Rudi Esch // Electri_City: The Dusseldorf School of Electronic Music

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Londres, Nova Iorque, Chicago, Detroit, Liverpool, Sheffield, Manchester, Kingston, Nashville, Los Angeles, Rio de Janeiro, Nova Orleães, Lisboa, Paris, Colónia, Berlim, Buenos Ayres, Havana… São muitas as cidades que se afirmaram como berços de importantes culturas musicais, do disco sound e do hip hop ao country, bossa nova, punk, techno ou reggae. E todas, de uma forma ou de outra, foram justamente celebradas, não apenas na música, mas também em incontáveis e memoráveis páginas que ofereceram ao mundo Histórias mais ou menos consensuais, mais ou menos definitivas dessas culturas específicas. Faltava um livro que se focasse na rica e muito singular história de Düsseldorf, a cidade que serviu de berço aos Kraftwerk e aos Neu!, aos La Düsseldorf e aos DAF, aos Propaganda, Der Plan e Liaisons Dangereuses, entre outras míticas formações.

O título é mais do que justo e apropriado: Düsseldorf é de facto uma cidade eléctrica que ofereceu ao mundo uma muito particular estirpe de música electrónica. Bastaria, aliás, ser a cidade que viu nascer os Kraftwerk, mas Düsseldorf nunca sucumbiu perante o monumental peso do grupo de Wolfgang Flur, Florian Schneider, Ralf Hutter e Karl Bartos (talvez a formação mais conhecida do colectivo de Man Machine) e soube alimentar outras igualmente relevantes propostas que se impuseram à história graças à sua originalidade, casos dos Neu! de Michael Rother e Klaus Dinger, dos Cluster de Hans-Joachim Roedelius e Dieter Moebius, dos DAF de Robert Görl e Gabi Delgado ou dos Propaganda de Michael Mertens e Susanne Freytag.

O ângulo de Electri_City assenta no já testado modelo da história oral, missão levada a bom porto pelo autor Rudi Esch, baixista dos Die Krupps que desde há três décadas e meia está profundamente envolvido na complexa rede musical de Düsseldorf. Entrevistas exclusivas com dezenas de protagonistas da cena musical desta cidade – de Wolfgang Flür dos Kraftwerk a Michael Rother dos Neu! (e Krafwerk e Harmonia…) passando por Bodo Staiger dos Rheingold, Hans Lampe dos La Düsseldorf (e Neu!…), Susanne Freytag dos Propaganda, mas também, no que autor classifica como fontes de uma “visão externa”, Giorgio Moroder, Ryuichi Sakamoto, Andy McCluskey dos OMD, Martyn Ware dos Heaven 17 (e Human League…), Daniel Miller dos The Normal (e patrão da Mute…) ou Colin Newman dos Wire.

Importantes personagens da história particular de Düsseldorf já desaparecidos, como Klaus Dinger, têm igualmente a sua voz representada graças ao recurso de Esch a material de arquivo, forma crucial de completar o complexo puzzle de memórias aqui apresentado.

Todo o livro resulta de um cuidadoso e intrincado trabalho de apresentação destas memórias que são organizadas por épocas, começando na fase final dos anos 60 em que se testaram as primeiras ideias revolucionárias em históricos clubes como o Creamcheese e avançando-se depois ano a ano, a partir de 1970 até 1986. Há outros conteúdos relevantes, expostos na secção de “apêndices”: curtas, mas incisivas biografias de gente como Beate Bartel, Karl Bartos, Wolfgang Flür ou, entre outros, Robert Görl; e uma listagem de máquinas históricas, do Minimoog ao Arp Odyssey, do Korg MS-20 ao Yamaha CS-10, do Prophet 5 da Sequential Circuits ao OB-8 da Oberheim e incluindo a incontornável TR-808 da Roland (algo inexplicável a ausência das míticas máquinas da britânica EMS, como o célebre Synthi 100, já que até são mencionadas por alguns dos protagonistas).

Electri_City não é uma leitura aconselhável para quem procure uma porta de entrada no rico universo do krautrock. Há outros livros facilmente acessíveis que cumprem muito melhor a missão de apresentação dessa específica cena musical, como Future Days de David Stubbs ou Krautrock: Cosmic Rock and Its Legacy de Erik Davis e Michael Faber: trata-se de tomos com uma perspectiva mais “enciclopédica” ou “crítica” do universo desenhado pelos Krafwerk e Neu!, mas também Can ou Tangerine Dream (bandas ligadas a outras cidades) que mais directamente cumprirão a função de guia através do complexo labirinto que é esse rico legado musical.

O livro de Rudi Esch será antes uma recompensadora leitura para quem já conheça os contornos desta cultura e dispense portanto a contextualização de todas as “vozes” que aqui desenham o rigoroso retrato de uma cidade ímpar. Para essas pessoas, já familiarizadas com as principais bandas aqui apresentadas, nomeadamente os Kraftwerk e Neu!, Electri_City está repleto de preciosas informações, aqui avançadas por quem as viveu originalmente, permitindo-nos um virtual mergulho no dinâmico mapa social e cultural de uma cidade que 20 anos depois do final da segunda guerra mundial começou a desenhar uma cultura de futuro cujos efeitos nos envolvem a todos, até aos dias de hoje. Os Kraftwerk continuam no activo, Michael Rother tem mostrado em palco uma versão actualizada do legado dos seus Neu! (esteve o ano passado em Portugal para um par de datas) e são inúmeros os grupo se as correntes que tudo devem a estas pioneiras experiências ensaiadas nas salas, estúdios e garagens de Düsseldorf. E isto, claro, para não falar nas constantes reedições de todas estas obras (no último ano houve, por exemplo, relançamentos de histórico material de Harmonia ou Liaisons Dangereuses) que garantem presente a toda esta importante memória.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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