Homeboy Sandman & Edan // Humble Pi

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Faltam apenas 3 segundos para Humble Pi se “estender” até aos 23 minutos de duração. Não é um disco curto, é, antes, um disco ultra-concentrado, uma redução de vinagre lírico que é um verdadeiro bálsamo para ouvidos apreciadores de rimas abstractas, um caldo de samples apurado em fogo lento (muito lento – demorou para aí uns 10 anos a ficar pronto…) a partir das melhores e mais inusitadas rodelas de vinil, mas já lá iremos.

Homeboy Sandman é um tipo prolífico e este é o seu sexto álbum desde que se estreou na Stones Throw em 2012 com First of a Living Breed. Já Edan, por outro lado, é o verdadeiro eremita e recluso, um génio que tem torturado os seus seguidores com um ritmo de edições semelhante ao das movimentações das placas tectónicas: lançou Primitive Plus em 2000, a obra prima psicadélica Beauty and the Beat em 2005 e… mais nada, na verdade, se estivermos em busca de registos em que alie os skills na MPC aos que igualmente possui no microfone.

Para lá desses dois álbuns brilhantes com carimbo da britânica Lewis Recordings, Edan Portnoy ainda lançou em 2009 o estranho e maravilhoso Echo Party: uma encomenda da Traffic Entertainment para que o MC e produtor que também é um incrível DJ fizesse uma mix a partir do seu extenso catálogo (que vai de MF Doom aos Pharcyde e de Masta Ace a J Dilla) transformou-se num projecto de dois anos em que Edan acabou a samplar pedaços significantes de história em multi-pistas, acrescentando no topo sintetizadores e guitarras e percussão e toneladas de efeitos analógicos com o todo – uma intensa colagem de 29 minutos – a ser depois embrulhado num psicadélico filme de Tom Fitzgerald. Com Edan nada é simples e linear, já se percebeu.

 



Para lá desses três lançamentos oficiais, Edan ainda assinou uns quantos trabalhos disponíveis em CD-R (colaborações com o MC Oxygen, por exemplo) e um par de fantásticos Mix CDs que são autênticos tratados sobre o seu carácter obsessivo no que à história do rap diz respeito (conferir, por favor, Sound of The Funky Drummer e Fast Rap). Muito pouco tendo em conta o seu evidente e desproporcionado talento.

Por isso mesmo, Homeboy Sandman merece por si só uma medalha: em 2016, para o belíssimo Kindness For Weakness, o MC de Queens, Nova Iorque, reuniu um cast de absoluto luxo para assinar os seus beats — de Georgia Anne Muldrow e Jonwayne a Large Professor, RJD2, Eric Lau e Paul White. E, lá no meio, a trabalhar um pedaço de classe absoluta dos Pop Workshop, grupo de jazz funk sueco que gravou um par de álbuns na primeira metade dos anos 70 (já se tinha indicado por aqui que Edan é um nerd?…), surgia o Humble Magnificent a produzir a incrível “Talking (Bleep)”, talvez a melhor faixa do álbum.

Nesse momento, tornou-se mais do que evidente a ultra-feliz dinâmica capaz de se gerar entre as barras de Homeboy e as batidas de Edan. Daí a uma colaboração entre os dois artistas numa apresentação no South By Southwest promovida pela Stones Throw foi um passo. E agora cá estamos, prontos a trincar esta magnífica Humble Pi

 



(Nota importante: no final do último verão, Peanut Butter Wolf em entrevista ao Rimas e Batidas foi muito cauteloso a escapar-se a perguntas sobre eventuais edições futuras de Edan na Stones Throw, esclarecendo respeitar em absoluto a histórica ligação do produtor/MC à britânica Lewis, mas o processo que remonta à edição de Echo Party na Five Day Weekend, selo com fortes ligações à editora comandada por Wolf, começa a assumir contornos de sério namoro e não me espantaria se um trabalho futuro de Edan pudesse surgir com patrocínio da irrequieta casa editorial californiana… just sayin’…)

Como se começou por sublinhar, esta é de facto uma tarte humilde na sua duração: são apenas sete faixas que não chegam aos 23 minutos de duração. Mas, respeitando a metáfora culinária que se estende ao artwork deste álbum, pode dizer-se que se trata de um acepipe carregado de subtis sabores, marcado por um sabedor tempero, tanto no plano lírico – em que Homeboy domina – como no instrumental – em que Edan assume o controlo.

Homeboy Sandman é um animal no microfone, um soul surfer muito mais interessado em cavalgar a onda e estabelecer uma ligação espiritual com a força propulsora do oceano de sons à sua disposição do que propriamente impressionar algum painel de juízes ou realizar as manobras da moda que ficam bem nos vídeos. Em “The Gut”, Homeboy esclarece quem é, só para que não restem dúvidas:

“I’m Papa San, bopping to the Bach and Brahms
And fricking Rick the Ruler, playing it cool like I’m the fucking Fonz
My Uzi weigh a couple tons, aimed at Uncle Toms
So you can call me capitan more than a couple times”

Clássicos como Herbert von Karajan, nem Homeboy nem Edan fazem o mínimo esforço para parecerem interessados no presente e numa das mais directas “mensagens” do álbum, ambos unem esforços no frontal “#NeverUseTheInternetAgain” em que o MC de Queens declara o seu cansaço das redes:

“Everyday the bullshit worsen
Order a pizza like a fucking person
Match.com like an online pimp
Step to a girl in real life, you fucking wimp
Internet journalism, here’s what you’re gonna find
Everyone who can’t get paid for it does it online
Most of the ones online that’s getting paid suck too
Fuck you!”

Ouch…

A este intenso nível de Homeboy, Edan corresponde não só com uma série de pontuais e certeiras intervenções no microfone, como ainda com uma verdadeira mini-sinfonia de beats erguidos a partir de samples incomuns (escuta-se Bruce Haack em “The Gut”, por exemplo), numa abordagem caleidoscópica à produção que tem tanto de intemporal como de criativo. Edan é, provavelmente, um dos mais subvalorizados produtores do universo hip hop, certamente por culpa própria tão regrado que é o seu output, com talento gigante capaz de o elevar ao nível de Madlib ou Muggs ou Doom.

É por isso importante saborear bem este Humble Pi. É que quando se trata de Edan, nunca se sabe quando voltará algo a sair do forno (mas, mais por fé e instinto do que por outra coisa qualquer, insistimos que não há-de demorar assim tanto a sair um trabalho novo… figas!).

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu