DJ SHADOW // The Mountain Will Fall

shadow review

 

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Uma ou duas considerações sobre a actividade do pensamento crítico que podem ser relevantes para o caso específico da abordagem à mais recente entrada no já vasto catálogo de DJ Shadow: é óbvio – embora por vezes o óbvio seja o mais difícil de detectar – que quando se acompanha de forma crítica a obra de um artista há tanto tempo quanto eu acompanho a obra do homem de Endtroducing e se aborda um novo lançamento está-se, na verdade, a abordar a nossa própria perspectiva da sua evolução artística com toda a distorção que alguma proximidade emocional possa implicar; parece-me igualmente claro que muitas vezes as inflexões de direcção estética são penalizadas por quem assume a missão de as analisar criticamente como traição às suas próprias expectativas e não necessariamente como algum tipo de falhanço artístico. Optar por tomar riscos, por explorar novos métodos, ferramentas e linguagens nunca se pode traduzir numa “falha” e o crítico deve saber reconhecer a diferença entre acto inconsequente e nobre mergulho no desconhecido.

Vem tudo isto a propósito então de DJ Shadow, claro, de The Mountain Will Fall, também, mas igualmente da mais vasta obra do artista californiano lançada após The Outsider, que já data de 2006. Na verdade, há pelo menos um aspecto em que é possível comparar esta última década de DJ Shadow às duas últimas décadas de produção de David Bowie: ambos foram de certo modo “descartados” por terem explorado direcções diferentes daquelas com que inicialmente construíram a sua mais sólida reputação. Pode até argumentar-se que ambos, apesar dos respectivos estatutos de veteranos nas suas áreas, foram de alguma forma incompreendidos por terem ousado trocar a segurança da experiência acumulada pelo risco da experimentação com novas linguagens estabelecidas após os seus mais férteis períodos criativos: David Bowie a molhar o pé na piscina drum n’ bass ou Shadow a testar a elasticidade da plasticina bass.

 



Desde que assinava como DJ Shadow And The Groove Robbers, designação que prestava homenagem ao par de gira-discos que usava como principal ferramenta de expressão e com que se estreou no catálogo da fulcral Mo Wax em 1993, que Josh Davis entendia o hip hop não apenas como um conjunto de códigos estéticos, mas também como uma moldura conceptual para a sua própria generosa abordagem à história da música gravada. Endtroducing, lançado em 1996, e Psyence Fiction, primeiro álbum do projecto Unkle de James Lavelle lançado em 1998, são dois expoentes da linguagem erguida através do sampling que DJ Shadow inscreveu no mais elevado panteão musical dos anos 90. Uma disciplinada ética de sampling apoiada numa séria ideia de “diggin‘” (apenas originais, escavados em ambiciosas expedições de procura de vinil nas mais obscuras fontes) permitiu a Shadow abordar jazz e hard rock, country e rock psicadélico, música electrónica pioneira, funk e soul dos mais profundos canyons da história, raros discos publicitários, música para crianças, library, bandas sonoras e tanto mais conseguindo, no processo, reerguer algumas carreiras como a de David Axelrod, por exemplo.

O que Josh Davis não temeu fazer na última década foi testar a profundidade de outras águas, experimentar as possibilidades oferecidas por outras ferramentas. Afastou-se do sampling, investiu no estudo do Pro Tools e mais recentemente do Adobe Live, procurou entender o melhor possível as dinâmicas do próprio som. Alguns dos discos que lançou, primeiro inspirado pela escola hyphy da costa Oeste e depois aproximando-se de linguagens como o dubstep, EDM ou trap podem ter sido erroneamente (mea culpa, também) interpretados como desesperadas tentativas de se manter relevante no presente ao invés de mais ou menos conseguidas abordagens a novas possibilidades discursivas. Se em tempos Shadow há-de ter achado a perspectiva de encaixar uma bateria de um álbum de hard rock americano num loop de jazz modal europeu estimulante de um ponto de vista criativo – como um matemático poderá sentir o mesmo perante uma equação de elevado grau de dificuldade – é perfeitamente plausível pensar que igualmente estimulante poderá ser a construção de matéria para pista de dança a partir de frequências cozinhadas exclusivamente dentro de um laptop artilhado com soft synths de última geração e complexos processadores de sinal.

 



Este é um ano importante para Shadow: cumprem-se duas décadas sobre a edição do seminal Endtroducing, álbum que pode ser encarado como uma espécie de big bang para um universo tão vasto que pode compreender corpos celestes como Diplo ou RJD2, Flying Lotus ou Gaslamp Killer, Hudson Mohawke ou Prefuse 73. DJ Shadow poderia perfeitamente ter-se limitado a viver de uma reedição desse seu primeiro álbum e ninguém lhe levaria a mal, mas ainda assim decidiu voltar ao circuito independente e apresentar, na Mass Appeal de Nas, um álbum que inclui colaborações com gente tão diversa quanto Nils Frahm ou Run The Jewels, para citar apenas dois exemplos. Shadow, embora dificilmente venha a descartar o redondo aniversário de Endtroducing (e até já há sinais de que algo poderá estar a caminho, como a recente estreia numa apresentação em Londres de uma inédita remix de HudMo para “Midnight in a Perfect World” poderá indiciar), não quis deixar de garantir que continua de pés firmemente plantados no presente e de olhos fixados no futuro.

Sob esse aspecto, The Mountain Will Fall não é um gesto brilhante. Shadow está ainda a tentar perceber como pode integrar a sua própria história nas novas possibilidades discursivas e da experimentação nem sempre surge estimulante ruptura ou espantosa invenção de algo novo. A primeira metade do álbum é aliás clara nesse sentido: no tema título que serve de abertura ao álbum, Shadow experimenta com sintetizadores virtuais e com as possibilidades de edição oferecidas pelo mais moderno software; depois, com “Nobody Speak”, a colaboração com os Run The Jewels de El P e Killer Mike, volta aos seus adorados samples de guitarra e às baterias de peso mastodôntico num tema que é puro mel para auscultadores; “Three Ralphs” é uma lição de programação rítmica no laptop, com Shadow a levar a sua obsessão pelos padrões rítmicos muito mais longe do que seria possível com execução directa na MPC; depois vem “Bergschrund”, a inesperada colaboração com Nils Frahm que soa, precisamente, ao resultado do mesmo impulso de combinar as tais baterias hard rock com jazz modal – um exercício de compatibilização de linguagens distintas, que resulta aliás num dos melhores momentos do álbum, derrapagem de texturas digitais sobre baterias apontadas ao futuro; e depois um showcase de scratch, o momento mais throwback do álbum, com o sample a declarar ironicamente “the sound you are hearing is a relatively new one” antes do rapper contemporâneo e obscuro Ernie Fresh fazer a melhor imitação possível de um clássico random rap que poderia estar agora a emergir de uma obscura cassete do arranque dos anos 90 numa reedição da Chopped Herring, por exemplo. Passado, presente e futuro, ritmo, densidade textural, sampling e vozes, sintetizadores e cortes digitais. A quantidade de possibilidades que Shadow injecta na primeira metade do seu álbum poderia sustentar discografias inteiras de outros produtores, mas, lá está, este é um homem que quer correr riscos e o mais importante de todos é o da reinvenção.

 



A segunda metade do álbum também apresenta argumentos válidos (sobretudo em “Depth Charge” e “Mambo”), mas também se percebe que DJ Shadow relegou para aí os seus momentos mais experimentais, ou seja aqueles em que a definição de um rumo claro é menos nítida, ou as suas concessões a uma necessidade de andar na estrada para ganhar a vida como se pode entender de temas como “Suicide Pact” ou sobretudo “Pitter Patter” (colaboração de Bleep Bloop que soa a aproximação ao campo de Lana Del Rey) que parecem carregados daquele drama digital que deve resultar bem perante as multidões de Coachella ou do Governor’s Ball. Já “Ashes To Oceans”, colaboração com um ensemble dirigido pelo trompetista Matthew Halsall, revela ambição, mas há algo que se perde ali pelo meio, talvez resultado de uma escorregadela por terrenos menos interessantes das linguagens de fusão jazz, com Shadow a não ter à mão matéria prima da mesma qualidade que Teo Macero, outro produtor que gostava de cortar e colar, teve para fazer objectos como Bitches Brew.

Feitas as contas, há muito mais que se ganha do que se perde no mergulho neste The Mountain Will Fall: Shadow recusa terminantemente deixar-se aprisionar pelo seu próprio passado e essa é uma das principais virtudes deste álbum, mas também o seu refinado e inteligente sentido rítmico que se traduz nalgumas das mais complexas programações que o presente electrónico nos proporciona.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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