SP Deville // Its Deville Bitches Vol. 2

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O novo EP de SP Deville parece começar em Nova Orleães, que é para onde nos remete o loop de piano que marca o arranque de “Mambo é Bizno”, a primeira da meia dúzia de faixas de It’s Deville Bitches Vol. 2. “Os anos passam, mas nada muda”, diz-nos depois SP. As primeiras palavras que se escutam no novo trabalho ditam o tom que atravessa todo o EP: a resiliência, o compromisso inabalável, a recusa de enveredar por concessões que eventualmente possam tornar as coisas mais fáceis, o grito no quarto isolado acusticamente e que ninguém parece escutar cá fora… “Os anos passam e nada muda”. Nada, tirando a paisagem sonora que nos rodeia, a tecnologia que nos molda e a mentalidade das gentes que procuram sobreviver. O “nada” aqui é tudo. E o tudo de SP é um mundo que se quer abraçar e dominar. Na verdade, tudo muda, excepto SP.

Alienígena do espaço, SP aterrou mesmo aqui vindo de uma outra galáxia. É um artista completo, capaz de rimar de forma profundamente original, equilibrando português e inglês com um slang singular que parece ser só seu, mas que é natural tendo em conta um percurso que se estendeu de Lisboa a Londres, onde viveu muito tempo; para lá das rimas que cospe com flows elegantes e imaginativos, que obrigam os pares a terem um dedo constantemente no rewind e um bloco de notas sempre por perto, há a sua melodiosa capacidade de cantar, com uma voz de afinação requintada e timbre maduro; e em cima disto tudo, há um produtor maior, que entende o momento e que sabe misturar samples com tarolas boom bap ou farrapos de electrónica com pratos sequenciados com urgência trap. Tudo indica não haver linguagem que SP não domine com o à-vontade de quem parece ter nascido numa série de diferentes culturas ao mesmo tempo. Como se SP Deville tivesse nascido muitas vezes. No Bronx e em Atlanta, em Lisboa e em Londres, em Odivelas e em Compton. SP é de todo o lado porque não é daqui. É alienígena do espaço, como reclama em “Mambo é Bizno”.

 



Aproveitando o dramático loop de cordas deixado a correr livremente sem drums por perto no final de “Coisas da Vida”, a pungente história de Dino desenhada com palavras por Boss AC no clássico Mandachuva de 1998, SP Deville estabelece o tom para “Coisas da Rima”, o poderoso embate com Phoenix RDC que é um dos momentos mais altos deste EP: “não tenho views como o Drake”, alerta, “mas tenho uma certeza: que toda a música que eu faço um dia será major”. Já é, de facto, só que o mundo ainda não sabe… É que, como diz também, “a life tem um percurso com curvas fodidas”. Verdade. E depois, Phoenix aparece a dar “chapadas com skill”, mais um gigante numa faixa que parece o porto do Funchal em noite de fim de ano, tal o brilho do fogo de artifício que sentimos explodir em cada compasso. Tudo certo: o loop, a programação, os graves fundos, as palavras, os flows personalizados, o bravado.

Quando “Dias Escuros São Trovoadas nos Olhos Sábios” chega, já nos rendemos incondicionalmente. SP começa por cantar, e depois rima palavras duras, mas certeiras, cada uma delas uma cicatriz funda: “Só tu sabes quantas mágoas estão guardadas / nem palavras safam / caras tatuadas / com pegadas dadas pelas lágrimas…” Na entrega das rimas há urgência e uma espécie de desespero conformado que revela outra subtileza enorme no arsenal de talento de SP: ele é músico sério, poeta convicto, mas também actor nos dramas que encena com palavras em cada beat, representando os vários papéis que as suas ideias concebem com a segurança de uma lenda dos palcos ou dos ecrãs.

E o que é isto? “Muitos falam, mas não vivem, não”…  “Trap ou boom bap, mano é rap, yah”. SP diz-nos que tanto faz, ele nasceu em 82, “o ano em que o Michael Jackson fez um disco monstro”. Ele sabe, portanto, andar atrás do tempo, à frente do tempo, fora do tempo. “É Rap” e SP conhece todos os recantos da cultura, todas as dobras deste tecido com que veste a sua arte, cada ponto na sua baínha. “É Rap” e para SP não tem segredos. Este é, afinal de contas, o seu “Karma”: “muitos morrem pelos deuses / pelos teus, pelos meus e pelos nossos”, mas Deville garante que vai chegar aos céus, porque ele sabe para onde vai e como há-de lá chegar. No final do tema, SP dá depois uma curta lição de arquitectura rítmica, comandando o grave de trovão e a tarola como os deuses controlavam os elementos. Uma sinfonia de beat que desejamos que se prolongue por anos.

E assim deveria ser, porque o filme que termina este EP, “Quando o Silêncio Fala”, é daqueles que aperta o coração e nos faz a todos pequeninos, porque os dramas alheios, feitos de verdades fundas e negras, têm o condão de relativizar o que egoisticamente pensamos serem os maiores problemas do mundo. As memórias que SP desenrola aqui são de uma honestidade desarmante e tornam quase impossível conter pelo menos uma lágrima. E SP, com apurada noção de gestão dramática, encerra o último episódio desta “temporada” deixando a história suspensa até ao próximo EP…

Palpita-me que quando chegarmos a Black Gipsy tudo terá, de facto, mudado…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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