NxWorries // Yes Lawd!

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[TEXTO] Alexandre Ribeiro

Casa é sinónimo de igreja? A resposta é sim, se formos Knxwledge e Anderson .Paak. A revelação, que foi feita numa entrevista com a The Fader, em 2016, é, até certo ponto, óbvia: a palavra “Lawd” é uma corrupção de “Lord”, outra designação para Deus, e o produtor esconde nas entrelinhas a sua devoção. Basta prestar atenção aos títulos das canções repescadas: “God Is So Good To Me“, de Gwen Carter, em “Starlite” ou “Lord You’re You My Everything“, de The Thomas Whitfield Company, em “Best One“.

A relação musical do artista anteriormente conhecido como Breezy Lovejoy e KNX começou com um momento de puro acaso: em 2012, no meio dos milhões de vídeos publicados no YouTube, o produtor deparou-se com a versão acústica de “P.Y.P“, canção de uma era pré-fama de .Paak. Tudo isto terminou, como não poderia deixar de ser, numa remistura do talentoso esteta sónico. “Plaiurprt[TWRK_]” fez parte de Hexual.Sealings.Vol.2.5, um dos projectos escondidos na exaustiva discografia existente no Bandcamp de Knxweldge.

O valioso selo da Stones Throw está impregnado em Yes Lawd!, obra-prima de stoner soul, sub-género musical que foi criado propositadamente para este longa-duração e que, muito provavelmente, não voltará a ter mais nenhuma música que encaixe nas suas características tão específicas. Da editora, Yes Lawd! herda o caos de Madvillainy e Donuts – a dupla também recupera “Won’t Do“, tema de J Dilla que fez parte do álbum póstumo The Shining, para a letra de “Sidepiece” – , focando-se mais concretamente nos ecos da arte de Jay Dee: o produtor dos NxWorries pega no legado do produtor de Detroit, na maneira como trabalhava os samples e o balanço rítmico, e aplica-lhe o seu toque fumarento e anestesiante. Com o mestre, KNX partilha também a capacidade de conseguir movimentar-se nos circuitos mainstream e underground em simultâneo, tendo colaborado com artistas como Kendrick Lamar, Joey Bada$$, Earl Sweatshirt, Mach-Hommy, Roc Marciano e Westside Gunn.

 



“Well then get your shit together/Get it all together and put it in a backpack/ All your shit so it’s together/ And if you gotta take it somewhere, take it somewhere, you know?/ Take it to the shit store and sell it/ Or put it in the shit museum, I don’t care what you do/ Just gotta get it together”. Uma parte importante de Yes Lawd! é a camada cómica que é transversal a todo o disco. O excerto do sétimo episódio da segunda temporada de Rick and Morty em “Can’t Stop” é o exemplo mais gritante, mas o instrumental de “Scared Money” a citar abundantemente as bandas sonoras dos anúncios de televisão dos anos 80/90 ou o diálogo de “Jodi” são igualmente testemunhos dessa necessidade de não se levarem totalmente a sério.

Do lado de Brandon Paak Anderson, é impossível não reparar no à-vontade com que abordou este longa-duração. O desempenho em Yes Lawd! é bastante superior ao que ouvimos em Malibu, álbum a solo que também foi editado em 2016. Ao longo das 19 faixas, a entrega vocal varia consoante o que é pedido em cada tema e atinge momentos absolutamente deliciosos, como por exemplo na segunda parte de “Starlite”, uma alteração para um registo mais grave que acontece durante meros segundos e que nos apanha totalmente desprevenidos. Se amar também é admitir que errámos, não existe dúvida que .Paak mostrou-o da melhor forma: “Hey, got damn, bitch, they playing our song/ I wanna stay with you all night long/ Forget every single word I’ve said, I was dead wrong”.

 



“Suede”, um dos temas que migrou do EP Link Up & Suede, editado em 2015, é a prova de que a música que “sampla” pode ser tão boa como a canção “samplada”. Knxwledge desacelerou “The Bottle“, clássico maior de Gil Scott Heron & Brian Jackson, aplicou-lhe um filtro lo-fi, qual instagrammer profissional, e deixou o resto para o sedutor irascível .Paak que neste tema exibe o seu lado mais arrogante para deixar qualquer senhora pelo beicinho. E o vestido de camurça no chão do quarto…

Feitos um para o outro, o cantor e o produtor só poderiam acabar juntos numa orgia musical que só seria permitida na igreja se se traduzisse em êxtase espiritual ou se estivéssemos em pleno Apocalipse. Quer dizer, é capaz de existir oportunidade para tocarmos este disco num espaço religioso quando Kanye West decidir abraçar o Yeezus que existe em si. Afinal de contas, foi Yeezy quem disse, em “Hell Of A Life“, que vagina e religião são as únicas coisas que precisa, ecoando a “sanctified pussy” que o mestre Marvin tão bem pregou…

 


Alexandre Ribeiro

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