wanna be me/ If I spit anything it’s gonna be heat / Cause Dilla dawg a one of a kind, nigga”.



Não o ouvíamos a rimar desde Champion Sound – o álbum feito a meias com Madlib – e este registo fazia falta para consagrá-lo nas rimas, deixando assim cair a ideia de que J Dilla era apenas uma figura mitológica na produção. O processo para trazer este material cá para fora não foi nada fácil e Egon – numa entrevista fantástica com o Ricardo Miguel Vieira – contava que houve retrocessos no processo de juntar as peças deixadas por Jay Dee, lutas judiciais e quezílias com a mãe do filho pródigo de Detroit.

Felizmente para nós, a obra prevaleceu. Olhamos para o desfile de estrelas ao longo das faixas e vemos um Snoop Dogg a atirar smoothness como só ele sabe em “Gangsta Boogie”, Nas em “The Sickness” a mostrar o porquê de ser um dos melhores de sempre numa batida de Madlib, e Bilal em “The Ex” a desfilar classe por um instrumental boom bap com flavour clássico de Pete Rock. Uma autêntica constelação de estrelas a não deixar que The Diary seja mais um álbum póstumo. O quadro foi pintado da melhor forma possível e é certo que Dilla só sai valorizado depois de se ouvir este registo, deixando a ideia que o seu legado ainda é maior do que o que imaginámos.



Numa altura que os N.W.A são honrados no Rock and Roll Hall of Fame e o seu filme Straight Outta Compton deixou vir, novamente, ao de cima a sua música, é interessante ver a clássica “Fuck the Police” de Dilla e perceber que a herança dos homens de Compton foi realmente avassaladora, proporcionando o surgimento desta enorme e intemporal faixa – o problema do racismo policial nos Estados Unidos da América parece longe de estar resolvido.

Altura de agradecer a Egon – o cérebro por trás disto tudo – por nos dar a oportunidade de ouvir um álbum coeso e que eleva ainda mais o respeito por um dos super-heróis do universo hip hop. Olhemos agora para o futuro – um festival em honra do malogrado produtor de Detroit aproxima-se – e continuemos a dizer sem medos: “J Dilla changed my life”.


 

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