Gang Starr // Moment of Truth

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Só para que não restem quaisquer dúvidas, logo nos primeiros segundos de Moment of Truth, antes ainda do clássico “You Know My Steez” se começar a fazer ouvir garantindo que estamos todos perante “the real hip hop” — como se fosse preciso sublinhar o óbvio… –, Guru esclarece, num claro assomo da ideia que defende que no princípio está o verbo, que nada mudou: “We have certain formulas but we update em (oh right) / With the times and everything y’know / So y’know the rhyme style is elevated / The style of beats is elevated but it’s still Guru and Premier / And it’s always a message involved”.

Por esta altura, os Gang Starr eram um dos mais respeitados nomes do panteão hip hop. Moment of Truth, lançado a 31 de Março de 1998, era o quinto álbum de uma muito celebrada discografia iniciada quase uma década antes com No More Mr. Nice Guy (1989) e dilatada depois com uma das mais imbatíveis sequências dos anos 90: Step in the Arena (1991), Daily Operation (1992) e Hard to Earn (1994) funcionam como um tríptico que contém a alma, a verdade, a identidade do som subterrâneo de Nova Iorque, resguardando a pureza numa era em que a Costa Oeste dominava as atenções e as tabelas de vendas exportando para o resto do país — e para o mundo — a sua ideia de “gangsta rap”: tanto The Chronicde Dr. Dre, como The Predator, de Ice Cube, saíram em 1992 e registaram vendas na ordem dos milhões de cópias, feito que Guru e Premier nunca lograram alcançar enquanto Gang Starr.

Mas se 2Pac ou Snoop Dogg eram, na Costa Oeste, vulcões em erupção, capazes de expelir lava incandescente a enormes alturas, os Gang Starr, a partir de Nova Iorque, eram autênticas placas tectónicas, movendo-se lentamente nos subterrâneos da própria Terra, com a capacidade de alterarem o desenho dos continentes rap que viriam a assentar em cima da sua obra: nem Nas — em Illmatic de 1994 ou It Was Written de 1996 — nem sequer Jay-Z – em Reasonable Doubt de 1996 ou In My Lifetime Vol. 1 de 1997 — dispensaram toques generosos da arte de DJ Premier no arranque das suas carreiras sabendo, sem sombra de dúvidas, que ter um beat do mestre nos seus trabalhos equivalia a uma fundamental injecção de segurança e credibilidade que nenhuma carreira em fase de arranque deveria dispensar. E ambos hão de certamente ter estudado os esquemas rimáticos de Guru enquanto procuravam refinar a sua própria identidade enquanto MCs.

É ainda importante perceber que tal como as cúpulas, as penthouses, de Nova Iorque não dispensavam a refinada fórmula musical que Premier foi apurando no laboratório dos seus Gang Starr, também as caves, os subterrâneos mais esconsos, não deixavam de procurar a luz que emanava da sua arte, com gente como os Group Home ou Jeru The Damaja a fazer depender as suas estreias — Livin’ Proof (1995) e The Sun Rises in the East (1994), respectivamente –, quase em exclusivo, da matéria prima conjurada por Premier nos D&D Recording Studios e afirmando-se, dessa maneira, como parte integrante da família Gang Starr.

Chegados a 1998, os Gang Starr comandavam respeito, portanto, mas não necessariamente as vendas que traduziam confortáveis passeios pelo topo das tabelas. Eram sem dúvida reconhecidos pelos seus pares — os De la Soul, em “Bionix”, haveriam de garantir a sua verdadeira filiação quando declararam “if I had to join a gang I think I’d join Gang Starr” — mas não acusavam no radar comercial da indústria, com nenhum dos seus primeiros quatro álbuns a ter alguma vez furado o Top 20 da Billboard 200 e apenas Hard to Earn a ter atingido a segunda posição nas tabelas de R&B, nada que garantisse uma reforma dourada nos trópicos a Preemo ou Guru. Em conversa tida aquando da histórica passagem pelo clube Mercado, em Lisboa, em 2006 (e que podem reler aqui mesmo no ReB), Premier garantia que eram outros objectivos que faziam os seus Gang Starr mover-se: “Quando os Gang Starr apareceram não havia dinheiro no hip hop. As motivações das pessoas eram diferentes. Mas hoje o hip hop é uma indústria, uma das maiores no mundo do entretenimento, e as regras do jogo mudaram”, explicava então o DJ e produtor. “As corporações interferem mais na própria arte, pedem aos artistas para mudarem a música de acordo com o que o público quer ou pensa que quer. E os artistas cedem porque não querem perder a mansão de dez milhões de dólares. Eu recuso esse estilo de vida. Recuso-me a seguir a tendência, seja ela qual for. Eu sou um criador, não um seguidor”.

Um criador, não um seguidor. Certíssimo. E em Moment of Truth, Premier, juntamente com Guru, criou aquele que é, provavelmente, o mais alto momento de uma discografia que nunca chegou a descarrilar e que não tem realmente momentos baixos e descartáveis.

É sintomático que neste momento da verdade seja a voz de Keith Elam que se começa por ouvir. Por muito que Premier pudesse ser requisitado tanto pela elite como pelos jovens leões do underground de Nova Iorque, era como sustento das rimas de Guru que os seus beats mais conseguiam brilhar. E mesmo sem ser dotado das mais refinadas capacidades de flow de um Nas ou Jay-Z, Guru nunca deixou de impressionar na escrita, talvez porque ele mesmo tivesse uma noção aguda dos seus próprios limites enquanto performer. E a mensagem, que, como clarificou, qual declaração de princípios, logo no arranque do álbum, era clara e omnipresente: “So many people searching for false bliss / I’m here with the skills you’ve missed / The rejected stone is now the cornerstone / Sort of like the master builder when I make my way home / You know my steez”. Por esta altura, sim, já todos conhecíamos bem — e amávamos profundamente… — o estilo de Gifted Unlimited Rhymes Universal, Guru para tantos que lhe seguiam, palavra por palavra, as ideias e as histórias. E ideias e histórias são coisas que não faltam em Moment of Truth.

Se em “You Know My Steez” Guru começa por re-afirmar a posição dos próprios Gang Starr, logo no tema seguinte, o excelente “Robin Hood Theory” (e uma nota de apreço especial por um grupo que foi capaz de polvilhar pela sua discografia títulos com palavras como “theory”, mas também “knowledge”, “concentration”, “intelect”, “comprehension”, “meaning”, “soliloquy”, “brainstorm”, “manifest”, “lesson”, sinais claros de que o rap podia ser tanto terreno de acção como de pensamento), Guru aproveita para educar uma geração — ou pelo menos os elementos que escolhessem escutá-lo — colocando no arranque do tema um diálogo com Elijah Shabazz em que se garante que, independentemente da educação religiosa de cada um, a sabedoria é fundamental. Guru complementa depois a ideia, com uma das suas mais refinadas performances: “Now that we’re getting somewhere, you know we got to give back / For the youth is the future no doubt that’s right and exact / Squeeze the juice out, of all the suckers with power / And pour some back out, so as to water the flowers / This world is ours, that’s why the demons are leery /It’s our inheritance; this is my Robin Hood Theory”. Porque, como garante uns versos depois, se não tivesse optado pelas palavras, Guru estaria envolvido noutro tipo de gestos: “If I wasn’t kickin rhymes I’d be kickin down doors”.

Este é um daqueles discos que vale a pena ouvir com o Genius aberto, com cada palavra a merecer mais profundo escrutínio para se entender a real profundidade das ideias aqui expostas. E da diversidade de convidados — ao longo das 20 (!!!) faixas ouvem-se pessoas como Inspectah Deck, os M.O.P., Big Shug e Freddie Foxxx ou Scarface, para citar apenas alguns – resulta também a força da entrega de Guru, sólido como a pedra fundacional que ele cita logo no arranque do álbum.

 



Musicalmente, porém, Moment of Truth brilha ainda mais intensamente. Ao quinto álbum — e depois das múltiplas experiências tanto acima como abaixo da superfície do imenso oceano de talentos de Nova Iorque — Premier tinha destilado uma fórmula imbatível, continuamente imitada, mas nunca realmente igualada: as suas baterias, a forma como cortava e combinava os diferentes samples, a sofisticação de alguns dos seus arranjos — ou a transparente simplicidade de outros — carregavam uma nítida marca autoral que o distinguia de outros estetas da sua cidade como Pete Rock ou Marley Marl, por exemplo. Preemo parecia gostar mais de cordas e de pianos — por oposição aos metais favorecidos por Pete Rock — e foi capaz de erguer uma linguagem própria no sampler, desenvolvendo uma estética específica de forma a confundir os guardiões dos direitos de autor que por esta altura já tinham começado a ouvir clinicamente cada álbum de hip hop em busca de potenciais processos judiciais que se pudessem traduzir em avultadas somas. Tal gesto levou Premier a reagir e o discurso no final de “Royalty” é dirigido aos que, por um lado, editavam compilações com os originais samplados pelos mestres, identificando cada produtor que tinha usado essas até então mais ou menos obscuras pérolas funk ou jazz, e, por outro, aos que, dentro do próprio hip hop não entendiam que ser citado via scratch no “hook” de um tema era, antes de mais nada, declarada homenagem e parte do próprio DNA do hip hop.

Ou seja, os Gang Starr sempre foram capazes de equilibrar a dupla condição de falarem para as ruas, de educarem as ruas, mas também de produzir discursos para dentro da própria cultura, usando cada um dos seus discos como espaço de pensamento, de reflexão e de codificação moral do próprio hip hop. Preemo e Guru nunca enjeitaram a condição de grilos falantes da cultura, de consciência de uma arte que defendiam com unhas e dentes, com caneta, papel, sampler e vinil, com ideias e hinos, com bangers e clássicos que se afirmaram resistindo à passagem do tempo. Clássicos do hip hop, clássicos de uma cultura, clássicos de uma cidade, como explicam em “New York Strait Talk”:

“But the competition keeps me on point
That’s why I lamp in the studio composin fresh new joints
From the streets, Medina, Manhattan, Staten, P-Lawn
The struggle continues, everybody wants to be on
The rat race, makes this lifestyle fast paced
I’ve loved it since the days of fat shoelace
Screwface me all you want, but I’m used to it
I’ll never give up rep in New York, I’m true to it
From forty-deuce to Queens, back to East New Yi
We takin no shorts, and plus we showin no pity
Bright lights, big city and the dark alleyways
New York, we get the money all day everyday”

Passaram 20 anos, mas parece que foi ontem. Podem voltar a carregar no play

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu