Regula // Gancho

[TEXTO] Moisés Regalado 

É difícil passar ao lado do rapper e do disco em questão, das músicas e até das dicas que o compõem. Em Gancho não há pérolas escondidas ou momentos secundários — como acontece na esmagadora maioria dos álbuns — e todos os temas se tornaram imediatamente icónicos, assumindo o estatuto de singles sem que o fossem e até de clássicos instantâneos. Estávamos em Maio de 2013, mais concretamente no dia 21, quando Regula acabou com o suspense e arrancou com as vendas da nova obra a partir da Vasco’s Barbershop, estabelecimento em que trabalhava como barbeiro (“No bules eu varro o salão e chamam-me patrão a mim?”).

Não foi acaso nem sorte. Bem, sorte pode ter havido alguma só que o tremendo sucesso (artístico e comercial, que no panorama nacional se contabiliza através de uma qualquer equação que envolve a aprovação do meio e o interesse dos outsiders) de Gancho foi sobretudo fruto de uma árvore que já crescia desde Tira Teimas, longa-duração que o confirmou como um dos melhores MCs nacionais e que se assumiu como culminar de um processo evolutivo que convenceu e surpreendeu os mais cépticos ou desatentos — “O meu primeiro álbum foi tão podre que eu fiz edição limitada”, viria a dizer o rapper em Lisa Chu.

Se Tira Teimas o catapultou para o pódio, as participações subsequentes — com Cool Hipnoise, New Max ou SP & Wilson — elevaram-no a tecnicista de excepção e destaparam definitivamente o que a espaços vinha sendo visível: quanto a métricas e flows, só Regula conseguia ombrear com Sam The Kid. Kara Davis, mixtape editada em 2007 com o apoio da Horizontal Records de Valete, vendeu mil cópias na semana de lançamento e reafirmou o que já todos sabiam, mas, a par da sua sucessora, dividiu as opiniões entre dois lados de uma barricada que parece existir até hoje.

O coro de críticos fazia-se ouvir desde a sua 1ª Jornada, disco em que o canastrão Bellini se assumiu como representante de um “drunk style” altamente contrastante com a norma consciente que então sobressaía. Tira Teimas estabeleceu-se rapidamente e escapou às avaliações mais ferozes, muito por culpa da produção fora de série e do salto qualitativo dado por Regula. As mixtapes, intencional e obviamente dedicadas ao egotrip (ainda que não só), acabaram por ser pretexto para que alguma da contestação voltasse. A que propósito?

Já não era possível gozar com o seu rap, cada vez mais afastado do que mostrava o principiante Bellini, e o riso deu lugar à indignação — porquê desperdiçar tamanho talento com tão pobres temáticas? Restava uma solução: reclamar o mais possível pelo Regula de “antigamente”. O descontentamento parecia dividi-lo em duas versões de si mesmo: uma sexista, como em 2003, e dada a esquemas extra-curriculares, como nas Kara Davis, e uma outra que um dia tinha dito coisas como “Devias estar mais atento aos exemplos que estás a dar mas… Não deves ter ouvido a colagem do projecto Ngonguenha”.

 



Gancho chegou quatro anos depois de Lisa Chu (desde Tira Teimas que Regula editava de dois em dois) e, patrão ou não, a verdade é que Regula, sem arredar pé do emprego, vendeu quinhentos exemplares na terça-feira de lançamento. “Kill Bills” fez as vezes de “Episódios”, primeiro avanço do disco anterior, e chegou sem aviso, atingindo tudo e todos. Os fãs mais acérrimos rejubilaram e ouviram a nova faixa em repeat. Os mais desconfiados também já tinham saudades e ficaram sem argumentos.

Há rappers que escrevem a pensar no palco ou na rádio e outros que preferem visualizar a cabine enquanto constroem versos. Não sendo universos incompatíveis, é raro que se unam com excelência e em proporções dignas de registo. Regula conseguiu e o primeiro grande trunfo de Gancho é tê-lo alcançado com a mesma naturalidade que sempre lhe caracterizou a escrita e a entrega. O egotrip persistiu como temática principal, bem como as várias referências a sexo, drogas e crimes mais ou menos declarados, tópicos que lhe valeram novos pontos de interrogação.

 



Indo ao que interessa mas sem descartar comparações: a técnica de Regula, aqui numa versão milimetricamente aperfeiçoada, é claramente superior à que apresentava nos discos anteriores. Os instrumentais, escolhidos a dedo, provam-no uma vez mais como bom ouvinte (condição essencial para evoluir enquanto rapper) e ditam o tom de um alinhamento que respira na fluidez do rap como sempre o conhecemos mas que vive da estética trap. Ainda assim, sem que nada o fizesse prever, o grande trunfo deste Gancho chegou das Caraíbas em formato dancehall.

Em 2013, o rap começava a ficar definitivamente na moda. Por outro lado, a versão electrónica do ritmo da Jamaica nunca atingiu popularidade assinalável em terras lusitanas. A objectificação da mulher nunca se havia mostrado tão popular na língua de Camões como sempre foi nos originais norte-americanos e Regula, longe do estatuto mediático de Sam The Kid ou Boss AC, era um rapper para rappers que nada fazia para romper a barreira. Mas tudo se encaminhou para que “The Baddest Riddim” (assim se chama o tema no circuito jamaicano de instrumentais), ou “Bubble”, conforme assinou Leftside, se transformasse no hit que todos conhecem.

Dom Gula já tinha avisado (“Eu faço hip hop, ouço reggae, são referências musicais”) e desta vez avançou mesmo com a improvável mistura de estilos. Se há Regula de “antigamente” (esse tempo histórico de tão difícil definição), foi em “Casanova” que o dito voltou ao activo para começar a revolução sem bandeiras. Sem rádios ou televisões, no advento do YouTube e da liberdade sexual, virou a vida do avesso e mudou o rap português para sempre (ou vice-versa). Mas a personagem que Tiago Lopes assume na batida nunca oscilou.

 



Números não mentem, uma boa tracklist também não e, deixando de parte a experiência que foi 1ª Jornada ou o conceito das mixtapes, é fácil fazer as contas. Em Gancho, num total de onze temas, há oito com características freestyle, restando “Berço D’Ouro”, “Elas” e “Rosas”. Mais ou menos como em Tira Teimas, que à excepção de “Diálogo”, “Brasas” e “É Lá Na Zona” se dedica ao estilo livre em exclusividade. Mudam-se os tempos e renova-se a estética instrumental, espelho das tendências globais — sem ignorar a declarada tendência banger de Gancho.

A sonoridade foi um dos veículos essenciais para que o disco chegasse tão longe, bem como todo o burburinho gerado à volta de “Casanova”, mas as portas das discotecas e festivais só se abriram, os cachets de largos milhares de euros só apareceram e as rádios só cederam à pressão do público porque os mais fiéis ouvintes de rap também compareceram em peso. Porque Regula voltou para dar o seu melhor rap a cada barra ou refrão. Beneficiou do contexto que então despontava mas soube usá-lo a seu favor e em proveito das suas qualidades de escritor e intérprete como nenhum outro.

A profissionalização dos rappers, mesmo dos que ainda vivem mais perto da matriz, passou a ser vista como um objectivo real. A sua nova vida serviu de alerta para a importância do trabalho e do investimento e, apesar da indústria permanecer indiferente ao talento em bruto, Regula provou que um cocktail com esses ingredientes continua a constituir uma forte possibilidade de vingar no meio, sem que para isso os MCs precisem de limitar as suas características mais carismáticas.

O politicamente correcto tem sido apregoado por muitos (em Portugal, entre outros, por Ricardo Araújo Pereira) como principal inimigo contemporâneo do discurso, por oposição ao que se passava “antigamente”, diria o membro dos Gato Fedorento. Sendo verdade, o rap português não reflecte o resto da sociedade e Regula constitui-se como grande herói da língua. O mérito é seu se hoje, ao contrário do que se passava no saudoso “Hip Hop Tuga” de 2002, é possível rimar sobre sexo, consumo de erva ou tráfico de drogas sem as penosas camadas de censura, interior ou exterior, que há quinze ou vinte anos seriam inevitáveis.

 


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