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Ilustração: Riça

O jazz em primeiro plano.

Notas Azuis #3: Emma-Jean Thackray / Ill Considered / Alfa Mist

Ilustração: Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.



[Emma-Jean Thackray] Rain Dance EP / Movementt

O novo EP da trompetista Emma-Jean Thackray, mais uma importante peça no complexo puzzle da cena jazz contemporânea de Londres, é um portento de dinâmica e luz e uma convincente amostra de um talento que aguarda ainda pela mais ampla tela que o formato de álbum poderá proporcionar à sua visão. O facto de marcar igualmente a estreia da sua própria etiqueta, a Movementt (projecto afiliado com a Warp Records que criou depois de ter lançado um single na Vinyl Factory e um split repartido com Makaya McCraven que recebeu carimbo cooperativo da International Anthem e do Total Refreshment Centre), diz-nos que Emma-Jean está a dar passos seguros, a construir a sua própria estrutura que, certamente, será a que melhor poderá defender o seu projecto musical. E o que se escuta neste Rain Dance EP soa a condensação de todas as qualidades que Emma tem evidenciado: além de ser uma brilhante trompetista (e esse não é, diga-se, o único instrumento que toca), ela ainda se afirma como beatmaker, DJ, compositora, produtora. Ela é a autora de todas as faixas deste EP, foi a responsável por conduzir as gravações nos estúdios da Red Bull em Londres e assumiu ela mesma as misturas do material registado por um ensemble que incluiu Dougal Taylor na bateria, Lyle Barton no piano eléctrico, Ben Kelly na tuba e Elliot Galvin em sintetizador. A Emma-Jean Thackray coube ainda a responsabilidade de, em diferentes momentos deste Rain Dance EP, assegurar fliscorne, trombone, piano eléctrico, sintetizador, bateria, baixo e voz (!!!). Ainda que domine todas essas valências, este EP não é uma simples colecção de descabidos fogos de artifício. Na verdade, o material soa até bastante contido, sentindo-se a típica economia da arquitectura hip hop logo que a primeira tarola se faz ouvir em “Rain Dance / Wisdom”, o tema de dois andamentos que ocupa a totalidade do lado A deste EP. Brilho de estrelas no Fender Rhodes, graves gordos sacados ao Moog, solos fluídos e sempre comprometidos com o groove apresentado inicialmente e o trompete de Emma-Jean a mostrar-se igualmente capaz de mover a alma e o corpo, como aliás se estabelece no manifesto da Movementt (um lugar para a música “que move o corpo, move a mente, move a alma”, como aliás se declara no tema que encerra o EP). Quando a tuba anuncia a segunda parte do díptico do Lado A, a cadência altera-se para o que soa quase como uma declinação orgânica de drum n’ bass, com o trompete processado a manter-nos a cabeça no mesmo espaço que Miles explorou nos seus momentos de maior delírio fusionista. Percebe-se perfeitamente que a Emma-Jean interessa tanto a atmosfera fumarenta do clube de jazz, como o vórtice hipnótico da pista de dança. “Open” e “Open (Again)” (esta guiada por uma simples pontuação da tuba) são mais livres, um reflexo mais nítido do trabalho de palco com que Emma-Jean tem garantido sérios aplausos, mas em “Movementt”, o tema que cedeu o seu título para nomear a editora e que fecha este EP, a cadência quadrada da pista volta a impor-se, mas desta vez parece ser o pulsar mais “housey” que gente como Moodymann tem vindo a exportar de Detroit ao longo dos anos a servir de inspiração. Com pouco mais de 15 minutos, este EP só peca mesmo pela sua brevidade, mas voltar ao início e escutar tudo outra vez também garante renovadas recompensas.



[Ill Considered] 9 – East / West / Ill Considered Music

Disponível (para já pelo menos) apenas digitalmente, esta nova entrada no catálogo dos Ill Considered faz-se de material registado em dois concertos em Abril e Junho do ano passado em dois espaços nas zonas oriental e ocidental de Londres, respectivamente. São, em ambos os casos, improvisos totais e absolutos de Emre Ramazanoglu na bateria, Idris Rahman no sax, Leon Brichard no baixo e ainda Satin Singh na percussão (nas três partes de “East”) e Tamar Osborn igualmente em saxofone (nas três partes de “West). Apesar do elevado grau de incandescência do fogo libertado na primeira parte, sobretudo por Idris Rahman, verdadeiramente explosivo no tom e na visceralidade dos seus solos arrancados às entranhas, a secção rítmica sabe fechar-se numa cadência fixa quando é preciso, funcionando como uma âncora que mantém o navio colectivo no mesmo lugar, ainda que as águas que o fazem mover-se estejam claramente revoltas. O facto dos Ill Considered não possuírem no seu seio um líder claro, abre a música que criam a um sem número de possibilidades que os membros do quarteto (Singh é membro a tempo inteiro) têm explorado numa generosa discografia (este 9 – East / West é já a nona entrada num catálogo inaugurado apenas em 2017). Nestes dois concertos separados por um par de meses, o grupo encontrava-se, nitidamente, em dois lugares distintos, ideia traduzida num título que tanto pode aludir a localizações geográficas dentro de uma mesma cidade como aos hemisférios do cérebro ou até a duas culturas marcantes. No lado “East”, sobretudo no saxofone de Rahman, deparamo-nos, a espaços, com subtis colorações orientalizantes, mas na maior parte do tempo o grupo navega bastante liberto de qualquer tipo de lastro melódico ou harmónico mais específico. E muito interessante o som de Leon Brichard que toca o seu baixo eléctrico como se estivesse a suportar o peso de um colectivo de metal, não temendo até o carácter mais abrasivo da distorção que só confere ainda mais dureza ao granítico som da sua banda. O caso muda consideravelmente de figura no lado “West”, mais “planante” no arranque, com o som do saxofone processado com delay a revelar-se mais expansivo e o baixo, mantendo o seu pulsar regular, a soar menos “sujo” e feérico embora nunca menos irrequieto, como se percebe no solo sinuoso que Brichard assina mais ou menos a meio da primeira longa deriva (são cerca de 55 minutos por cada um dos concertos divididos em três longas partes cada). É com o grave cadenciar do baixo eléctrico que arranca o segundo “andamento” de “West”, numa toada mais frenética do que o do primeiro, com o grupo a estabelecer uma espécie de remoinho rítmico de que emerge pouco depois o saxofone (que suponho que pertença ao convidado Tamar Osborn a julgar pelo seu carácter e som distintos), quase a evocar o tom de John Lurie nos Lounge Lizards, grupo que na Nova Iorque do arranque dos anos 80 procurava igualmente harmonizar-se com o tremor subterrâneo de uma grande cidade. E é de novo numa mais tranquila ambiência que arranca a derradeira parte do segundo concerto que os Ill Considered aqui documentam. Comum a todas as partes, tanto em “East” como em “West”, é o seu sentido de demanda espiritual, como se o grupo tocasse com a certeza de que a música será capaz de os elevar a um estado superior qualquer. Chamada de atenção final para o baterismo de Emre Ramazanoglu: trata-se de um músico seguro, dono de amplos recursos, capaz de tocar fechado num groove ou de espalhar faíscas abstractas por todo o lado, igualmente à vontade na subcave do edifício musical erguido em cada momento ou na dianteira do colectivo. Os Ill Considered são todos igualmente destemidos e essa característica tem, a cada novo registo, garantido um elevadíssimo nível. Venha de lá o vinil quadruplo que este 9 – East / West bem merece lugar ao lado dos restantes álbuns do grupo, com “tela” generosa para mais uma abstracta pintura de Vincent de Boer.



[Alfa Mist] On My Ones / Sekito

Depois dos álbuns Antiphon e Structuralism em 2017 e 2019, respectivamente, o pianista Alfa Mist apresenta agora o EP On My Ones (edição em vinil de dez polegadas e digital), trabalho de piano solo carregado de lirismo que se afigura uma surpresa tendo em conta o tipo de sonoridade que o músico e compositor tem apresentado tanto em nome próprio como em colaborações com gente como Yussef Dayes e Mansur Brown ou, entre outros, Jordan Rakei. “Quando és só tu e o piano não podes realmente esconder-te ou mascarar os teus pensamentos. On My Ones é uma conversa honesta comigo mesmo. Embora seja largamente improvisado, não o classificaria apenas como um projecto de jazz. Sinto como se todas as composições viessem de lugares diferentes”, explica Alfa Mist. De facto, para um pianista auto-didacta as suas fontes hão-de ser diversas e não apenas resultado de um apertado programa académico e essa liberdade percebe-se claramente na diferentes nuances da melancolia que domina a maior parte dos temas, como se Alfa tivesse gravado as seis breves peças (que não se estendem acima dos 4:39 nem se quedam abaixo dos 2:18) durante o dia e diante de uma ampla janela que pudesse dar para uma qualquer idílica vista outonal. Há assomos de pianismo clássico por aqui, vislumbres de minimalismo, mas provavelmente mais devedores da educação melódica através de loops samplados do que de um eventual estudo mais aprofundado da obra de alguém como Michael Nyman ou Philip Glass (não que tal não seja possível, como é óbvio, mas não parece que Alfa Mist se queira atirar ao universo “modern classical”…). São duas mãos comprometidas com um pensamento fundo, pouco expansivas e nada dadas a exibicionismos de proeza técnica desmedida, as que aqui brilham com o tipo de música que se pode afigurar o melhor remédio para as maleitas do espírito ou para a rugosidade da cidade. É colocar os auscultadores e fazer play enquanto se olha pela janela do autocarro ou do comboio…

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