Papillon // Deepak Looper

papilon review 1

[TEXTO] Manuel Rodrigues 

“Olha para fora cá dentro”

Aquilo que numa primeira análise soa a uma tirada digna de propaganda ao Turismo de Portugal, é, na verdade, a frase que melhor resume todo o sentimento presente em Deepak Looper, o álbum de estreia de Papillon, um dos membros da família GROGNation. As palavras proferidas pelo próprio na canção-título, que serve também de introdução ao disco, descodificam na perfeição a ideia de algo que procurou ir além das suas próprias fronteiras. Em Deepak Looper, Papillon olha para fora não só de uma perspectiva estritamente lírica, com temáticas de cariz pessoal que viajam do interior para o exterior, como alguém que abre as páginas do seu livro íntimo ao mundo, mas também de um ponto de vista conceptual, com estruturas e abordagens que se negam a ficar presas numa só matriz de edificação.

Veja-se o exemplo de “Impressões”, o sétimo piso deste disco de brilhante esqueleto arquitectural. O loop recupera um dos maiores clássicos dos franceses Saian Supa Crew, “Angela”, que tem fortes ligações a África, enquanto a batida assume contornos mais ligados à electrónica outrora desenvolvida nos subúrbios de Londres do que propriamente às estruturas clássicas ou até contemporâneas do hip hop. Até o flow de Papillon parece ter sido trabalhado de outra forma que não a comum para esta música, com o intuito de acompanhar a cadência sugerida, assim como os riffs de guitarra que, aqui e ali, vão pedindo um encadeamento rápido de rimas e algumas pausas propositadas. Não será de admirar se um dia “Impressões” sair à rua numa remistura com roupas assumidamente drum & bass. Está mesmo a pedi-las.

“Impasse”, o primeiro single do álbum, traduz igualmente essa vontade de saltar vedações em busca de diversidade paisagística, numa rapsódia instrumental de peculiar variação dinâmica. Se por um lado a harmonia entre a batida e o piano nos remetem para uma balada em que os versos de Papillon exploram competentemente a temática evocada (é que eu estou neste impasse /a ver se eu não me passo / entre o quase e o fracasso / o que é que eu faço manos? / não sou de aço sou humano / ‘tou parado no tempo já nem faço anos), por outro, surgem a dada altura da música um conjunto de breaks de bateria e notas de guitarra eléctrica que nos sugerem uma explosão que nunca chega realmente a acontecer. Haverá melhor forma do instrumental fazer jus à letra e ao próprio título? Dificilmente.

Deepak Looper é uma obra de cariz pessoal, na qual podemos encontrar um Papillon bem diferente daquele que opera nos GROGNation. Para além das habituais punchlines e dos já conhecidos trocadilhos e jogos de palavras (destaque para a linha “i got the keys, porque eu tenho as chaves tipo César Peixoto”, presente em “Metamorfose Fase II”), o rapper entrega também ao ouvinte a combinação que abre o cadeado para a sua vida, da pouca sorte que teve no campo futebolístico e todo o jogo de cintura inerente relatados em “1:AM” (cujo refrão “o meu pai diz que eu só como, cago e durmo” se pode aplicar a qualquer pessoa que já tenha, aos olhos da família, passado por mandrião) ao momento em que a morte de um familiar o obrigou a pensar a vida de uma forma diferente (com o arrepiante remate “eu nunca soube estar na vida até estar na vida sem ti”).

Há também no trabalho de estreia de Papillon o aprimorar de duas vertentes completamente opostas e igualmente importantes. Uma mais séria e ligada à consciência, que nos obriga a reflectir sobre a eficiência do boomerang acção-reacção no nosso quotidiano, como acontece ao longo do storytelling “Imediatamente” (o velho karma a fazer das suas, como sucedera anteriormente em “16/12/95”, de Sam The Kid). Outra mais leve e festiva, que nos ajuda a aliviar das costas a carga colocada anteriormente, como serve de exemplo “Iminente” (canção de toada alegre que junta Papillon e Plutónio numa celebração despreocupada).

Por mais que Deepak Looper conte com a participação executiva de Slow J (a batuta de um dos mais interessantes e promissores maestros portugueses está bem presente ao longo dos treze temas que compõem o disco), há aqui todo um conjunto de directrizes – na textura e no conteúdo – que deve ser creditado a Papillon. Prova disso é “Imbecis / Íman”, o quinto ponto de paragem na visita à obra. O tema soa a Slow J – e conta, inclusive, com a participação do músico sadino – mas tem na sua temática, abordagem e garra todo o cunho da pessoa que assina o álbum. Não se lhe tire, por isso, o mérito merecido.

Grande álbum, este.

 


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