Apollo G: o sucesso depois da luta

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Ana Ortega

Success After Struggle foi o presente de Natal que Apollo G deixou para todos os seus fãs em 2017. O EP de seis faixas — o segundo trabalho do rapper, depois de Robin Hood — foi lançado a 25 de Dezembro e o single  “Sufri Dimas” já está no YouTube.

Apollo G faz parte de uma segunda geração de imigrantes em Portugal que se teve de tornar numa (outra) primeira, neste caso quando o rapper se mudou para Londres depois de uma vida nos subúrbios de Lisboa. As raízes, essas, sempre permaneceram.

O artista pode ser considerado um dos percursores do afrotrap em Portugal — depois do sucesso lá fora de nomes como o francês MHD, que funde as rimas em francês com trap e sonoridades afro —, e tudo de forma natural. Cresceu a ouvir rap nas ruas da Linha de Sintra, mas em casa o que tocava na aparelhagem era música africana. Em Londres, incorporou o inglês, que mistura com o crioulo nas suas letras. “Para mim tornou-se natural, porque, mesmo apesar de [também] ter crescido em Londres, em casa a língua sempre foi o crioulo”, conta ao Rimas e Batidas.

 



Depois de várias faixas soltas e de temas com o grupo GhettoSupastars, Apollo G lançou-se a solo com Robin Hood, disco lançado em Novembro de 2016. O rapper mantém a tradição do rap crioulo, com descrições reais das vivências difíceis, mas equilibra-o e completa-o com temas sobre amores e desamores, rimas em egotrip e, claro, hinos de block parties.

Foram essas faixas, em que Apollo G mistura os ritmos das batidas africanas (que também são tendência internacional) com sonoridades trap, que causaram mais impacto: “Si K Sta”, com um videoclipe gravado num pátio de Monte Abraão, soma mais de três milhões de visualizações no YouTube. Nesse trabalho existem beats que soam a kizomba, mas também versos em auto-tune por cima de percussões trap. O artista, que também participa no hit “Kuale Ideia”, de Elji Beatzkilla, explica a mistura que encontramos no seu reportório.

“[É] da música que vou ouvindo desde criança em casa, e com o que tenho ouvido actualmente. Daí terem saído faixas com estilos muito africanos, mas sempre com um toque meu tão actual. Foi como juntar rap a vários estilos musicais. Robin Hood foi o meu primeiro projecto e foi muito bom para mim, não estava à espera que as pessoas fossem gostar tanto. Foi um ano muito bom mesmo”, conta. O rapper começou a receber cada vez mais telefonemas, a olhar para a agenda cheia, e a dar concertos internacionais pelo circuito das comunidades portuguesas e dos PALOP no estrangeiro.

Essa vertente de experimentar e fundir estilos, que apenas é um reflexo autêntico da própria multiculturalidade da vida do artista, está presente neste novo EP, que termina com uma faixa com funaná com a participação de Garry. Recentemente, Apollo G atirou-se ainda a um beat grimy de Fumaxa, com BH. “Achei que era capaz de o fazer, então fiz, e assim será em qualquer estilo musical, sempre que me sentir capaz de fazer”. Há instrumentais sobretudo de RGD, mas também de Godslayer, DJ Kelven (que o acompanha na estrada), Young Max e DJ Miguel no novo projecto.

Este EP, no entanto, é bastante mais introspectivo e menos festivo do que o antecessor. “Quis mostrar que, mesmo depois do sucesso, a luta ia continuar. Então dediquei-me muito, como se ainda não tivesse conquistado o que conquistei com o Robin Hood! O sucesso que tenho tido tem sido espectacular, [fico] sem palavras mesmo, mas isso não me tem deixado iludido, daí o nome deste trabalho.”

O seu lema, apropriado, nesta vida passada entre o Reino Unido e Portugal, é NoDaysOff. Apollo G tem os pés bem assentes na terra quanto ao seu hustle e é isso que mostra neste Success After Struggle, onde recorda — sobretudo para si próprio — que o caminho até aqui não foi fácil, e que não se pode deixar hipnotizar — e, consequentemente, perder — pelas salas cheias de fãs e a vida de estrela. “Bitch, be HUMBLE.”, como diria Kendrick Lamar, que fez exactamente o mesmo exercício em frente ao espelho, noutra escala e realidade. The struggle is real e Apollo G veio para ficar — o seu afrotrap, como está visto, tem potencial para muito mais. Decorem o nome.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha