Rapsody // Laila’s Wisdom

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[TEXTO] Moisés Regalado 

O fervilhante convívio e conflito entre gerações de ouvintes, agora tão natural como sempre mas especialmente notório quatro décadas depois, cimentou a diversidade de uma cultura que só com pluralidade consegue sê-lo em pleno. Os putos do hip hop já não discutem com os velhos. Discutem com os velhos do hip hop. Seguindo o rumo dos acontecimentos, os putos do hip hop continuam a trocar ideias com os putos do hip hop e os mais “experientes”, por norma, também se aproximam dos pares. Os veículos são outros. O slang, que já não é slang. Os hábitos também. Igualmente válidos a partir do momento em que o saber não é hierárquico.

Embora pareça inevitável, não é desejável que os círculos se afastem. Mas ao contrário da tese que prevê a morte do género, dizem a antítese e a síntese que assim acontece antes da maturidade absoluta. Isto para sublinhar, e não há sinónimos que valham, mesmo depois de tamanha introdução, que Laila’s Wisdom é um álbum “à moda antiga”. Não havendo nada errado quando a sugestão é outra, também não há mal algum no prazer que é namorar este formato. Sentir um brilho no olhar ao perceber que são 14 faixas, de oitenta gravadas. Sessenta e poucos minutos de música. Uma lista de créditos em que 9th Wonder predomina, com Khrysis à espreita – se há quem tente equivaler Rapsody a Kendrick, perante tal ficha técnica é o nome de Sean Price que salta à memória.

 



Não há desilusão. A solidez do conjunto, harmonioso e nada entediante (dinâmico não é adjectivo que encaixe nesta paisagem, pouco dada a “modernices”), perde-se apenas em momentos fugazes e desinspirados como “Sassy” ou “U Used 2 Love Me”, contrastantes com a riqueza que pauta o projecto e envolve o mais atento num alinhamento de produção refinada, longas viagens que a cada curva se reciclam em novo loop ou interlúdio. Quase todas as participações contribuem cirurgicamente, com particular destaque para o ainda menino do momento, Anderson Paak. Como tão bem sabe fazer, fundiu cada nota e palavra com os instrumentais em que se moveu de forma exímia. O mesmo se pedia a Kendrick, que devolveu o verso de Rapsody no seu To Pimp A Butterfly sem o efeito surpresa dessa primeira colaboração mas com a entrega que o acompanha em cada feature.

Também não há inovação. Lembrando que Rapsody gravou cerca de uma centena de temas para Laila’s, e sem esquecer que a unanimidade é utópica, não fará sentido que tenha comprometido o conjunto a favor de quebras para digestão fácil, já referidas, ou de alguns refrões r&b, escola de 2000, que se vão ouvindo. Talvez um disco mais compacto e com pormenores menos datados facilitasse a afirmação da rapper, que em nada depende da bandeira sexual e que pouco tem em comum com os titãs a não ser o inegável talento, único factor que a distingue da maioria e aproxima da minoria, ambas masculinas. Não há como avaliar de outra forma quando, durante uma hora e quatro minutos, se assiste a semelhante desfile de métricas e letras maduras, que educam sem forçar lições – capacidade apenas ao alcance dos melhores. “Never be the same like what they did to New Orleans”. Simples.

Falar de Rapsody é falar de uma das melhores da sua geração. E Laila’s Wisdom, que tem lugar assegurado em várias das listas que se aproximam, é, quem sabe, o passo mais importante na história recente do rap para que num futuro próximo ninguém se refira a Little Simz, por exemplo, como um J. Cole feminino. Obrigado, avó Laila.

 


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