The Weeknd // Starboy

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[TEXTO] Amorim Abiassi Ferreira

No início do vídeo lançado para o single “Starboy”, assistimos a The Weeknd a terminar de vez com a sua antiga persona. Não que fosse uma surpresa para quem estivesse minimamente atento ao percurso do cantor. O disco anterior, Beauty Behind the Madness, já se esforçava activamente para alcançar espaço na rádio, o que conseguiu com o sucesso comprovado de “The Hills”, “Earned It” e, claro, “Can’t Feel My Face”. O que surpreendeu foi a velocidade com que Abel Tesfaye voltou a lançar-se ao estúdio, influenciado pela perda de Prince e de David Bowie — a quem prestou tributo inspirando o título do disco no hino “Starman”. Abel, agora sem rastas, parece de facto mais menino do que em toda a sua carreira e aproveita a deixa para se aventurar mais na conquista do mundo pop.

 



Em Starboy, foge-se aos instrumentais de orquestra e o som, em traços gerais, ganha um tom mais espacial e por vezes impessoal demais. O disco tem experiências corajosas, como por exemplo “False Alarm”, com os vocais e estilo mais arrojados até à data, ou “Stargirl Interlude”, o etéreo dueto com Lana Del Rey. O corpo do álbum dá-se à pop com uma enorme flutuação de sucesso. Músicas como “Rockin’”, “Love to Lay” e “A Lonely Night” soam a produções nas quais poderíamos trocar para qualquer outro vocalista do topo de vendas e não dar pela falta da voz do cantor. Músicas como “Starboy” (produzida pelos Daft Punk), “True Colors” ou “Die For You” parecem reter mais do mistério que tornou o artista numa personagem interessante a seguir e resultam em faixas muito mais cativantes. Sendo este o auto-proclamado “Rei do Outono”, há ainda algum espaço reservado à sua sonoridade desenvolvida em Trilogy. “Reminder” entra de estouro com a sua deixa sobre selecção de “Can’t Feel My Face” para um prémio juvenil: “I just won a new award for a kids show / Talking ‘bout a face numbing off a bag of blow”; “Ordinary Life”, com as suas teclas cristalinas e samples de voz distorcidos; “Sidewalks”, que se inspira na sonoridade de “Tell Your Friends”, adiciona-lhe um auto-tune e chama Kendrick Lamar em topo de forma para a participação.

Eu pertenço àquele grupo de pessoas que sente que, a cada lançamento, The Weeknd se afasta do que o tornou interessante como artista. E de facto, ao ouvir com atenção, não achei que o elemento pop fosse o mais ofensivo deste projecto. Há uma fatia deste álbum que tem uma sonoridade trap genérica, algo que, para lá de saturado, sinceramente não tem muito a contribuir para quem quer arriscar ou ganhar mais espaço nos tops. “Six Feet Under” é o exemplo perfeito, sendo um tema que tem o flow de “Low Life”, presente no álbum EVOL de Future, que conta com a participação do cantor, e reúne o mesmo produtor, Metro Boomin’, numa música que, provavelmente, foi gravada na mesma altura. O resultado final serviria perfeitamente a um disco de Future e nunca para um de The Weeknd.

 


Amorim Abiassi Ferreira

Amorim Abiassi Ferreira

Copywriter comprometido com a descoberta e partilha de música. Gosta mais deste propósito do que de café e quem o conhece sabe que isso é uma declaração séria de amor.
Amorim Abiassi Ferreira