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Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados

10 opções, 10 caminhos.

#ReBPlaylist: Junho 2020

Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados

20 de Junho, início do Verão 2020. Tudo parece diferente, se compararmos com os anos anteriores, quando se adiciona um vírus difícil de controlar e contrariar ao calor normal da época. E não se esqueçam do factor medo. Para alguns, claro, enquanto outros fazem a sua vida como se nada se passasse. Mundo estranho, cada vez mais, diga-se.

A alinhar nessas energias completamente desequilibradas que se sentem, a equipa ReB traz frequências bastante diferentes como bass music, trap italiano, rap-trips à moda do Porto, pop barroca filtrada pela electrónica esculpida na periferia de Lisboa ou dub-rock made in Houston, Texas. Sintonizem onde quiserem.


[Negative808] “Jack Swing”

Vivemos tempos especiais na bass music, que não só voltou, como expandiu influências bem além do Reino Unido que a viu nascer. Um dos porta-estandartes da sonoridade na Ásia é a editora de Pequim, Ran Music, que este mês voltou às edições com um pequeno compêndio de singles de artistas de Leipzig e da própria capital de “Mainland China”, editados ao longo do último ano e compilados sob o epíteto Ran Rad Series Vol.1.

Negative808, um dos artistas chineses a figurar neste EP digital, avança com ritmos quebrados e ondas de sintetizadores que impõem o andamento sobre a secção percussiva. Esta relação pinta um eixo entre uma rave do sul de Londres e um set numa cave berlinense, sendo o ponto de encontro esta tensão rítmica de lugar nenhum. Para ouvir, escutar e dançar com a cadência que mais convier ao leitor. Nós sugerimos que se experimentem todas as possibilidades, claro.

– André Forte


[Paky] “In Piazza” feat. Shiva

Há uma revolução a acontecer no norte de Itália, mais precisamente em Rozzano, Milão, liderada por Paky, o novo fenómeno da cena trap italiana. Nascido em Nápoles, o artista traz no sangue a herança da Camorra para erguer à sua volta um império que transcende o hip hop. 

O rapper napolitano surgiu com “ROZZI” como primeira aparição oficial, reunindo no vídeo da respectiva faixa um exército de soldados equipados com ténis e fatos-treino, prontos a deixar bem claro que não é o rap que faz o bairro, mas sim o contrário. De resto, este tem sido o elemento indispensável em qualquer lançamento audiovisual de Paky, e “In Piazza” não podia fugir à regra (mesmo em tempos em que se exige o distanciamento social): a força deste prodígio está alicerçada nos inúmeros indivíduos que partilham vãos de escadas em prédios a perder de vista. É a materialização do igualmente real filme documental Selfie, gravado em 2019 por dois jovens de Nápoles apenas com um telemóvel. 

“In Piazza” junta mais uma vez Paky a Shiva, que já tinham colaborado em “Tuta Black”, ambas produzidas por Kermit, e cujas fardas se mantêm na mesma tonalidade. A linha sonora não foge a uma estética familiar no campo do trap mais agressivo. Os temas também não são novidade – versam aquilo que os autores vivem. Nada que não tenhamos visto e revisto em múltiplos artistas, essencialmente nos Estados Unidos da América, mas também no cenário francês sob a mesma forma, adaptada obviamente à devida realidade. 

Ainda assim, Paky não deixa de surpreender, mesmo sem inovar propriamente. E com mais de um milhão e meio de visualizações no último par de semanas, o embaixador da Puma tem cavalgado por Itália a uma velocidade estonteante e digna do patrocínio que ostenta. É uma bota que lhe assenta na perfeição, tanto a da marca como a do seu país, e o fascínio que provoca prende-se pelo facto de exacerbar tudo aquilo que o rodeia sem exageros ou falsas representações. Tal qual um mafioso, este gangster dos tempos modernos esfrega-nos na cara a crua realidade que o moldou, e faz dessa mesma realidade motivo de orgulho e glorificação. Do bairro para o bairro – esse é o verdadeiro gangsta rap. 

Desta forma, divide em “In Piazza” a dualidade de planos entre um parque de estacionamento, no qual se encontra rodeado por uma multidão de fiéis companheiros, e a torre de telecomunicações de Rozzano, onde se encontra apenas acompanhado por Shiva, com quem partilha o topo das conquistas observando a cidade do alto do próprio sucesso. 

É mais uma biqueirada ao ângulo deste estreante num jogo que rapidamente dominou. Enquanto não se aventura num projecto longo, Paky vai somando as milhões de visualizações arrecadadas em menos de um ano, esgotando merchandising numa questão de horas, e esgotando concertos pelo país fora (quando ainda os podia dar). Afinal, o país que concebeu este subgénero do hip hop não deve nada a este miúdo dos subúrbios, e talvez muitos dos rappers expostos ao massivo mercado americano tenham alguma coisa a aprender com o novo ícone italiano em ascensão. Querem ver que o império romano é curto para este mercenário? Uma coisa é certa: Paky está pronto para vingar no circo das feras. 

– Paulo Pena


[AZIA] “BedTrip”

“Aquela noite em Porto Covo parecia um filme do Lynch” é a primeira dica de AZIA nesta “BedTrip”. De forma consciente ou nem tanto, magicou a malha nesse mesmo ambiente, com a mesma matéria dos sonhos que compõe o Mulholland Drive. Esta exploração sonora de uma bad trip leva-nos para os meandros da perda de noção na realidade. Tudo são vislumbres e sombras, como num pesadelo pouco nítido. Esta sensação de  desequilíbrio expressa-se tanto na música como no vídeo, realizado pela própria, mas é no som que tem mais força. 

Estes poucos minutos têm uma vontade perversa de desnortear o ouvinte, e isso é fresco. AZIA consegue fazê-lo sem tornar a música inacessível. No malabarismo entre o catchy e o surreal, a artista fecha “BedTrip” com uma dica que os transporta em igual medida: “Fodes sempre o Natal a toda a gente”.

A MC e produtora deu os primeiros sinais de vida com um beat composto para o Beat Contest do Natal da Marginal , no ano passado. Desde então fez vir à tona três temas através da Paga-lhe o Quarto, todos eles criações inquietas. Ficamos curiosos para ouvir mais.

– Gonçalo Tavares


[David Bruno] “Festa da Espuma”

David Bruno já nos levou a dançar um tango pelas ruas de Mafamude, mas desta vez o destino é a discoteca Auritex e uma “Festa da Espuma”. O tema que antecede Raiashopping — o seu terceiro longa duração em três anos — continua a exploração sónica mais electrónica iniciada o ano passado pelo artista gaiense em Miramar Confidencial. E após termos aprendido que não há nada mais sedutor que um homem financeiramente responsável, hoje estamos prontos para saltar para o centro da pista de dança, com ou sem licra da Cofides.

Marcos Duarte está de volta aos deveres de guitarra, e os seus licks e riffs de timing certo fazem-se ouvir pela mistura sonora entre synthpop e “Macarena” que nos introduz à música. A bridge traz o curto refrão e um (des)convite: “Dança comigo Hélder o Rei do Kuduro”. A voz de David Bruno é o mote para a batida ganhar mais andamento e trazer a festa para a festa da espuma. A letra é proferida de forma insistente, um pedido que a pessoa de body Lacatoni certamente não vai recusar. E para todos aqueles que a invejam, não desesperem: temos álbum novo no primeiro dia de Agosto.

– Miguel Santos


[Sudan Archives] “Glorious” (Nídia Remix)

Os singles são pequenos subornos à memória, quando o tempo carcome o brilho inicial do álbum. No caso da violinista e cantautora Sudan Archives, “Confessions” e “Glorious” foram os mensageiros das lições de Athena. Usam o violino como alavanca para hinos autênticos (uma espécie em menor número nesse disco angustiado, em que a poesia compensa a regressão na originalidade dos EP anteriores). Dois títulos de imortalidade, com vida prolongada já por remisturas de Velvet Negroni e Nídia.

Ao agarrar “Glorious”, a estrela da Príncipe Discos conserva a propulsão rítmica, mas desfaz a pop barroca do original. Sai o ostinato de violino, entra outro da sua autoria, com as sirenes estroboscópicas do seu novo EP. Os estilhaços do bombo e da pandeireta são prenúncios da bomba que se segue, a milhas da meditação de Não Fales Nela Que a Mentes e as reflexões furiosas de Athena: esta é a própria fúria!

– Pedro João Santos


[Kanye West] “Wash Us In The Blood” feat. Travis Scott

Cenas de polícia, GTA e ainda “sampling” de um (excelente) excerto do vídeo de “ELEMENT” de Kendrick Lamar marcam o experimental e icónico novo videoclipe Arthur Jafa, cinematógrafo que tem focado o seu trabalho na cultura negra. Redenção é um tema pesado, nem todos o escolhem abordar com optimismo e leveza.

Apontar para Yeezus como referência sónica de “Wash Us in the Blood” pode ser uma solução preguiçosa para caracterizar timbres mais agressivos e próximos do industrial, mas aceita-se, até certo ponto. O sintetizador que segura o instrumental podia, no entanto, ser a junção entre “Tommy” de Tommy Genesis com uma qualquer batida de Big Fish Theory de Vince Staples — particularmente groove e timbres de “Homage”.

O primeiro avanço de God’s Country alicia-nos para campos com produção, ritmo e versos mais ríspidos em comparação com o que Kanye West tem vindo a habituar-nos desde ye — até se aproxima mais da energia usual de Travis Scott. Mas em “Wash Us in the Blood” há algo que conjuga culpa, celebração, pecado, perdão e salvação. Kanye sempre se deu bem a descobrir a terra de ninguém. ye JESUS IS KING foram um “passo atrás” (no sentido em que usou técnicas e estilos que já tinha explorado em álbuns anteriores — e com resultados mais satisfatórios). Resta saber se God’s Country, como sugere o single, significa “dois passos em frente”.

– Vasco Completo


[Dua Saleh] “body cast”

Junho foi um mês quente. Em pleno cenário de pandemia, o final de Maio fez as temperaturas disparar com o homicídio de George Floyd, nos EUA. Seguiram-se manifestações e tumultos um pouco por todo o mundo, certamente catalisados pelo desgaste psicológico a que todos temos estado sujeitos graças ao confinamento e medidas de restrição em prol do combate ao COVID-19. A arte, em especial a música, não deixou de levantar o braço e fazer-se ouvir neste cenário de injustiça e desigualdade racial e foram muitas as propostas dentro desse registo que por cá fomos dando conta. Mas ir na onda do momento e tentar materializar raciocínios num curto espaço de tempo pode ser tarefa difícil. Que o diga J. Cole, por exemplo.

Fora do alcance dos holofotes, Dua Saleh fez um trabalho irrepreensível. “body cast” é uma canção pop de impacto instantâneo: o beat é minimal, perfeito para a capacidade vocal da jovem americana se fazer sentir na sua plenitude, mas com pormenores ao nível da dinâmica da secção de ritmo, limadas na perfeição, que nos prendem no seu balanço; a letra é a cereja no topo do bolo para os mais cépticos, que entenderam o peso de performances como as de “War Pants” ou “Sugar Mama” mas sentiam ainda a falta de atestar o jogo de caneta e flow de Saleh, que é claramente um produto do hip hop; temos de situar, obrigatoriamente, o vídeo neste quadro de poucos meios para a criação de conteúdos fora de quatro paredes, e mesmo assim, só com recurso a um iPhone e a jogar contra o tempo para não perder o ímpeto, ganhando a cotação máxima pelo conceito, simples e eficaz, de um passeio por um terminal ferroviário que parece infinito durante a sua caminhada de dois minutos e meio.

– Gonçalo Oliveira


[ProfJam & benji price] “TRIBUNAL”

Há uma sugestão afadistada no sample da guitarra e no auto-tune que adorna a voz que se esconde na sub-cave da intro de “TRIBUNAL”, tema em que benji price assume a dianteira e em que se canta “Se hoje for a tribunal/ sei o que valeu o ouro/ pelo qual troquei o couro/ nunca quis o mal/ sempre lhe fechei o olho/ nunca misturei o joio/ fiz do trigo pão/ eu peço que pese o meu esforço/ a quem estiver sentado no trono no meu juízo final/ senão o que serão os louros”. Esta introdução é forte e é em tom igualmente carregado que ProfJam, com skill mais afinado do que o motor de um Fórmula 1 em dia de grande prémio, confirma que quer ir “para um mural como um Banksy”. Na verdade, ele já lá está, no mural dos nossos GOATs. 

Esta faixa é um dos pontos altos de SYSTEM, álbum que benji e Prof ofereceram ao mundo sem aviso prévio e que dissecaram em entrevista ao Rimas e Batidas. Em “TRIBUNAL” encontram-se bem representadas todas as qualidades do álbum: a batida é tão discreta quanto funcional, tão memorável como dramática; há um hook que serve tanto para quem contemplar por alguma razão a eternidade como para quem tenha que comparecer, ao lado do advogado, na Boa Hora; e há barras, muitas barras. Esculpidas até ao mais ínfimo detalhe, com poesia e moral, com verdade e fantasia, com arte e com elasticidade plástica suficiente para permitir que os dois MCs as entreguem com o flex natural de quem tem argumentos muito acima da média. São técnicos, sim, mas têm um coração cheio que bate bem perto do pendente que remata o ouro pelo qual têm dado o couro.

– Rui Miguel Abreu


[Don L] “kelefeeling (verso livre)”

Já em 2013 Don L era a nossa WWF numa lovesong. “O mundo acaba em plástico e o plástico fica”, cantava em “Plástico”, faixa do seu clássico Caro Vapor / Vida e Veneno de Don L. Sete anos depois, poucas dúvidas restam de que o rapper e produtor brasileiro é um das mais preciosas mentes visionárias, imensamente necessária proteger a todo o custo. “kelefeeling (verso livre)”, o single que lançou no início do mês ao lado de Deryck Cabrera, Nave e Luis Café, volta a mostrar um artista intelectualmente sedutor à procura de um feeling bom por entre rendas inflacionadas, batalhões de programadores e corações à lá carte. Dono de um flow impossível de imitar, Don L regressa no seu “melhor estilo” aos ambientes luminosos e atraentes de um Caro Vapor 2.0, depois de um longa-duração evidentemente mais politizado, Roteiro pra Ainouz, Vol. 3. Uma discografia para ouvir com a ressalva de que os efeitos secundários podem trazer uma vontade impetuosa de mandar foder o mundo.

– Núria R. Pinto


[Khruangbin] “One To Remember”

Nesta correria digital (que também é muito física e real), existem coisas (bastantes até) que passam ao lado. Por isso mesmo, é importante escolher quando parar e, nessas alturas, para onde olhar. Foi num desses momentos de scroll down pelo Facebook que me deparei com um post do Miguel Arsénio, que até já escreveu para o ReB, sobre o novo disco dos Khruangbin, Mordechai, focando a sua atenção em “One To Remember”. Descrever o tema como “Santana em dub” e evocar o nome de Tommy Guerrero (artista que descobri através de um ensaio seu, publicado por aqui, em 2015) foram razões suficientes para que carregasse imediatamente no play — e devo admitir que já tinha rodado o álbum inteiro no dia em que saiu, mas retive zero.

A sétima canção de Hasta El Cielo (2019) é cerveja bem fresca a descer pela goela numa esplanada à beira-mar, vento a bater na cara enquanto se viaja de carro pela costa portuguesa, som de fundo para actividades relaxantes em altura de temperaturas quentes. Poderá não ser tão marcante quanto o título tenta impor, mas é obrigatória em qualquer playlist que remeta para Verão.

– Alexandre Ribeiro

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