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O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #23: Emma-Jean Thackray / Vibration Black Finger / The Comet Is Coming

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Emma-Jean Thackray] UM YANG 음 양 / Night Dreamer

No seu lançamento anterior, que a própria explicou em conversa com o Rimas e Batidas tida em Março último, Emma-Jean Thackray explorou pontos de confluência entre a sua visão do jazz e os moldes britânicos da música para clubes, apresentando tangentes, mais ou menos orgânicas, mais ou menos electrónicas, ao drum n’ bass ou ao house. UM YANG (designação coreana para o yin yang chinês…) é outra coisa.

Acompanhada por Soweto Kinch (saxofones), Lyle Barton (piano eléctrico Fender Rhodes), Ben Kelly (tuba), Dwayne Kilvington (percussão), Crispin Robinson (congas) e Dougal Taylor (bateria), Emma-Jean (ela mesmo em trompete, voz e percussões) apresenta algo de muito diferente dos EPs que até agora nos ofereceu, aproveitando o convite da mesma Night Dreamer que ainda recentemente nos deu o registo do encontro entre os jovens britânicos Maisha e o veterano norte-americano Gary Bartz, para realizar uma sessão live in the studio que, admitiu, é também o cumprir de um sonho: “O estúdio tinha todo o equipamento analógico com que se fantasia e que se sonha poder um dia usar. A mesa de mistura parecia algo que a Uhura usaria. Todos os instrumentos usados são naturais, madeiras e metais, sem plástico à vista, e tudo era para ser percutido ou para ser soprado, tudo analógico. Precisava mesmo que tudo fosse natural e real, porque a música é acerca do universo, acerca da energia de todas as coisas e não há nada mais real do que isso”, elabora Emma-Jean nas notas que acompanham o lançamento deste disco.

Percebe-se, portanto, que se Emma-Jean se tem até aqui apoiado com maior frequência na tecnologia electrónica, isso também se deve a circunstâncias técnicas: na primeira oportunidade que encontrou para colocar um ensemble real num estúdio com capacidades optimizadas para captação e mistura, a trompetista que é igualmente produtora (é ela que, uma vez mais, assume esse papel nesta sessão) não hesitou, entregando-nos um díptico que é uma entusiasmante e reveladora confirmação do seu amplo talento.

“UM” ocupa o lado A, com o reverso a ser preenchido por “YANG” e o conjunto das duas peças espraia-se até aos 19 minutos. E nesse espaço temporal, Emma-Jean Thackray conduz o seu combo orgânico por uma transcendente visão do jazz, claramente fundada na tradição. Se até aqui o seu trompetismo, também por causa da moldura electrónica que o tem rodeado, remete para as experiências eléctricas de Miles Davis (marco que continua presente, com a combinação do cristal do Rhodes e do carácter discursivo do trompete a relembrar os diálogos de Miles com Joe Zawinul, Chick Corea ou Larry Young em Bitches Brew), aqui há também outras referências evocadas, de um lado mais espiritual, por um lado, e mais radicamente livre do jazz, por outro, com a efusiva energia exploratória do colectivo a evocar experiências conduzidas por Pharoah Sanders, por exemplo.

“Tudo tem que se equilibrar”, entoa-se a dada altura, quase como um mantra (que, aliás, recorda o libertário canto colectivo de “a love supreme” que marcou o clássico de John Coltrane), enquanto a música evolui como intrincada filigrana, com os solistas a esquivarem-se entre a densa polirritmia cozinhada pelas percussões, com o sousafone de Ben Kelly a oferecer à massa sonora a âncora de graves que a mantém presa à Terra, qual lastro que impede o balão de ar quente de subir demasiado. E é neste quadro que o saxofone de Soweto consegue exibir todo o seu cromático vigor. A “sobrevoar” essa “massa”, o Rhodes e o trompete cruzam-se em jogos de aproximação e distanciamento, com cada um dos músicos a revelar imaginação generosa, numa sessão que se percebe facilmente ter sido especial: há por aqui real excitação geracional, sobretudo na segunda parte, “YANG”, que abre com uma cacofónica fanfarra que se dissolve até que, ajudados pela marcação do bombo, e pela figura circular proposta por Kelly, se começa a desenhar um quadro de exaltação, de desprendimento, com uma alegria e um prazer que se sentem estarem ancorados no momento, no acto de partilhar um espaço e desenvolver colectivamente uma ideia. No final, os 19 minutos esgotam-se como se tivesse apenas passado um breve instante, como se esta música fosse capaz de dissolver o próprio tempo.

Cara Emma-Jean, já estamos preparados para um álbum. Venha ele, por favor!



[Vibration Black Finger] Can You See What I’m Trying to Say / Jazzman

É, no mínimo, curioso o título deste segundo álbum do projecto Vibration Black Finger, criação do veterano Lascelle Gordon (que integrou os Brand New Heavies no início e, entre várias outras entidades, co-criou os Heliocentric World que gravaram para a Talkin’ Loud de Gilles Peterson na primeira metade dos anos 90): envolvido em múltiplos projectos do que poderíamos apelidar como “swing continuum” (por oposição ao tão debatido “hardcore continuum”…), este produtor e DJ chega agora à etiqueta de Gerald Short após uma “estreia” com Blackism, em 2017, na Enid Records. E com esta edição vem uma pergunta: “conseguem ver o que estou a tentar dizer?”. Conseguimos, certamente, até porque a exposição dos seus propósitos é clara e linear.

Descrito nas lotas de lançamento como “grooves apoiados em beats, improvisações oscilantes, recitações carregadas de soul, audio verité e atmosferas temperamentais. O álbum chega como uma reimaginação pós-hip hop de géneros basilares com uma oração pelo futuro”. (Quase) tudo dito.

O título do álbum é repescado de uma frase do saxofonista alto Marion Brown, o que é imediatamente um grande indicador da era que Lascelle Gordon pretende evocar: “O álbum foi montado nos últimos três anos, não da forma convencional de ir para estúdio com músicos, mas começando com ideias que tinha registado em vários formatos (cassetes, mini discs, DATs e bobines). Também usei gravações de campo”, explica ainda, ajudando a clarificar a referência nas notas ao cinema verité…”.

Com o apoio próximo de músicos como os pianistas Ben Cowen (Morcheeba, Grace Jones…) ou Diana Gutkind (Sandals, Marianne Faithfull), ou de vocalistas como Ebony Rose e da veterana Maggie Nichols, o produtor montou um trabalho que aposta na confusão das coordenadas de espaço e tempo – há gravações familiares, das suas sobrinhas, que se escutam em “Law of the Universe”, por exemplo, que foram realizadas há 25 anos. E nesse sentido, este álbum é um honesto auto-retrato biográfico, um “relatório” artístico de uma vida criativa preenchido que nos é entregue quase como se tratasse de um DJ set, com uma fluidez que parece projectada a partir de uma cabine equipada com gira-discos e mesa de mistura.

Por entre sintetizadores de recorte espacial e sopros que evocam a imensidão do espírito, Lascelle expõe a sua visão de uma música plena de groove, ancorada num atento estudo das mais aventureiras viagens jazz-funk dos anos 70. O tema final, “Only in a Dream”, que conta com a gutural contribuição de Maggie Nichols (que também marca de forma exuberante “Acting for Liberation Pt.2”) é uma deliciosa fantasia que recua a 1973 (ou algo que o valha) e que se desenvolve por entre rendilhados de piano acústico, expressivas percussões e que culmina com um majestoso groove rodeado pelo baixo do já desaparecido Ken Kambayashi, como se esta fosse uma faixa extra perdida de Thembi.

Lascelle Gordon tem décadas de experiência e o conhecimento fundo próprio de um DJ sério e carregado de paixão, como é, aliás, o seu caso, e essa bagagem é toda aplicada num projecto que resulta de uma genuína e honesta procura, experiências que o produtor foi conduzindo no seu estúdio caseiro ao longo dos anos e que final e felizmente vêem a luz do dia. E consegue-se ver perfeitamente o que está, afinal de contas, a querer dizer este veterano.



[The Comet is Coming] Channel The Spirits (Special Edition) / Leaf

Antes da dupla investida em 2019 com Trust in the Lifeforce of the Deep Mystery e The Afterlife, o trio The Comet is Coming – Shabaka Hutchings, aka King Shabaka, no saxophone tenor e clarinete baixo, Dan Leavers, aka Danalogue, em sintetizadores, e Maxwell Hallett, aka Betamax, na bateria – tinha editado, na Leaf, o poderoso Channel The Spirits, trabalho de 2016 agora reeditado em versão expandida com o material do EP Prophecy, de 2015, e ainda três faixas do que o trio apelida como Ancient Tapes (anteriormente disponibilizadas apenas na edição digital The Complete Studio Recordings 2015CE – 2017CE) .

A propósito do já mencionado The Afterlife, escrevi em Janeiro último que Shabaka continuava a riffar em direcção a Andrómeda envolto no pó de estrelas agitado por Danalogue e servido pela propulsão cósmica de Betamax. A receita já era essa em 2016 e 2015, na verdade, quando o grupo começou a explorar a sua sincrética visão que cruzava jazz exploratório, cadência electrónica de clubes e abandono extático apreendido no afrobeat mais militante. A Quietus, pela mão de um certeiro Nick Southall, descrevia o seu som como “afrofuturist analogue kosmische jazz funk”. E essas são, de facto, coordenadas usadas pelo trio que parece apostado em “canalizar os espíritos” através da sua música em que se pressente igualmente uma dimensão política (é escutar o discurso de Joshua Idehen em “Lightyears”) e um programa de agitação de corpos e mentes, como se fosse impossível ascender a um estado superior apenas através da contemplação. Para um colectivo que não poupa nas referências espaciais e espirituais, que tem temas com títulos como “The New Age” ou “Journey Through the Asteroid”, os The Comet is Coming têm uma dimensão bastante física, a sua música é pensada para incitar o transe na pista de dança, de olhos fechados e focados nos confins do cosmos.

O material de Prophecy, começando logo na vigorosa “Neon Baby” que soa como o resultado do cruzamento dos Neu! com Archie Shepp, é o elo que liga o presente dos The Comet is Coming ao passado dos Soccer96, o projecto de Dan e Max a que Shabaka um dia se juntou para uma jam e que resultaria nesta aventura que hoje é uma sólida marca do agitado presente jazz da Grã-Bretanha. O som do grupo nesse ep de 2015 ainda era um esboço esquemático da exuberante fórmula entretanto desenvolvida, como se percebe em “Star Exploding in Slow Motion” ou até “Do The Milky Way”, temas em que o saxofone de Shabaka debita riffs circulares sobre bases de pronunciado pendor rítmico, mas com arranjos menos densos e mais económicos. Interessante é também o material de Ancient Tapes: em “Slammin” quase soam como o que os Pigbag fariam hoje, 40 anos depois de terem surgido na cena pós punk britânica, se à enérgica e orgânica combinação de metais e percussão adicionassem também uma componente mais electrónica. “Transmission” e “Closing Credits” são elipses mais tranquilas, depurados exercícios de encaixe de bateria, sintetizador e saxofone, o princípio de uma aventura que tem evoluído em complexidade sónica e demonstrado crescente ambição estética.

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