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‘Egon’ Alapatt: “Dilla sabia que era capaz de esgrimir a sua própria música de forma diferente”

[ENTREVISTA] Ricardo Miguel Vieira, em Londres [FOTO] Dust & Grooves

 

Em 2001, J Dilla sentou-se numa cabine de gravações do Studio A em Detroit com um objectivo em mente: deixar a sua marca na indústria musical. Depois de rubricar um contrato de edição de dois álbuns na gigante MCA Records, a estreia de J Dilla no mercado comercial ambicionava tirar partido de um certo momentum.

A época era de transição na carreira do produtor que primeiro se destacou como membro do trio Slum Village na década de 1990. Em breve tornar-se-ia numa das mais cintilantes estrelas do beatmaking, inspirando artistas como Erykah Badu, A Tribe Called Quest e The Roots.

Porém, as coisas começaram a correr mal quando o único contacto da confiança de Dilla na MCA – Wendy Goldstein, A&R da editora – se transferiu para a Capitol Records, precipitando o arquivamento do álbum.

Com os planos forçosamente alterados, Dilla mudou-se para Los Angeles e integrou o selo independente Stones Throw, casa onde concretizou umas das mais reverenciadas colaborações da sua carreira junto do beatmaster Madlib. Todavia, não demorou muito para que James Yancey, nome próprio, se encontrasse numa nova frente de batalha, desta feita contra uma doença sanguínea incurável. Acabou por falecer em 2006. Tinha 32 anos.

Desde então, o estatuto do produtor de Detroit não pára de crescer, mas a manutenção desse legado tem sido uma fonte de inesgotáveis batalhas nos corredores da justiça. The Diary, o disco que a MCA encaixotou e que inicialmente recebeu o título de Pay Jay, foi um dos motivos desses extenuantes contenciosos.

Agora, 15 anos depois da sua concepção, o desaparecido trabalho que regista Dilla no controlo das líricas foi reavivado por Eothen ‘Egon’ Alapatt – o homem a quem Yancey entregou o projecto antes de morrer.

‘Egon, Director Criativo da fundação de J Dilla e fundador do selo Now Again, falou com o Rimas e Batidas num restaurante em Londres sobre os anos de trabalho para ressuscitar o disco de um dos grandes pioneiros do hip hop.

 


Uma passagem particularmente interessante na história da produção de The Diary é quando chega a altura de recolher uma opinião definitiva sobre o resultado do disco e ninguém, entre os colaboradores do projecto, quer ser parte dessa decisão. Aquilo que o disco viria a ser ficou nas mãos do ‘Egon’. Como é que foi decidir a arquitectura do projecto?

Quando nos confrontamos com um projecto deste género, em que há numerosas camadas diferentes que têm de ser cerzidas numa única peça e em que há numerosas pessoas que sabem como é que essas camadas devem ser arranjadas, tem de existir um diálogo. Então perguntei tudo quanto era possível a toda a gente e depois passei imenso tempo a escutar as faixas, a remexer nos ficheiros, a rever as datas em que estes foram criados, a pensar sobre o assunto e sobre o que o Dilla faria nesta situação. Houseshoes, J Rocc e todos os colaboradores que fizeram parte deste trabalho tiveram de ser consultados e as opiniões de cada um foram tomadas em consideração, porque este é um projecto importante cujo criador não nos deixou quaisquer direcções, exceptuando os ficheiros que tinha organizado e as demos que enviou para a MCA e que leakaram em 2007. Por causa do trabalho de arquivo que executo na Now Again, percebi que se passasse muito tempo a discutir o resultado final do disco com o comité, nunca conseguiria agradar a ninguém e The Diary acabaria por se tornar num disco confuso e demasiado grande, com versões alternativas e faixas bónus e discos extra. Pensei para mim mesmo que não era isso o que Dilla quereria.

A criatividade de Dilla não dá lugar a interpretações irrefutáveis, todos temos uma ideia muito pessoal do que nos transmitia, até porque se tornou numa espécie de figura mitológica…

Sem dúvida. Isso deve-se em grande medida à obra-de-arte impressionista Donuts que nos deixou antes de partir. Como não havia rappers no disco, mas ainda assim atravessam o som samples de vozes a falar entre uma multidão, foi-nos possível olhar para aquele disco e compreender exactamente o que Dilla estava a dizer. E eu falo com imensa gente que sempre esteve perto dele e que também lê inúmeras mensagens em Donuts. Então, quando pegamos num disco como The Diary, temos de respeitar a visão única de Dilla. Mesmo que o invoquemos de forma muito pessoal e apreciemos o que ele criou, há um momento em que temos de respeitar o facto de que ele tinha uma ideia muito clara para este projecto. Era isso que eu pretendia capturar para este trabalho.

No final das contas, o ‘Egon’ seguiu o instinto, que também reflectia a relação que manteve com Dilla ao longo dos anos.

Ele era uma daquelas pessoas que, ao trabalhares com elas, acabas por perceber que são realmente importantes e especiais e que a vossa relação é frágil, porque vêm de universos diferentes. Ele foi tocado por um poder maior, acredito mesmo nisso. Essas pessoas podem ser realmente impetuosas, com ele tinhas de estar sempre no teu melhor. Às vezes podia ser estranho estares com ele, podias dizer alguma coisa errada e criar ali uma situação muito tensa. Mas, ao mesmo tempo, ele também era generoso e leal. Ele inspirava confiança e, no limite, inspirou todos à sua volta. Foi isso que acabou por fazer comigo: inspirar-me a ter confiança suficiente para trabalhar neste projecto após a sua morte. Ele era uma força singular e acreditava na execução de uma visão única e este álbum tinha de ter essa visão. Espero ter-lhe feito justiça porque, assim que terminei este projecto, pensei que a única pessoa que eu não queria irritar era o Dilla – e isso nunca saberemos se aconteceu. Depois dele, não me queria irritar a mim próprio após tanto tempo [investido neste trabalho]. Não quis ceder e editar um disco sem nexo, queria que os fãs pudessem pegar em The Diary e perceber que isto era o que Dilla tinha em mente. Pode não ser 100% o desejo dele, mas acredito que ficou muito perto.

Quando é que concordaram que The Diary seria para lançamento e qual foi o maior desafio que encontrou ao longo desse processo?

Eu e o Dilla tivemos uma conversa um dia sobre The Diary, Ruff Draft e um par de outros projectos nos quais ele trabalhou quando deixou Detroit e se mudou para Los Angeles. A mãe dele estava lá connosco, isto aconteceu no hospital. Então decidimos que, no momento apropriado, iríamos aceder às cassetes, escutá-las e perceber como as compilar – especialmente The Diary e Ruff Draft. Mais tarde, quando Dilla faleceu e a mãe dele se sentiu pronta [a partilhar as cassetes], entrámos em contacto com o Studio A a fim de obter os registos – foi lá que Dilla os armazenou porque ele pagou pelas sessões de gravação e pelas cassetes. Então eu e o Dave Cooley, o engenheiro das masterizações que trabalhou com Dilla nos dois últimos anos da sua vida, descomprimiu todos os ficheiros e demos início à construção do puzzle. J Rocc foi uma grande ajuda nos primeiros meses do processo; Houseshoes igualmente, embora mais tarde; Karriem tinha a faixa da guitarra eléctrica que não conseguíamos encontrar nas multi-tracks. O processo foi um pesadelo! Depois foi fazer as perguntas necessárias e descobrir o que fazia sentido. No final, o maior desafio foi criar uma estrutura através da qual poderíamos lançar o disco. Eu não tinha a mais pequena ideia como o deveríamos desenhar. Na altura, a única coisa que fazia sentido era que eu trabalhava na Stones Throw e que o disco devia ser lançado através da editora. Nunca, num milhão de anos, em 2006, imaginei que ia reiniciar trabalhos na Pay Jay e editar The Diary através deste selo. Mas esse acabou por ser o resultado final, com todos os seus altos e baixos ao longo do percurso.


“Dilla sabia que era capaz de esgrimir a sua própria música de forma diferente. E, honestamente, a única pessoa que ele encontrou que era capaz de fazer o mesmo foi o Madlib.”


Este projecto teve imensas etapas: gravar as faixas; a MCA a arquivar o projecto; a morte de Dilla; o leak; e anos de batalhas judiciais. Como é que sentiu assim que percebeu que o projecto estava finalmente pronto a ser fisicamente editado?

A primeira coisa que senti foi um grande alívio. Quando dás o último passo rumo ao precipício e lanças o disco, sabes que não há mais nada que possas fazer a não ser esperar. Pode levar um par de semanas ou meses até que as pessoas o adquiram, escutem, experimentem e dêem a sua opinião. Pode até nem ser bem recebido, e isso é algo que assimilas quando trabalhas na indústria da música e quando editas algo em que realmente acreditas, independentemente do que passaste, do tempo e dinheiro que despendeste no projecto. O disco é lançado, as pessoas pegam nele e julgam-no com base no legado deste homem e pelo facto de que este era um trabalho que ele queria ver editado. Mas senti alívio, lancei-me da falésia com uma série de pessoas e pronto, está tudo bem. Estava destinado acontecer. Agora chega o momento em que as pessoas vão falar do legado de Dilla.

Está então contribuir para que se reacenda o debate e reflexão em torno do legado de Dilla, mas agora com The Diary na mesa.

Isso é algo sobre o qual também reflecti: senti que tinha de ser capaz de falar disto com as pessoas. Normalmente não dou entrevistas, talvez só uma ou outra vez quando é feita por um amigo, mas não sou de falar destas coisas. Sempre senti que o meu papel é melhor desempenhado nos bastidores. No entanto, neste caso, pensei sobre o assunto e há coisas que quero dizer porque estive muito tempo a trabalhar neste projecto e a decidir cara-ou-coroa sobre ele e sobre o legado do Dilla. Só quero é que as pessoas saibam uma coisa: The Diary é algo que ele queria cá fora.

Houve momentos em que sentiu que o projecto não ia acontecer?

Dois meses antes do disco estar pronto para produção final, pensei em saltar fora e descartar o projecto. Tive uma conversa realmente tensa com a mãe do Dilla por causa do beefing que ela tinha com Houseshoes [n.r.: o produtor acusou, através das redes sociais, ‘Ma Dukes’ de lucrar com o legado do filho desaparecido]. Acho que ela ainda tem [um beef com Houseshoes]. Foi uma conversa muito, muito má. E quis mesmo saltar fora. Mas depois percebi que não o podia fazer; isto era algo a que me tinha comprometido e independentemente do que pudesse advir, eu ia honrar esse compromisso. Fi-lo pelo Dilla e o que acontecer a partida de agora, aconteceu.

‘Ma Dukes’ está feliz com The Diary?

Honestamente, creio que não. Ela disse-me para arquivar o disco antes de o enviar para a produção final por causa da polémica com Houseshoes. Desde então não voltámos a falar, ainda que eu tenha tentado. Tenho um grande respeito por ela e por ter sido bem acolhido no seio da família e foi durante os momentos que partilhámos naquele espaço vulnerável do hospital que ela assentiu [que trabalhasse nas cassetes]. Quando aceitei o cargo de Director Criativo [de The Estate of James Yancey], garanti que faria sempre o que ela me dissesse. Mas quando me pediu para arquivar o disco, eu disse que não o faria. O que aconteceu entre ‘Ma Dukes’ e Houseshoes pertence ao passado, porque [a colaboração] foi uma decisão que Houseshoes e Dilla tomaram em conjunto em 2001 e é esse o Dilla que estou a tentar retratar. Isto foi muito difícil, foi de partir o coração. Ela sofreu tanto com tudo isto que eu só desejava fazê-la feliz, mas eu não sei se ela vai gostar disto. Espero que venha a gostar, porque acredito que The Diary está muito próximo da visão que o filho dela tinha para este disco e porque empenhei muito esforço para o conseguir lançar. Também sinto semelhante obrigação para com os outros três herdeiros de Dilla, além de um sentido de missão para criar e fortalecer a Pay Jay. Quero que todas as pessoas que produziram The Diary assinem contratos com o Estate para que quando todo este processo legal estiver fechado tudo isto possa seguir em frente. Eu próprio vou supervisionar que tudo corre pelos conformes que, no fim, todo este projecto e esforço se transforma num bem que pague não só aos herdeiros directos como também aos seus filhos.


“Nunca, num milhão de anos, em 2006, imaginei que ia reiniciar trabalhos na Pay Jay e editar The Diary através deste selo.”


De que modo é que The Diary reescreve o que sabemos sobre Dilla?

É uma espécie de triunfo o facto de Dilla ter tido a capacidade de exprimir o que pretendia para o projecto através da faixa “The Introduction” e realmente cumprir com o dito. Quantas pessoas são capazes de fazer isso? Repara, o pessoal gaba-se e vangloria-se quando rappa, mas Dilla fê-lo e cumpriu exactamente o que disse, sem que alguma vez o tenha dito a alguém. The Diary era uma missão mental para ele e isso é fantástico. Agora consegues observar e escutar quem era o Dilla naquela altura e qual o plano que tinha para este disco. Talvez não o tenha executado plenamente de acordo com a sua visão, mas não deixou de o fazer. Este disco encaixa na perfeição entre os projectos Slum Village, Ruff Draft e Jaylib e aquele que os seguiu: Donuts. The Diary ajuda a dar mais sentido a estes trabalhos. Quando escutas o modo como ele estava a produzir as suas versões de “Trucks”, “The Anthem”, “Introduction”, “Give Them What They Want”, percebes que estas faixas são as raízes do estilo de beatmaking que escutámos pela primeira vez nas beat tapes utilizadas no projecto Jaylib. Alterar o estilo de produção representou uma grande mudança para o Dilla. Há três beats* que ele criou já nos últimos dias de vida – e que ‘Ma Dukes’ nos deixou escutar e que creio que Madlib ainda tem arquivados – que apresentam um estilo lento e muito psicadélico de produção, mas cujo som se aproxima daquilo que ele andava a fazer em finais dos anos 1990. Eram beats inacreditáveis.

Acredita que este álbum tinha a capacidade de redireccionar a carreira de Dilla se tivesse sido editado em 2002?

Acredito que sim, mas tens de recordar que o J Dilla era uma pessoa muito bem sucedida: publicou um catálogo fantástico e foi capaz de extrair imenso dinheiro a partir do seu espólio criativo. Ao mesmo tempo, penso que este disco teria a capacidade de mostrar ao público um pouco mais sobre o próprio artista que ele era. Tornar-se-ia mais numa pessoa que estava a atravessar um fantástico momento [criativo] do que numa figura de culto celebrada pela Stones Throw e pela audiência da editora. Quem sabe onde é que ele poderia ter chegado? É que, para mim, Ruff Draft é uma verdadeira obra-prima e esse disco é a reacção ao que escutamos em The Diary.

Há muita rima e flow de Dilla neste trabalho. É possível traçar uma distinção entre Dilla, o rapper e Dilla, o produtor? Como é que estes dois universos se misturam quando falamos da visão singular de Dilla?

Dilla sabia de que linhagem provinha: de Pete Rock, Large Professor, The Beatnuts e Diamond D. Ele via como exemplos pessoas como o Pete Rock, que está no The Diary, pelo que esta teoria provavelmente tem alguma credibilidade. Mas Dilla sabia que era capaz de esgrimir a sua própria música de forma diferente. E, honestamente, a única pessoa que ele encontrou que era capaz de fazer o mesmo foi o Madlib. O que é intrigante, porque quando escuto este trabalho percebo a razão pela qual Dilla seguiu esta direcção. Beats como o de “Give Them What They Want” são bastante cinzentos e muitos dos sons que ele capturou de Madlib estão entre os mais densos que encontramos em Jaylib. Porém, The Diary representa a primeira vez em que ele teve uma oportunidade para realmente se expandir, o que acaba por nos revelar diferentes facetas da sua personalidade. Por exemplo, “The Shining Pt 1” e “Pt 2” são dois lados da mesma personagem: por um lado, há um certo brilhantismo e glamour e, por outro, a agressividade e arrogância que provém de Madlib. É incrível.

Após The Diary ter sido descartado por uma editora de maior dimensão, deu-se a mudança para Los Angeles e para a Stones Throw. Este evento redefiniu as motivações a até abordagens de Dilla às produções?

Claro que sim. É difícil aceitares elogios quando não és uma pessoa que aprecia esses gestos, mas ouvir um do Dilla era uma missão quase impossível. E, de formas muito subtis, ele dizia coisas muito boas sobre o ambiente na Stones Throw, sobre o modo como esta trabalhava e como alguns de nós éramos dedicados. Talvez isso se deva à forma como foi tratado quando trabalhava em grandes editoras, sendo que o viam como carne para canhão. Na Stones Throw era visto como “o tal”. Ele e Madlib eram colectivamente “o tal”. Nós não nos sentávamos ali curvando-nos e elogiando-o; trabalhávamos, sim, com um forte sentido de respeito e lealdade e sentíamo-nos abençoados por ter Dilla entre nós. Acredito que esse estado emotivo e pessoal ressoa de imensas maneiras no exterior.


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“Só espero que quem venha a editar a versão original de Donuts o faça com o maior dos respeitos pelo Dilla porque é um disco extremamente importante para muita gente.”


E The Diary encaixa no actual status quo do hip hop ou é apenas um exercício de invocação do passado?

Certas partes do disco soam muito modernas. A “Give Them What They Want” soa a algo que poderíamos escutar hoje num club. “Fuck The Police” também envelheceu bem. Outros estilos de produção no disco revelam-se mais de outra era, mas é sempre bom existir uma lembrança dos planos de um grande artista porque o hip hop vive de ciclos. A dado momento, um certo estilo de produção que estava a acontecer em 2001/2002 vai voltar a estar em voga, mesmo que ligeiramente transformado. Este disco será então um bom poster dessa era, por isso é um bom motivo para se celebrar a visão singular de Dilla. Agora podemos acrescentar isto ao puzzle por uma última vez e tudo o que vier a seguir será revisionismo.

Muitos dos últimos projectos de Dilla foram lançados a título póstumo, pelo que sofreram as suas próprias edições sem que ele estivesse presente. É o caso de Donuts, cuja versão original o ‘Egon’ detém em CD. Por onde tem andado este disco e como é foi parar às mãos do ‘Egon’?

Um dia, no hospital, Dilla deu-me dois CDs com a inscrição Dilla Donuts na capa. Normalmente desfaço-me de CDs, mas neste caso optei por guardar um dos discos, atirando-o para um armário. Já eu tinha esquecido disto há imenso tempo quando, certo dia, enquanto limpava o armário, encontrei novamente o disco. Pus a tocar e disse, ‘uau, isto está totalmente diferente’. Aí recordei-me que o Jeff [Jank, director artístico da Stones Throw] tinha feito uma longa edição do disco porque ele era a única pessoa com quem Dilla nunca tinha berrado no seio da Stones Throw. O Dilla berrou-me várias vezes, então eu nunca lhe iria ligar [a dizer que o Donuts ia ser editado]; [Peanut Butter] Wolf foi o que mais o ouviu gritar entre todos nós, portanto também não lhe ia ligar. Mas o Jeff lá decidiu pegar no telefone e dizer ao Dilla que ia editar o disco. Ele aprovou e, portanto, temos uma versão de Donuts que todos ouvimos, mas que não deixa de ser editada, apesar de ainda termos a visão original. De vez em quando ainda pego no CD e ponho a tocar.

E algum dia poderemos escutar esse trabalho?

Talvez. Tal como eu disse, tudo o que agora aparecer é revisionismo. A nuance do meu trabalho como Director Criativo é que amanhã posso ser despedido. É uma posição sempre ténue, tive de litigar com o primeiro patrão [de The Estate of James Yancey] para manter o meu lugar e ainda trabalhar para editar The Diary, por isso não assumo nada como garantido. Se esta música vier a sair cá para fora, só desejo que o seja com o maior dos respeitos. Uma das coisas que procurei fazer com este trabalho – tal como com a minha editora Now Again e com o próprio Madlib – é mostrar às pessoas através de exemplos: isto é como as coisas deve ser feitas e este é o nível de qualidade que podemos dar a The Diary. E mesmo que isto pareça um pacote simples com algumas linhas de texto no [livrete] interior, isto está afinado até à sua essência e é assim que toda a música de Dilla deve ser apresentada: pura essência, nada supérfluo, porque o Dilla não era esse tipo de pessoa. Só espero que quem venha a editar a versão original de Donuts – porque isso há-de acontecer – o faça com o maior dos respeitos pelo Dilla porque é um disco extremamente importante para muita gente.

Dilla changed my life tornou-se num daqueles provérbios para a eternidade no universo musical. Certamente que é um dito que também se aplica a ‘Egon’ quando recorda o trabalho que efectuou com Dilla. Qual foi o maior ensinamento que retirou de todo este processo e da convivência com J Dilla?

Acima de tudo, que temos de continuar a puxar por nós com humildade e como se fôssemos verdadeiros afortunados mesmo quando nos encontramos no momento mais difícil da nossa vida. E se formos pessoas criativas, então temos de criar. Já estive em redor de muita gente criativa e de muitos músicos à beira da morte. Ainda assim, lembro-me sempre do Dilla nessas situações porque temos sempre que puxar por nós. E se algum dia me encontrar na posição em que ele esteve, espero olhar para trás e sentir-me inspirado por ele.

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