Afro trap: um “fenómeno geracional” à conquista do globo

[TEXTO] Ricardo Farinha [ILUSTRAÇÃO] Dialogue

Nos anos 70, algumas centenas de anos depois da chegada das comunidades negras aos EUA, nascia nos bairros degradados do Bronx, em Nova Iorque, a cultura hip hop e o rap – sendo que o princípio não era o verbo. No princípio era o break e a reinvenção da chamada música negra americana, uma vasta cultura com origem em África e manifestações amplas que se estendiam do jazz e do funk à soul e ao reggae ou aos híbridos latinos que na Grande Maçã foram apelidados como “salsa”, tudo linguagens e sons que foram depois adaptados e transformados para a criação de beats de hip hop.

Aquilo que podemos considerar música negra europeia – sendo sempre um conceito muito discutível – é um fenómeno bem mais recente, até porque as imigrações em massa vindas de África para a Europa (pelo menos com resultados visíveis e palpáveis na actualidade) são também elas mais recentes. Demora tempo a cimentarem-se bases, a misturar-se a tradição africana com a europeia (ou a cultura global ocidental) e a originar a fusão de ambas para resultar em algo novo. Se o hip hop não demorou assim tantos anos a atravessar o Atlântico e a invadir a Europa, leva sempre algum tempo a ganhar novas estéticas e identidades nas regiões para que se muda: em Portugal, por exemplo, os artistas locais tornaram o hip hop mais português quando recorreram aos samples de fado ou de música popular nacional.

Outro fenómeno que se junta a tudo isto, e mais recentemente, é a tendência das sonoridades africanas na Europa. Muitas delas estão a nascer precisamente neste continente, no seio das comunidades africanas, sendo um habitat natural prolífero: muitas destas linguagens não podiam nascer na Europa sem comunidades africanas, mas também não podiam nascer em África sem todas as influências da sociedade ocidental. E com isto nota-se uma cada vez maior aproximação do rap a África na Europa. Curioso, já que o rap pode ser considerado música negra americana, e seja preciso chegar à Europa para se reunir com África.

É também impossível não se notar o sucesso cada vez maior das sonoridades quentes do dancehall – exportação da Jamaica com impacto global graças à carreira de estrelas como Shaggy, Sean Paul ou, mais recentemente e entre tantos outros, Popcaan – que se estenderam ao mais alto nível do topo da pirâmide: basta ouvir faixas de Drake como o mega hit “One Dance”. No Reino Unido, podemos falar do do exemplo de J Hus, que conjuga rap com dancehall, e tem tido um impacto forte.

 



[O fenómeno afro trap]

Um desses exemplos claros da maior africanidade do rap na Europa é o fenómeno afro trap – termo criado pelo rapper francês MHD, filho de pai da Guiné Conacri e de mãe do Senegal, com apenas 23 anos. Deu origem, a partir dos subúrbios de Paris, a todo um movimento e sonoridade: a junção de aceleradas batidas afro a sonoridades agressivas trap com versos e rimas por cima. Se o grime nasce em Londres com origem na música electrónica local, e se sente a angústia e a raiva jovem, de comunidades excluídas e dos seus problemas urbanos, no som e nas rimas, no caso do afro trap sente-se mais um espírito de celebração e também se manifesta com um universo muito próprio.

“O movimento afro já está bem encaminhado, nos últimos anos a cena afro ocupou um lugar maior na cena musical mundial, com artistas que exportam: como Wizkid, Drake ou P-Square”, conta ao Rimas e Batidas aquele que tem sido chamado como o príncipe do afro trap, MHD. “Em França, há mais e mais afro, especialmente no hip hop. É um fenómeno geracional e uma mistura de culturas e sons que são muito agradáveis.”

No início de 2016, Mohamed Sylla, mais conhecido como MHD, era um simples estafeta que entregava pizzas em Paris. Passados 18 meses, actuava para 65 mil pessoas na Guiné Conacri, onde era recebido no aeroporto como uma estrela por milhares de fãs. No próprio verão de 2016, foi contratado para fazer um anúncio para a Adidas e para o Real Madrid. Neste momento tem mais de 700 milhões de visualizações no YouTube, mais de dois milhões de subscritores, e em Abril actuou no icónico festival de Coachella. Os Major Lazer fizeram recentemente uma remistura do tema “Afro Trap Part. 7 (La Puissance)”.

 



Em vez de se inspirar no rap americano, como tantos das gerações anteriores do hip hop francês, focou-se nas sonoridades de géneros de música africana como o coupe decale, entre outros estilos, que sempre ouvira em casa. Na sua famosa série de singles Afro Trap, arrancou com “Afro Trap Part 1 (La Moula)”, com um instrumental que tinha um sample do tema “Shekini”, do grupo nigeriano P-Square.

Esse vídeo – e muitos dos que se seguiram – é filmado na zona onde vive, no 19th arrondissement de Paris, e mostra as pessoas do bairro a dançar na rua, vestidos com fatos de treino e camisolas de clubes de futebol. A ligação do afro trap ao desporto rei da Europa é inequívoca. O próprio MHD queria ser um jogador de futebol, agora acaba por homenagear os seus ídolos do relvado – e vice-versa. O jornal britânico The Guardian escrevia em Junho de 2017 que Adrien Rabiot, Serge Aurier, Alexandre Lacazette e Samuel Umtiti eram alguns dos jogadores da selecção francesa que eram fãs de MHD. O rapper tornou-se ainda amigo de Paul Pogba e o seu característico movimento de dança, a que chama simplesmente “le mouv”, tornou-se uma forma popular de celebrar golos em campo do Paris Saint-Germain. MHD também já participou num projecto com a equipa de futebol dos Camarões e homenageou numa música o lendário avançado Roger Milla.

“Claro que me sinto lisonjeado quando as estrelas do futebol ouvem a minha música, e talvez tenham participado nesta exportação, mas penso que é, acima de tudo, o lado universal do afro trap, os seus sons e o ambiente que pode criar. É a magia da música. Já não há fronteiras e todos podem ficar tocados por uma faixa que foi produzida num país vizinho, ou mesmo distante.”

 



No único álbum que tem na discografia – que, note-se, não tem só temas de afrotrap – colabora com músicos africanos como Fally Ipupa e Angelique Kidjo, em vez de ter rappers convidados. Foi buscar às suas raízes africanas, aquilo que os pais ouviam em casa, essa inspiração — e é notório o seu orgulho ao incorporar África na sua música e não partilhar do desdém que diz que África sempre teve no rap francês. A jornalista Betty Bensimon, numa entrevista na plataforma Boiler Room, diz que ele foi responsável por levar o rap em força às discotecas do país. Mas isso, no entanto, nunca foi a sua intenção. Tudo nasceu a partir de um freestyle inocente, por cima de um beat de afro trap, que se tornou viral no Facebook. “Foi o público que estava a reivindicar sons afro. Da minha parte, foi o número de comentários e partilhas no meu vídeo no Facebook que me motivou a ir a estúdio.”

Douk-Saga, Molare ou Magic System são algumas das maiores referências do coupe decale. “Eu oiço música africana todos os dias. É mesmo a minha base”. Em França, nomes grandes como Booba, Niska ou Maître Dims também fazem rap com estéticas africanas presentes. Não foram os primeiros, claro: antes, já os Bisso na Bisso ligavam o rap a África, mesmo sem os elementos modernos do trap. MHD também tem estado cada vez mais ligado à cena londrina do grime. “A cena musical de Londres é obviamente muito inspiradora. Tenho ido muitas vezes a Londres ver artistas e estar em estúdio.”

Um dos produtores destas batidas, que tem trabalhado mais com MHD, mas que também é o autor do êxito “Sapés Commes Jamais”, de Maître Dims, com a participação de Niska, que tem perto de 350 milhões de visualizações, é Dany Synthé – aos 26 anos, faz até parte do júri do popular concurso de talentos da televisão Nouvelle Star.

 



[O afro trap também chegou a Espanha]

O afro trap está a crescer pelas várias comunidades africanas da Europa e em Espanha não é excepção. Os Afrojuice 195 são um colectivo que adoptou este género de música, com recurso também ao auto-tune, e as suas letras festivas falam sobretudo de futebol, as vivências na rua e de, simplesmente, passar um bom bocado. Estiveram em Portugal recentemente para gravar o videoclipe do single “José Mourinho”, que se junta a outros temas futebolísticos como “Karim Benzema”, “Joga Bonito” ou “Paulo Dybala”.

“Fazemos este tipo de música porque nos permite expressar e transmitir a nossa energia… basicamente reflectimos as nossas vidas e permite-nos contar as nossas experiências”, conta o quarteto ao Rimas e Batidas. “Amamos cantar, dançar, saltar e fazer as pessoas fazerem o mesmo.”

 



As sonoridades africanas sempre estiveram presentes nas suas casas desde pequenos e, apesar de fazerem afro trap, termo criado por MHD, a quem reconhecem legitimidade, não dizem que foram propriamente inspirados pelo rapper francês. “É verdade que ele lhe deu o nome e criou as bases, mas o afro trap faz mesmo parte de nós, é o nosso modo de vida. Futebol é rua, a rua tem futebol, música, alegria, é uma cultura. Este género representa o que é a rua hoje, a diversidade das diferentes culturas e a integração dos imigrantes num país estrangeiro.”

 



[Em Portugal]

Como bem sabemos, Portugal é outro dos países europeus que mais ligação a África tem, e esta tendência não tem passado ao lado. O país tem a particularidade de ter vários milhares de pessoas que falam crioulo e que o levam para o rap desde os anos 90 – mas era esse o ponto mais próximo do hip hop ao continente africano, até porque, em geral, toda a restante estética do rap, como seria natural, era inspirada no que se fazia na América e estava completamente afastada de África.

O primeiro rapper em crioulo em Portugal, com trabalho para mostrar, terá sido Djoek, que em 1996 lançou o álbum “Nada Mi Ka Teni”. E não se pode deixar de mencionar o papel de General D, considerado um dos pais do rap em Portugal e o primeiro no país a gravar faixas, que vestia regularmente trajes tradicionais africanos e explorava as mensagens do afrocentrismo que também era veiculado na América – por grupos como os Public Enemy, por exemplo. Nos PALOP — em Cabo Verde, por exemplo –, já havia rap mais ou menos ligado à música africana. Em Portugal, não se pode deixar de mencionar o papel de Karlon, histórico dos Nigga Poison, que lançou no final de 2016 Passaporti, disco que traça precisamente essa ligação às origens da família, e une o rap ao funaná ou ao ferro gaita.

Falando de afrotrap, vários têm sido os artistas portugueses a dedicar-se ao género. Um deles é Bad Tchiken, outro será Mota Jr, e ainda há Apollo G. Depois de várias faixas soltas e de temas com o grupo GhettoSupastars, o rapper lançou-se a solo com Robin Hood, disco lançado em Novembro de 2016, e editou depois o EP Success After Struggle. O rapper mantém a tradição do rap crioulo, com descrições reais das vivências difíceis, mas equilibra-o e completa-o com temas sobre amores e desamores, rimas em egotrip e, claro, hinos de block parties.

 



Foram essas faixas, em que Apollo G mistura os ritmos das batidas africanas (que também são tendência internacional) com sonoridades trap, que causaram mais impacto: “Si K Sta”, com um videoclipe gravado num pátio de Monte Abraão, soma mais de três milhões de visualizações no YouTube. Nesse trabalho existem beats que soam a kizomba, mas também versos em auto-tune por cima de percussões trap. O artista, que também participa no hit “Kuale Ideia”, de Elji Beatzkilla, explicou a mistura que encontramos no seu reportório.

“[É] da música que vou ouvindo desde criança em casa, e com o que tenho ouvido actualmente. Daí terem saído faixas com estilos muito africanos, mas sempre com um toque meu tão actual. Foi como juntar rap a vários estilos musicais. Robin Hood foi o meu primeiro projecto e foi muito bom para mim, não estava à espera que as pessoas fossem gostar tanto. Foi um ano muito bom mesmo”. O rapper começou a receber cada vez mais telefonemas, a olhar para a agenda cheia, e a dar concertos internacionais pelo circuito das comunidades portuguesas e dos PALOP no estrangeiro.

Essa vertente de experimentar e fundir estilos, que apenas é um reflexo autêntico da própria multiculturalidade da vida do artista, está presente neste novo EP, que termina com uma faixa com base funaná com a participação de Garry. Um dos temas mais afro trap que Apollo G tem é com o seu grupo GhettoSupastars, que tem uma remistura da faixa “Manda Vir Mais Um Copo”, com um beat de Deejay Télio. Nos últimos anos, este produtor e cantor que cresceu no Vale da Amoreira tem-se afirmado, verdadeiramente, como um dos criadores mais conhecidos da música popular portuguesa e, especificamente, como um dos que mais contribuíram para o sucesso da música de origem africana no país. São raras as discotecas que nunca passaram alguns dos seus hits, como “Não Atendo” ou “Esfrega Esfrega”.

O seu estilo? Mais uma grande fusão, claro, que só podia ter nascido num subúrbio da Grande Lisboa. “Eu chamo de karanganhada, é uma palavra em crioulo que era muito usada antigamente e deixou de ser, cerca de 2006 ou 2008”, conta o produtor ao Rimas e Batidas. “E eu, como miúdo, como cresci num bairro social, no meio de guineenses, cabo-verdianos, moçambicanos, são tomeenses, sempre gostei dessa palavra. E sempre disse: eu sou karanganhada. Isso quer dizer festa, curtição, boa vibe.”

Esta música de festa que resulta da mistura de todas as sonoridades africanas presentes em Portugal está algures entre a kizomba, o kuduro e o afrohouse, mas também chegou ao rap, lá está. Deejay Télio trabalha na sua label e colectivo independente SAF (Somos a Família) com Deedz B e já colaborou com os Wet Bet Gang e os Karetus – poderá estar para vir mais em breve, segundo Télio, com o quarteto de Vialonga.

“É importante [existirem essas ligações] e eu apoio a 100% essa cena. É bom para abrir fronteiras, para um cantor de kizomba não ser só de kizomba, ou de rap não ser só de rap, ou de batida — neste caso, de karanganhada, não ser só de karanganhada. Assim expande mais a música portuguesa, porque nós somos bem fechados em termos de musicalidades”. Ainda assim, Deejay Télio assume que a sua música, e as sonoridades africanas no geral, têm tido mais espaço e aceitação em Portugal nos últimos anos. “Tenho notado essa expansão. Desde que me lancei noto isso, não só com artistas portugueses mas também com os lá de fora, do Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau. Abriu-se bastante mesmo.”

Quanto ao afro trap, Télio confessa-se um fã de MHD, rapper que ouve bastante. “Identifico-me, tanto que até muitas vezes para criar inspiro-me a partir daí, misturando um bocado daqui, dali, uma métrica do rap com outra do trap, umas cenas de kizomba, funaná, é muita coisa. Pego um bocadinho de todos os lados e acho que é assim que se faz. Estou mais para o lado do trap agora, como produzo para o Deedz.”

É interessante ainda relembrar que Deejay Télio, que produz com o Fruity Loops Studio – “quando tá boa não inventa” – pode ter este lado mais popular da sua música, mas começou por trabalhar com produtores que, apesar de não terem tanto sucesso comercial, são grandes referências de vanguarda da música electrónica. Télio fez parte do grupo Tia Maria Produções, associada à Príncipe Discos, antes de existir a SAF – Maboku, Firmeza, Lilocox, Nigga Fox ou Lycox são algumas das suas referências e amigos.

 



[Na lusofonia]

Portugal parece estar mais avançado nesta mistura de rap com as batidas africanas, apesar de no Brasil ser ainda mais difícil de separar algumas águas – muitas vezes, nem é assim tão necessário. Além disso, o país do outro lado do Atlântico tem no funk das favelas a sua própria fusão para criar com o rap. Ainda assim, faz sentido mencionar o nome de Rincón Sapiência neste artigo.

O rapper de São Paulo atirou-se muito recentemente a “Drenas”, de PEDRO, para criar “Na Quebrada”, onde desliza facilmente pelas batidas do afrohouse da Amadora como se tivesse crescido naqueles becos e arcadas. “Me sinto em casa”. Essa ligação a África, tema que está bem presente nas letras do MC, tem-se notado também no seu próprio reportório. “Afro Rep” é mesmo o título apropriado. Em entrevista ao Rimas e Batidas em Agosto, Rincon Sapiência dizia que, para traçarmos as verdadeiras origens do rap, devíamos até olhar mais para África e menos para os EUA – num exercício semelhante ao que defende MHD.

“O rap é uma sequência dessa diáspora, de termos saído do continente africano e se espalhado pelas Américas. Então as perguntas e respostas dos vocais é algo que já tem na música africana, antes do rap. O contar de histórias já tem na cultura africana, o lance do canto versado, isso já tinha no continente africano antes dos EUA construírem esse formato de rap. Às vezes eu acho que vale a pena a gente olhar mais para trás, ainda, mais para o continente africano do que para os EUA. É esse conceito de beber da música afro e afro-brasileira que eu defino como afro rap. Esteticamente é o resultado que tem nas músicas ‘Meu Bloco’, ‘Ponta de Lança’, ‘A Coisa Tá Preta’, que é essa energia da música afro com a contemporaneidade do rap.”

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha