NGA // Filho das Ruas II

[TEXTO] Moisés Regalado

Às portas da viragem do século, o jovem (ou, melhor dizendo, adolescente) NGA já era um dos mais arrojados MCs de Jackpot 2000, uma das últimas mixtapes de Bomberjack. A voz frágil escondia uma métrica e um flow à altura dos intervenientes mais conhecidos, mas o nome não continuou a ser aposta frequente entre os DJs e divulgadores da altura. O reconhecimento chegou como consequência do seu trabalho e a falta de padrinhos não o impediu de furar no circuito das mixtapes, ainda que em nome próprio.

A qualidade já lá estava, mas foi a quantidade a dar-lhe um lugar sob os holofotes. A cada dezena de novas músicas lançadas, alguma haveria de servir como isco para novos públicos ou seguidores, numa altura em que a persona de NGA se encontrava profundamente distanciada do Edson Silva que lhe dava corpo — ou, pelo menos, assim parecia. Foi há mais ou menos quinze anos, no Nação Hip Hop, que NGA, quando grande parte do movimento o apelidava de arrogante ou americanizado, deu uma das suas primeiras entrevistas de longa-duração e se deu a conhecer para além da caricatura.

A efeméride será mais simbólica do que prática, até porque NGA continuou a sua ascensão de forma algo intermitente. A influência de Lil Wayne, entre outros ícones do crunk, do dirty south e de outros nichos que viriam a dar vida ao trap, continuava a passar despercebida, ou pelo menos incompreendida, junto da esmagadora maioria do público, só que os jovens da Grande Lisboa estavam atentos e apaixonados. O tempo passou, a verdade dos números começou a ser tão brilhante quanto as grillz do Rei da LS e a discografia cresceu. A intermitência deu lugar à solidez e, em 2014, nasceu a sua obra-prima, King.

A bitola ficou estabelecida — bem lá em cima, diga-se — e desde aí que NGA é um rapper de quem se pode esperar talento, entrega, quantidade e, como não podia deixar de ser, regularidade. Apesar de não surpreender tanto como King, Filho das Ruas II é um digno sucessor, sem nunca perder a força das sagas Impakto ou Mais Quente Que O Fogo. O ego do MC já tem total controlo sobre a sua identidade, ou talvez se passe exactamente o oposto, sendo portanto inútil analisar a técnica de NGA.

NGA “cospe” como quer, sabendo como fazê-lo, e não vale a pena dissertar sobre letras ou métricas que podiam ser melhoradas. Por exemplo: a cadência do de “Tatuagens, Cicatrizes & Diamantes” (“ela era linda, ela era preta, imigrante”) não difere muito da canção de Agir (“ela é linda, ela é special”) mas as comparações ficam-se por aí. Porque o objectivo e a destinatária da música são completamente distintos, e sobretudo porque a verdade do discurso de NGA lhe retira potenciais cargas ligeiras ou “apimbalhadas”.

Os instrumentais de Filho das Ruas II podiam servir qualquer faixa contemporânea, com versos espaçados e refrões de uma só palavra, só que a abordagem de Edson Silva impossibilita qualquer comparação ou mesmo um enquadramento na big picture. O que aqui há de trap já havia em NGA antes sequer do sub-género, como o conhecemos, existir, e o que o rapper tem de hip hop, pensando na expressão cultural que tem décadas de vida, continua tão vivo como sempre, incluindo os tempos em que o acusavam do oposto. Não será por acaso que este álbum tenha, como tiveram os anteriores, tantas referências à cultura e ao movimento, sem que isso faça parte do seu marketing.

Os refrões mal conseguidos, como o de “Tu Não Sabes”, importam tanto quanto os de Lil Wayne na sua Dedication 6, quando comparados com a magnitude dos versos: nada. Os graves ditam o tom, a militância convicta pavimenta o caminho e o amor trata do resto. Não há nada neste disco que NGA ainda não tivesse trazido, só que agora, além de preservar e fortalecer todas as suas característica essenciais, mudou o foco para o que realmente importa, e é em linhas como “desde que eu te perdi, todas as mães angolanas são um bocado minhas” que vive a força da sua música.

 


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