VA // Universal Quantifier

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É sabido que Los Angeles representa, desde há muitos anos, um destino de eleição para alguém que pretende reinventar-se ou começar a dar nas vistas. Partindo do princípio que as oportunidades não chegam para todos, a cidade é também o lugar onde tantos acabaram sem as melhores notícias para contar à família. Quer nos filmes noir dos anos 1940 e 50, assim como na pouco esperançosa era Ronald Reagan, Los Angeles jamais deixou de ser um dos mais impiedosos pedaços do mundo-cão, em que quase tudo vale (incluindo atropelamentos e favores sexuais) para alcançar objectivos.

O cenário parece contudo mais espairecido e amigável no que diz respeito ao quadrante musical da cidade. Basta, por exemplo, olharmos para os catálogos de algumas das mais agitadas editoras de LA (casos da Brainfeeder, Hit + Run e Friends of Friends) de modo a verificar que alguns dos seus principais talentos transitam entre casas, como quem percorre um tabuleiro de Trivial Pursuit. Essa exacta noção de liberdade pode, de outra maneira, ser explicada pelo facto de produtores como Ras G, The Gaslamp Killer ou Daedelus serem demasiado complexos e transbordantes para caberem numa caixa só.

A uma distância considerável do hip hop, mas inserida no mesmo espectro de bass music de Los Angeles, a Halocyan Records assume, desde 2000, a missão de lançar música electrónica não só capaz de antecipar o futuro, como também de colocar em prática os ensinamentos históricos deixados por Kraftwerk, Ron Hardy, DJ Pierre ou Frankie Knuckles (todos esses referidos no manifesto da editora orientada por Dimitri Fergadis). Uma parte significante dessa missão surgiu recentemente representada na compilação Universal Qualifier, que, fiel ao formato dos doze polegadas azuis da label, apresenta uma metade composta por originais e outra por remisturas. São portanto dois discos cheios de uma Los Angeles claramente multicultural e atrevida ao ponto de querer competir com a música de dança de qualquer outra metrópole do mundo.

Universal Qualifier é, apesar de alguns altos e baixos, um objecto totalmente capaz de sublinhar a capacidade transformativa de algumas remisturas. Reparemos, por exemplo, em como o druida Legowelt dá uma nova vida baleárica a uma “Friendship”, que, até aí e nas mãos de Chrissy Murderbot, não era muito mais do que um exercício algo tontinho de dubstep programada em 8-bits. Ou então demos ouvidos à forma espectacular como os suecos Minilogue seguem o caminho inverso e pegam na baleárica fresquinha de “New Piano”, um original de Sumsun, para daí extraírem uma colossal viagem techno de 17 minutos, que a certo momento até invoca uns cantos gregorianos mesmo à Enigma. Lido nestas palavras parece a receita para um desastre, mas “New Piano (Minilogue’s Ocean Love)” é tudo menos isso. Não há também como evitar o destaque de Raudive, que precisa só mesmo de alguns minutos – de “Last” – para nos ter nas mãos com o mesmo apelo sinistro de um Silent Servant.

Fazendo as contas, Universal Qualifier não é decerto o compêndio mais equilibrado, mas deixa-nos com tantas boas pistas como um crime espalhafatoso em Los Angeles.

Miguel Arsénio

Miguel Arsénio

Escreve, desde 2004, sobre música, filmes, actualidade no mundo e na sua querida Ericeira. Ocasionalmente também faz imitações de vozes célebres.
Miguel Arsénio