Os sons que mais rodei em 2015 por Francisco Noronha

[TEXTO] Francisco Noronha [FOTO] Direitos Reservados

 

2015 foi um ano rico em coisas que ainda não tive oportunidade de ouvir. O que ouvi diz-me, porém, que foi um ano de boas colheitas, sendo certo que, como é sabido, as reservas, com o seu místico pó a cobrir o rótulo da garrafa (como o pó dos vinis), são sempre as mais saborosas.

 


[FUTEBOL E MÚSICA: AFINIDADES ELECTIVAS]

“O futebol tem destas coisas” – frase frequentemente ouvida à exaustão para assinalar a natureza imprevisível e aleatória do jogo mais global da actualidade. A tirada vale também para a música: sim, “a música tem destas coisas”. Quais? O facto de, há apenas uma década atrás (muito menos nos anos 70 do século XX, quando o hip-hop surgiu como género marginal, alegadamente pouco talentoso e associado a meia dúzia de ghettos norte-americanos), ser simplesmente impensável que o hip-hop viesse a ser o género global por excelência (como o futebol), circunstância visível tanto nas tabelas de vendas, como nos cliques nas plataformas digitais, nos decibéis passados em clubes, discotecas e afins (ainda há dias, numa pista de gelo para crianças na Avenida nos Aliados, no Porto, se ouvia nada menos que Nicki Minaj (!)), ou, simplesmente, nas modas urbanas, desde a roupa a uma certa pose hiper-sexualizada cunhada por gente como a já referida Nicki Minaj ou Iggy Azalea (entre mil e uma referências que podia fazer). Não estou certo de os rappers serem hoje, como diz Kanye West (mas ele diz muita coisa), as rock stars do século XXI, mas uma coisa é certa: goste-se ou não, e por mais que isto aborreça muita gente (e gente tão diversa: tanto a malta do underground como os snobes que sempre desprezaram o hip hop, num daqueles interessantíssimos paradoxos que tornam tudo mais estimulante de debater), não se pode dizer mais hoje – porque simplesmente não faz sentido, essa é que é essa – que o hip hop é um género “alternativo” ou “underground”. Claro que também o há (graças a Deus que o há!), mas, como fenómeno “à margem”, ostracizado (por terceiros ou por auto-vitimização endógena), o hip hop deixou definitivamente de o ser, passando a inserir-se – e nada de negativo havendo nisto – com os demais géneros no grande acervo da música popular actual. É neste estado das coisas que se pode compreender – e problematizar – o fenómeno To Pimp a Butterfly, autêntica ilustração de como a peer pressure é geradora de unanimismos pouco ou nada genuínos: de repente, o álbum de Kendrick Lamar – um tratado da música negra, uma magnífica obra que ressoará nas próximas décadas, disso não duvido – aparece em primeiro lugar em tudo o que são listas dos melhores álbuns do ano. Coisa da máxima ironia: o politicamente correcto a “obrigar” à eleição de um álbum de hip hop, género politicamente incorrecto por natureza (por todos os motivos, bons e maus), como “o melhor do ano”. Mas a questão também se coloca a um outro nível: será verosímil que, para todas essas publicações e mais algumas, o álbum de Lamar seja, de facto, o melhor do ano? Bom, possível até poderá ser, mas pouco credível (e, se o for, então é um aborrecimento, porque significaria que gostaríamos todos do mesmo…!), sobretudo quando tal escolha é desacompanhada de exercícios críticos informados que a sustentem (ou, então, que se limitam a reproduzir frases de efeito de outras publicações). E quando, é preciso sublinhar, um álbum como To Pimp a Butterfly é tão difícil e moroso de digerir, atenta a sua desmedida densidade, os seus segredos e remissões (internas e externas, i.e., para a restante obra de Lamar) cuja clarificação se processa ao mesmo tempo que outras portas se fecham em copas novamente. Por isso, e em respeito ao próprio trabalho de Lamar, não consigo humildemente dizer que To Pimp a Butterfly é “o melhor” disco do ano: é que, se calhar, é o melhor da década, ou do século. De alguma forma, também eu, como VULTO., ainda não o consigo entender na sua plenitude. É preciso escutar com calma (e com alma!), tragar lentamente cada faixa, cada letra, cada arranjo, enfim, dar tempo ao tempo – e isso é coisa que, actualmente, ninguém tem paciência para fazer, pois só interessa apanhar a big next thing. Daí ser bem mais confortável fazer um zapping pela internet e alinhar com o resto do mundo, dizendo, então, em alto e bom som, que sim, que é o melhor álbum do ano. É o irritante da coisa: o unanimismo “porque sim”, a tendência a ocupar o lugar da singularidade, a moda a consumir o gosto próprio. Pela minha parte, perdoem-me a rabugice, tenho tempo: quando o ruído passar (agora é a presença no Super Bock que não deixa ninguém em paz…), poderei, finalmente, escutar tranquilamente o trabalho daquele que é o mais importante artista que o século XXI viu até agora emergir.

 

 


[A (BOA) LUTA CONTINUA]

Entrando, agora, no campo propriamente dito das escolhas pessoais, 2015 foi, para mim, o ano de Oddisse e do seu fantabulástico The Good Fight, o disco que certamente mais rodou em casa, no MP3, no carro. Canção favorita? Difícil, mas, a escolher, que seja “Book Covers”. Outras boas colheitas do presente ano: And After That, We Didn’t Talk (GoldLink, homem que desconhecia mas que a partir de agora jamais perderei de vista), B4.Da.$$ (Joey Bada$$, o “Cristiano Ronaldo” que rivaliza com o “Messi”-Kendrick Lamar), Cognitive Dissonance: Part II (Raz Simone), Tetsuo & Youth (Lupe Fiasco, subvalorizado como habitualmente), Dark Sky Paradise (Big Sean), The Greay(t) Area (HDBeenDope), Illa J (aguardadíssimo segundo álbum do mano mais novo de J Dilla e quase tão viciante como o primeiro), But You Caint Use My Phone (Erykah Badu, sempre magnífica, sempre apetitosa…), Late Knight Special (Kirk Knight), The Documentary 2.5 (Game nunca foi dos meus rappers favoritos, mas consegue sempre resgatar-me emoções como esta), Hallucinogen (Kelela, a manter o nível elevadíssimo de Cut 4 Me). A fechar, um álbum que, não sendo um portento, estaria sempre aqui por ser de quem é, uma figura formativa no meu amor com o hip hop: Now Hear This, de KRS-One.

 

 


[SLOW J, NERVE E OS SUSPEITOS DO COSTUME]

Em Portugal, o destaque vai inteirinho para Slow J, a quem não poupei elogios em crítica aqui publicada, um músico dos pés à cabeça e a quem auguro coisas grandiosas. Igualmente de saudar o regresso de NERVE, a quem também dediquei um exercício crítico, embora, hoje como na altura em que o escrevi, seja minha convicção que ENPTO (2008) ainda é o seu melhor trabalho até à data. O mesmo se diga para Halloween, de quem Árvore Kriminal (2011) é, em termos líricos, bem superior ao recente Híbrido, álbum tão realista como o primeiro mas sem metade da poesia. As faixas que os Baked Donuts têm avulsamente lançado (por exemplo, “Circa 1143”, que certamente deixaria José Mário Branco orgulhoso) indiciam-nos como um dos grandes projectos que poderá estar aí ao dobrar da esquina, tamanha é a harmonia entre a musicalidade e o portento lírico que é Algarvio. Em 2015, o álbum de Minus, Pássaros, Árvores e Almofadas (de 2014), continuou a destilar poesia e perfeição nas colunas cá de casa. Quanto a Virtus, quanto a mim o mais talentoso rapper português em actividade, UniVersos (2012) é como o livrinho sagrado da mesa de cabeceira: está sempre lá e a ele recorro invariavelmente. Em 2015, as faixas que agora mais aprecio são as do fim do álbum (em 2014, eram as do início; em 2013, as do meio; em 2020, será talvez o Intro…), com destaque para “Post Scriptum”. “Rainha de Bugiganga” (Deau), “Tu Não Sabes” (Sam The Kid e Mundo) e “Espelho” (NBC, Sir Scratch e Slow J, o único trio capaz de rivalizar com Messi, Neymar e Suárez), por motivos diversos, bateram muito forte no coração e no espírito. Já a fechar o ano, SP Deville regressou com Sou Quem Sou, álbum que, não chegando para me tirar o sono, impressionou pelo seu carácter autoral, pela sumptuosidade dos instrumentais, pela marca única no panorama português. Do Brasil, o super Emicida deu música da boa com Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, pelo qual ainda hoje me penitencio por não ter tido o tempo desejado para sobre ele escrever.

 

 


[O PASSADO É UMA COISA DO FUTURO (E VICE-VERSA)]

2015 foi também ano de muita descoberta apaixonada que não cabe aqui: foi o ano, por exemplo, em que passei a amar as The Teen Queens (tremi com isto e depois com aquilo) ou em que mergulhei na discografia de Lou Courtney. Foi também um ano em que parei para escutar novamente, com mais vagar, algumas pérolas de hip hop de anos anteriores: Droppin’ Science Fiction (2008, The Mighty Underdogs), The Journey Aflame (2011, Akua Naru), The Next Logical Progression (2012, Gift of Gab, cara metade dos Blackalicious – que é feito?!), Ceremony (2013, Raashan Ahmad, um dos mais talentosos e mais underrated rappers do mundo).

 

 


[SHUT UP AND WATCH THE MOVIES]

No cinema, emocionei-me com os diamonds de Rihanna no novo filme de Céline Sciamma (Bande de Filles, sobre o qual publiquei crítica que pode ser lida aqui) e fumei, num enorme mortalha (precisamente…), a melancolia toda dos Century a cantar “Lover Why” no Volume 2: O Desolado da desapontante trilogia de Miguel Gomes (“You’re just a someone gone away / You never said goodbye / Why, lover why? Why do flowers die? / Why, lover why?…”). Para recuperar a moral, abanei entusiasticamente a cabeça quando ouvimos a “Hit ‘Em Up” (com os palavrões todos!) do Tupac e a “Buggin’ Out” dos A Tribe Called Quest no (fraquinho) While We’re Young de Noah Baumbach (que, curiosa e anacronicamente, ainda trata o hip hop, contra aquilo que disse no início, como coisa “marginal” ou “excêntrica” no modo como colocar a Naomi Watts a ter aulas de dança de hip hop para sinalizar a descoberta de um estilo de vida rejuvenescido e “alternativo” – a sério?!). Mas se quiserem ver um filme que é uma autêntica jukebox da música popular americana, então ponham os olhos em The Last Picture Show (1971), do Senhor Peter Bogdanovich.

 

 


[WE WILL ALWAYS HAVE FRANK]

E qual foi a melhor canção de 2015? Bom, diria, à primeira, que foi “Hotline Bling” (Drake), mas, em ano de comemorações, tenho mesmo de eleger “uma daquelas coisas” que fez de Frank Sinatra the voice: “Just One of Those Things”, pois então. Venha O Processo de Beware Jack e Blasph, venha o Toda a Gente Pode Ser Tudo de NBC, venham os trabalhos dos Baked Donuts e dos Alcool Club, venha isso e muito mais. Venha 2016!

 

Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e colaborador em várias publicações sobre música e cinema. obosforo.blogspot.com.