Blasph & Beware Jack //OPROCESSO

beware


[TEXTO] Francisco Noronha

Comecemos pelo princípio – não apenas por facilidade de exposição, mas porque o “Intro” de OPROCESSO assim o exige. De facto, a primeiríssima faixa é todo um statement sobre o álbum e o significado e amplitude do seu título. O que é, então, o “processo”? A resposta não é certa, não é de “sim” ou “não”, justamente porque qualquer processo é um trabalho em permanente desenvolvimento (work in progress), um learning-by-doing constante, uma auto-descoberta que faz de cada etapa alcançada simplesmente um novo ponto de partida, de cada conclusão a premissa para a próxima. “Troca os pontos de interrogação pelo processo… (…) Não arquives, estuda o processo!” é o apelo com que o álbum dá as boas-vindas ao ouvinte.

É este monólogo poético e com o seu quê de misterioso que abre o novo e aguardado álbum que junta Beware Jack (BWJ) e Blasph, rappers que, não partilhando propriamente o mesmo tipo de temas ou abordagens na sua música (mas que partilham a editora Mano A Mano), acabam por conseguir encaixar-se e harmonizar-se sem dificuldade, construindo um álbum que, não chegando a ser brilhante, é sólido e sabe perfeitamente o que quer e a quem quer chegar. Se BWJ e Blasph não são os dois rappers que mais imediatamente nos lembraríamos de juntar para gravar um álbum, o certo é que, nas suas colaborações anteriores (“Modelo Pirata”, “Nuvens Cinzentas”, “Queimar o Sangue”), o resultado foi sempre extremamente positivo, nunca soando estranho ou demasiado contrastante o cruzamento do estilo mais raw (muita punchline) de Blasph com o tratamento tradicionalmente mais cool e poético que BWJ imprime às suas canções (BWJ disse já ao ReB que não é apenas “papel, rima e flow”  e isso é algo que sentimos desde a primeira vez que o ouvimos, embora nem mesmo o seu último e muito meritório projecto orgânico com os Bling Projekt, A Memória de Futuro, 2014, nos tenha feito sentir que ele já chegou onde pode realmente chegar). Recuperando o título do álbum, podemos olhar para este projecto-ponte entre dois rappers distintos exactamente como isso: um “processo” de aproximação, uma experiência musical que se vai fazendo, livre e espontânea ao longo de treze faixas.



 

Olhando para a ficha técnica do álbum, é difícil não verbalizar a expressão “dream team”, já que aos rappers de Odivelas e da Margem Sul se juntam nada mais nada menos do que Kilú (ele que, em 2014, editou Frequência) e Nel’ Assassin (com álbum a sair, tudo indica, ainda este ano), dois históricos, dois “dinossauros” do hip hop português, o primeiro a assinar a produção integral (!) do álbum, o segundo a arranhar os cuts que se ouvem em várias faixas. Aliás, Kilú já tinha mesmo trabalhado com Beware Jack para o brilhante Coisas de 1 Porco (2013) – um dos melhores álbuns do hip hop português e sobre o qual ainda hoje nos penitenciamos por, na altura, não termos tido o tempo desejado para escrever –, produzindo “O Último Grande Junkie” e “Sonhei” (Beware, por sua vez, foi convidado em “Celebrar”, faixa de Frequência), dois fantásticos instrumentais onde o produtor, um dos melhores em Portugal, mostrou o que as suas mãos conseguem fazer com uma MPC. Esse mesmo magnífico boom bap (“Cantinho do Mal”, deliciosamente jazzy, podia estar perfeitamente num dos últimos dois volumes de Jazzmatazz, por exemplo) que perpassa todo OPROCESSO (ainda assim, com uma tonalidade menos soulful do que é habitual em Kilu). Quanto a Nel’Assassin, a sua quase omnipresença faz d’OPROCESSO um álbum inegavelmente oldschool, melhor dizendo, um álbum “de outros tempos”. Lembram-se de Sam The Kid lamentar, em “Quantidades” (com Beto, Pratica(mente), reedição, 2008), “Quantos DJ’s não fazem scratch? Tantos!”? Pois bem, a resposta vem, oito anos depois, neste álbum, no qual o scratch – técnica própria do deejaying, vertente basilar do hip hop a par do emceeing, do breakdance e do graffiti, convém recordar – assume um papel tão ou mais importante que o emceeing ou a produção e uma personalidade – uma “voz” – própria. Este protagonismo é a tal ponto evidente que há mesmo uma faixa, “O Arquivo” (um arquivo de citações ou, se quisermos, de “memórias” de outras canções), exclusivamente entregue às unhas afiadas de Nel’Assassin, deixando o ouvinte a salivar pelo sucessor – em matéria de álbuns, entenda-se, porque o DJ tem-se desdobrado em EP’s e mixtapes – de Reconstrução (2008) (embora ainda seja de Sr. Alfaiate – A Vida na Ponta dos Dedos, 2006, que guardamos melhores recordações). Muitos dos cortes do alfaiate mais famoso do hip hop português que aqui se ouvem fazem ressoar versos de outras canções de BWJ e Blasph, assim se promovendo uma salutar comunicação entre este álbum em conjunto e os seus trabalhos individuais anteriores.

A diferença de abordagens de BWJ e Blasph de que falámos atrás, e a forma como elas encaixam sem estranhamento, são visíveis, por exemplo, nos temas envolvendo mulheres, casos de “Eu & Tu (Yeah)” e “Vulcânica”. Em ambas, ao tom glicodoce e sonhador de BWJ (na senda, por exemplo, de “Mega Cúmplices”), Blasph contrapõe o olhar desconfiado e amargo de alguém que, embora encantado e predisposto a apaixonar-se, mantém uma certa “distância de segurança”, própria de quem, receando magoar-se, está sempre pronto para dar a fuga (Blasph é aquele rapper em quem nos habituámos a imaginar os famosos maxilares do Marlon Brando de The Godfather e isso é algo que um videoclip como este ilustra). Era assim na hipnótica “Eu Sei o Kek Tu Keres” (Frankie Diluvio Vol. 1), onde Blasph, depois de se apaixonar e ser rejeitado, acabava a roubar o Macintosh da miúda, e é também assim em “Eu & Tu (Yeah)”, onde, depois do flirt inicial que promete muito, acaba a adverti-la: “Queres abanar? Há uma fila para andar / Eu garanto-te, tu não vais querer quilometrar / Desfruta enquanto a minha parte se mostra interessada / Eu sou frio como o Alaska / Fuck a tua madrasta”. O mesmo em “Vulcânica” (que começa com Ana Carolina a cantar “Esperta”, essa mulher “Discreta, faz um charme / Joga duro, tipo nem aí”), instrumental banhado por uma lava borbulhante e sensualíssima no qual Blasph, depois de uma noite de amor tórrido que vira manhã numa cama sem companhia, lamenta com aquele seu tom analasado (sempre a insistência no “éle”, que já é uma autêntica imagem de marca): “Senti a falta do smell da pele (…) / Faz-me sentir um chavél se ficamos em paralél… (…) Achei que fosse frágil tipo cerâmica / Quando na verdade, estava a brincar com uma lâmina”. Segue-se-lhe a muito prometedora voz de Maura Magarinhos, a “Julieta doce e vulcânica” que dá a lição ao Romeu vulnerável: “Na sedução, o homem é peão / E sai quase sempre a perder…”. Vale a pena atentar na sua voz e, sobretudo, nos versos (se forem da sua autoria, a vénia é maior ainda).



Esta (sadia) dualidade entre os dois rappers é visível, a outro nível, nos próprios títulos das faixas individuais que formam o primeiro single lançado (com direito a um videoclip, particularmente feliz, porque genuinamente cinematográfico, nas cenas de BWJ de mota). De um lado, “No caminho do bem” (BWJ), do outro, “Cantinho do mal” (Blasph): bem e mal, céu e inferno, com a curiosidade de o instrumental e a própria letra serem mais sombrios no caso da primeira (dolorosamente poética a forma como BWJ termina). “Johnny Crime” é a balada triste de um gangster – outrora um miúdo como qualquer um, mas desviado pelo ambiente viciado à partida em que cresce, o mesmo miúdo que Blasph já descrevera, por exemplo, em “Modelo Pirata” ou “Respiro” – de uma “Cidade Vígara” da Margem Sul que, como tantas vezes acontece aos criminosos mais temidos (os James Cagneys, os Humphrey Bogarts, os George Rafts deste mundo), morre, com uma simplicidade desconcertante, de um momento para o outro, a sua suposta intocabilidade a desmoronar-se num segundo por uma simples discussão de bola (não tão implausível assim…). A morte, porém, não enterra o mito e por isso mesmo é que BWJ e Blasph lhe dedicam a música – como cantava Kendrick Lamar em “Money Trees”, “Everybody gon’ respect the shooter / But the one in front of the gun lives forever…”. “Jorge Palma”, com um instrumental deliberadamente clownesco, “embriagado”, é, vistas bem as coisas, também uma balada, também triste, mas agora de um bêbedo solitário nas lonas (literal e metaforicamente), e na qual Nerve assome para dar o seu costumeiro recital desconcertante, aqui com a engraçada particularidade de ir citando alguns dos títulos das canções do homem que dá nome à faixa (“Encosta-te a mim”, “Dá-me lume”).

Num ano que se advinha retumbante para o hip hop português, inclusivamente com o regresso de muitos nomes oldschool (STK e Mundo, Keso, Pro’Seeds, NBC, Alcool Club), BWJ e Blasph assinam um álbum que, não sendo particularmente arrojado ou inovador em relação aos seus trabalhos anteriores, é uma demonstração de solidez e domínio da sua arte, sendo certo que este é um daqueles trabalhos que também valerá muito pelas actuações ao vivo, ou não fossem BWJ e Blasph, além de talentosos rappers, dois excelentes perfomers em palco.


Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e colaborador em várias publicações sobre música e cinema. obosforo.blogspot.com.