Slow J // The Free Food Tape EP

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Num momento em que o sistema de ensino tantas vezes nos entra pelos olhos (i.e., pela televisão e computador) dentro, quase sempre, infelizmente, pelas piores razões, Slow J, rapper e produtor de Setúbal, é um daqueles exemplos do excelente aluno que sofre da “síndrome do primeiro período”. Explicando: The Free Food Tape, EP de sete faixas lançado há semanas, é uma obra magnífica do hip hop português que, qual cometa repentino, sai disparado, endiabrado, das mãos de um perfeito desconhecido do público português, como que se o criador não conseguisse domar (os efeitos d)a sua própria criatura. Dizemos “desconhecido” não só porque, como rapper, Slow J simplesmente “não existia”, mas também pelo facto de, mesmo como produtor, e salvo algum registo que nos possa estar a escapar, não nos recordarmos de nenhuma faixa produzida com o seu carimbo para outros artistas.

Mas voltemos à “síndrome do primeiro período”: com isto queremos dizer que, tal como na escola, os professores não dão o “cinco” aos melhores alunos no primeiro período por entenderem que é “demasiado cedo”, forçando o petiz a provar as suas capacidades no resto da “prova de resistência” que é o ano escolar (porque “o cliente nunca tem razão”, para brincar com a faixa “O Cliente”, ela própria uma alegoria da escola), também aqui, considerando que se trata, efectivamente, de um EP com apenas sete faixas e, sobretudo, de uma primeira obra (por mais que custe a acreditar), não declaramos já – embora nos apeteça – Slow J como uma certeza. O que não nos impede, ainda assim, de desde já afirmar estarmos perante um dos mais promissores e talentosos artistas do hip hop nacional, com potencial, inclusive, para transcender, com relativa facilidade, esse círculo e abraçar outros campos (desde logo, o R&B e, se a designação ainda fizer sentido actualmente, a neo-soul, ambos ainda pouco explorados em Portugal) e outros públicos.

Feita esta declaração cautelar prévia, estamos agora à vontade para fazer justiça sobre The Free Food Tape. E ser justo, neste caso, é reconhecer e elogiar um trabalho portentoso, a espaços brilhante, e, o que é mais de sublinhar, dotado de um traço autoral claro, aspecto não despiciendo quando o hip hop (português e não só) se vem vendo submergido numa enxurrada de lançamentos cuja grande maioria persiste na indiferenciação e na vulgaridade. Ao invés, nas letras e nos instrumentais deste EP, vemos nascer um músico dos pés à cabeça com uma visão artística própria, sem que isso o impeça de estar atento ao que se passa (ou se ouve) à sua volta. Slow J cita, entre as suas influências, Manel Cruz, e isso é bem visível na belíssima canção (só canto mesmo, sem rap) “Cristalina”, registo poético, lancinante e de uma profundidade invulgar para um novato nestas andanças (e nas da vida: 22 anos é o que consta do B.I. deste músico de Setúbal). Não, de facto, “isto não foi escrito nem revisto numa academia“, mas, audição após audição, ninguém quer saber disso. Em termos musicais, J dá corpo, nesta faixa, ao mito dos grandes artistas: com apenas uma voz e um piano (mais uma “varredela” que se ouve em fundo, pormenor que só sublinha a mestria na composição), faz uma enorme canção, magnetizante e melancólica q.b.. Mas veja-se, ainda, o epílogo da mesma faixa (2:33 em diante): com a inesperada entrada de uma gordíssima linha de baixo, e assim posta em andamento uma portentosa mas lentamente cadenciada batida, faz-se a síntese da delicadeza melódica com a pujança do beat enquanto elemento de composição primordial do hip hop. É efeito semelhante que se ouve, aliás, em “Objectivo” (primeira faixa), na qual, de um momento para o outro, o bombo, a tarola e o baixo entram pela casa adentro sem pedir licença, momento em que J já nos emocionou com a sua abnegação sacrificial, fazendo da música o meio de pacificação consigo mesmo: “Mano, eu dei-te tudo o que tenho no peit’ / pa’ eu viver direit’…”.



O efeito “bomba” que este EP causa no panorama português justifica-se por J ser, a um só tempo, um excelente letrista e cantor (e há muito potencial ainda para trabalhar) e um estupendo produtor, qualidades nem sempre fáceis de reunir, no espectro do hip hop, num só artista. Há muitos mundos dentro do mundo de J: poético, etéreo, por vezes indecifrável, não deixa de ser, igualmente, um tecnicista da palavra e da métrica (oiça-se “Tinta da Raiz”, rap até ao osso), atributos a que se junta um flow multifacetado, capaz do rap mais linear e do mais esdrúxulo, violando as regras da fonética (i.e., alterando voluntariamente as sílabas tónicas por forma a produzir a rima) e recorrendo ao canto – “Canta!”, diz J a ele mesmo, em “Portus Calle” – sempre que o ambiente o reclama, neste capítulo se assumindo, juntamente com NBC, como um dos melhores rappers-cantores nacionais, ao jeito de um Aloe Blacc ou de um José James nos tempos de The Dreamer (2008). Em Slow J, o hip hop não toma um caminho certo, oscilando entre as tonalidades jazzy (teclas e linhas de baixo muito soulful) e electrónicas (sintetizadores e outros efeitos orelhudos), a um momento se ouvindo um boom bap clássico para, logo a seguir, emergir uma percussão quebrada, quase “progressiva” (“Pai Eu”), um bombo e uma tarola em modo opiáceo (“A Origem”) ou, então, um vocal pitch-shifted que convoca o hip hop mais moderno conotado com o trap, recurso celebrizado, sobretudo, pela crew A$AP Mob e entretanto disseminado à exaustão (por sua vez bem tratado, cá no burgo, nas mãos dos elementos da ASTROrecords). Tudo em conjugação sempre harmónica, sempre melódica. Notável.

Para bem da nossa saúde, Slow J é, genuinamente, um artista, o que explica que, ao contrário de tantos rappers que vemos florescer como cogumelos, cujo discurso auto-centrado se resume à afirmação de uma identidade (“Eu sou um poeta; eu ando nisto há muito tempo; eu sou surrealista; eu sou apreciador de castanhas”), não precise – não queira – desse tipo de apresentações, pois que a sua música e as suas letras falam por si. Com isto pretendo assinalar algo que, sendo óbvio, parece olvidado por muitos novos e velhos nomes do hip hop (nacional e não só): o que faz de alguém um poeta, um músico ou um cineasta não é a quantidade vezes que o diz ser, mas o modo como põe em prática a sua mente, os seus recursos, o seu génio (ou falta dele) – enfim, como põe em prática a sua arte e a faz chegar ao público, neste despertando ideias e emoções.

Como toda a arte, a de Slow J precisa de tempo para ser absorvida, degustada, tempo que, na era da informação em modo excitação-esquecimento (e onde o lançamento de um álbum passou a ser um tópico informativo tão descartável como o vestido que fulana utilizou na enésima gala), se constitui um bem escasso – não porque, efectivamente, exista em porções reduzidas (o nosso dia continua a ter, ao que tudo indica, 24 horas), mas porque a predisposição mental dos ouvintes para prestar atenção a algo que não seja absolutamente claro à primeira audição é nula ou perto disso, tantos são os estímulos, os Instagrams e os tweets que há para conferir religiosamente a todo o momento. Só este estado das coisas – aliado à enxurrada de lançamentos a que nos referimos atrás – poderá, de resto, vir a explicar um hipotético insucesso – leia-se falta de receptividade junto do público – deste EP, já que, quanto ao resto, estamos conversados: esta free food é de comer e chorar por mais, outra forma de aplaudir um trabalho formidável que respira dedicação e espírito perfeccionista em cada nota, em cada rima, vindo de um rookie que, salvo algum acidente de percurso, tem tudo para se afirmar como um dos mais interessantes nomes do hip hop e da música portuguesa dos próximos anos – até porque, como se ouve Slow J dizer em “Pai Eu”, ele é quem diz ao karma quem ele é.

E já se disse que o EP está aí para download gratuito e as letras disponíveis para consulta?

Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e colaborador em várias publicações sobre música e cinema. obosforo.blogspot.com.