Virtus // UniVersos

virtus review

 

[TEXTO] Francisco Noronha

Quando se pensou na republicação desta crítica aqui no Rimas e Batidas (originalmente publicado no site Rua de Baixo, em 2012), cheguei a equacionar reformulá-la. Mas não, decidi não o fazer (exceptuando pormenores de ordem formal): as coisas – as memórias, os gostos, os gestos – têm o seu tempo e, se aconteceram de determinada forma, é dessa forma que devem ser preservadas, para o bem e para o mal (motivo pelo qual ficam desde já ressalvadas quaisquer desactualizações).

UniVersos, quanto a mim um dos mais importantes discos da música portuguesa da última década (e se emprego este tom generalizante, é absolutamente propositado), já completou quatro anos. Muitas vezes, perguntam-me que razões encontro para o álbum ser pouco ou nada falado a sul do país (tenho muitos e bons amigos  dessas paragens ouvintes de rap que o desconhecem em absoluto). Duas, talvez: o facto de que, em 2012, o hip-hop não estava, nem de perto nem de longe, “a bater” como hoje (meu deus, como as coisas mudaram em apenas quatro anos…); depois, porque Virtus e o seu rap são “de outro tempo”, i.e., não se alimentam de “likes”, “hashtags” e “visualizações”. Os beats e, sobretudo, as letras de Virtus são matéria sensível, cuja apreciação exige tempo, atenção, reflexão. Por isso, caro leitor, se não tem tempo, não vá por aqui, não vale a pena.

Hoje, se me debruçasse sobre a mesa, faria uma crítica completamente diferente da que então escrevi, quer na forma, quer, sobretudo, no conteúdo (designadamente, não traçaria um paralelo, em termos liricais, entre Virtus e Sam The Kid). Não só porque, em 2016, sou necessariamente uma pessoa diferente da que era em 2012 (e, naturalmente, penso e escrevo igualmente de outra forma), mas, também, porque hoje escuto e olho para UniVersos de outro ângulo, naturalmente mais amadurecido em virtude das múltiplas – coloquem o símbolo do infinito como expoente – audições que fiz do álbum nos mais variados contextos: em casa, na rua, no carro, no comboio; sozinho ou com outros apreciadores (Tavares, quantas noites por baixo do prédio a escutar e a reflectir em conjunto pela madrugada fora…); mostrando-o a pessoas que não conheciam ou que nem sequer são consumidores de hip-hop; no Porto, em Lisboa, no estrangeiro; numa tarde quente de praia ou numa sombra junto ao rio no Gerês… UniVersos é, juntamente com Pratica(mente) (e esta coincidência não há-de ser puro fruto do acaso…), o disco que mais escutei na minha vida.

Volto ao início: mas não. Quero que, hoje, quem ler esta crítica a leia como eu na altura senti o disco, com todas as virtudes e defeitos daí decorrentes. Ainda sobre o paralelo com Sam The Kid: compreendo agora que, à data, só o fiz porque, dentro das minhas referências pessoais, era o único nome do hip-hop português que eu encontrava para, utilizando o efeito reverencial da citação, provar a grandeza de Virtus e chamar a atenção dos mais distraídos. Todavia – e um crítico devo ter isto sempre presente –, é sempre a música que fala acima de todo e qualquer exercício analítico, é sempre a música que está primeiro. Por isso, nenhuma crítica deste mundo ilustrará melhor a erudição, o autorismo, a poética e o génio de Virtus do que a sua obra – algo que a classificação que aqui lhe atribuo, a primeira que alguma vez na vida dou a um disco, procura atestar. UniVersos, Uni-Versos, União de Versos: se é certo que é no recato de casa que se digerem verdadeiramente as grandes obras, que isso não impeça ninguém de ouvir o concerto-“despedida” do álbum no dia 11 de Novembro, no Plano B, no Porto. Sim, despedida, porque 2017 está aí à porta e Virtus trará, tudo indica, novidades das boas.

***



 

Os fãs de Sam the Kid podem ficar descansados: o rapper e produtor de Chelas tem um legítimo sucessor a norte do país, mais precisamente na cidade do Porto. Dá pelo nome de Virtus (aka João Rodrigues), tem um dedo refinado na produção e compõe letras que, sem cair em exageros, não nos lembramos de ouvir há muito tempo (para não dizer nunca) no hip-hop português. É tudo conferível em UniVersos, álbum independente lançado no início deste ano com selo da Sexto Sentido.

Virtus é um caso sério na música portuguesa da actualidade e a falta de atenção mediática só se explica pelo desconhecimento e desinformação a que grande parte do hip-hop (alternativo e não só) continua votada (embora os últimos álbuns de Halloween e Kacetado tenham merecido algum destaque na imprensa). A devoção e mestria que Virtus põe em cada verso já vinham do seu EP anterior, IntroVersos (2008), mas a maturação na escrita e na produção atingem o ponto rebuçado em UniVersos, álbum onde inexiste uma faixa menos boa e em que tudo é pensado ao pormenor. Este cuidado e carinho, quase artesanais, na produção global do álbum (tal como Sam the Kid, Virtus canta e produz integralmente a sua música) – e que fazem transparecer uma verdadeira declaração de amor à música – é, aliás, um dos pontos em comum com Samuel Mira. Também em UniVersos se pressente esse perfeccionismo de filigrana, em que não há ponto sem nó e tudo é harmonia. Esse amor à arte, manifestado na preocupação do criador com a criação – presente, no músico de Chelas, em “À procura da perfeita repetição” (para não falar no álbum Beats Vol. I – Amor, composto exclusivamente por instrumentais) – é notório, no disco do portuense, em faixas como “De que forma” (magnífica) ou nos interlúdios de “À Sombra” e “Mais Nada Além de Ser”.

Mas se há aspecto onde a convergência entre o rapper do Porto e o de Lisboa é mais visível, ele prende-se com o pendor acentuadamente introspectivo e poético da escrita de Virtus, da qual sobressai uma atmosfera existencial profundamente marcada por interrogações sobre a presença do homem (ele mesmo, Virtus) no mundo, suas relações e afectos e as angústias da grande urbe moderna. É assim em “Excepções”, “Perdidos & Achados” (um beat roubado aos melhores anos do hip-hop, os 90) e, acima de todas, “Caminho de volta” (com videoclip), faixa de uma profundidade inaudita onde avulta o desdobramento de personalidade pessoano e espécie de night diary no qual um jovem questiona os rumos tomados na vida, a relação amorosa com a mulher que ama e a quebra da tradição monogâmica (“Eu amo / mas a noite questiona a minha existência”). E por falar em crescimento, a nostalgia da infância e o medo de ser adulto – síndrome Peter Pan – são temas recorrentes em UniVersos, designadamente, em “Outros Modos” (com Minus) ou “Datas”.

 



Também o discurso de intervenção está presente, mas com uma especificidade fundamental: é que, tal como no registo mais introspectivo, também aqui Virtus usa e abusa de um alto nível de abstracção poética na narrativa. Ou seja: se quiserem coisas clarinhas e fáceis (“o sistema é uma cambada de ladrões”, etc.), não vão por aqui; se quiserem abanar a cabeça e pensar (sim, as duas coisas são possíveis, por mais que o hip hop contemporâneo o negue!), então, ficarão certamente a reflectir depois de escutarem “Só mais um pouco” (beat a evocar as sonoridades mais austeras dos Dealema), “Às Escuras” ou a monumental “História de Todas as Histórias”, autêntico tratado de realismo social (com direito a uma citação implícita de Gabriel García Márquez), onde o olhar aguçado e pessimista de Virtus se foca sobre a condição social como factor determinante da existência humana, naquela que é uma leitura determinista por excelência, tributária, por exemplo, de um Sam The Kid (“Realidade Urbana”) ou de um Valete no seu registo mais engagé. Tal como Sam The Kid (“Não Percebes”, “Poetas de Karaoke”) ou Mundo Segundo, o rapper da Invicta não foge ao discurso pedagógico virado “para dentro”, isto é, de sensibilização, junto da comunidade hip-hop, dos verdadeiros valores que este deve preservar como cultura. Essa preocupação, tão comum neste meio – e que surge como reacção natural à degradação promovida pelo chamado gangster rap –, manifesta-se, por exemplo, em “Algo a dizer” ou “É Só Artistas” (“Não me falem de crise musical, vocês estão doidos / Vi que 50 cêntimos deu para dividir por todos”).

Depois, há momentos pontuais brilhantes, como o típico registo back in the days em “Diferença” (que evoca, explicitamente, Alberto Caeiro e termina como Sam The Kid termina «Beleza Interior»), a misteriosa “Figuras Públicas”, o prazer do rap pelo rap (“O Tema”) ou a divagação reflexiva em “Até Sempre” (introdução de Sophia de Mello Breyner e citações explícitas de Herberto Hélder e Orfeu) e “Post Scriptum” (onde o registo abstracto atinge níveis superlativos).

 



A erudição, os jogos de palavras e a perícia no manusear de um vasto arsenal de recursos estilísticos (metáforas, imagens, hipálages, aliterações, diáforas) têm correspondência na composição musical, o que faz de UniVersos um dos mais requintados álbuns que o hip-hop português já conheceu. Não se limitando aos samples, ora mais vigorosos (numa sonoridade que nos habituamos associar ao hip hop da velha escola portuense – Mind da Gap, Dealema, etc.), ora mais jazzísticos (“Afinal”, “Outros Modos”), Virtus reúne momentos ao piano, linhas de guitarra, baixos ou sopros (atmosfera orgânica que lhe advém, ao que sabemos, da sua formação musical).

A riqueza incalculável que este álbum encerra, e o contributo decisivo que ele dá para a maturação do hip-hop nacional, não vão, decididamente, ficar resolvidos com esta crítica. Se vivêssemos num país em condições, onde o hip-hop fizesse parte da actualidade cultural como qualquer outro género musical (E.U.A.), correriam rios de tinta na imprensa (especializada ou não) sobre UniVersos. Por isso, caro leitor, enquanto isso não acontece, faça como nós: oiça as faixas que estão disponíveis no YouTube e, se gostar, adquira o produto. A música portuguesa agradece.

Francisco Noronha

Jurista, investigador universitário e colaborador em várias publicações sobre música e cinema. obosforo.blogspot.com.

Latest posts by Francisco Noronha (see all)