Sobejam na história da música muitos e bons exemplos de como o canto das aves é matéria inspiracional na composição. Em Vivaldi reconhecem-se trinados rápidos de violino para imitar os pássaros da primavera n’”As Quatro Estações”. Outros transcreveram meticulosamente notas e ritmos das aves, como Olivier Messiaen, compilando vastos catálogos de transcrições ornitológicas. E Ottorino Respighi foi pioneiro ao incorporar uma gravação de um rouxinol em “Pines of Rome”, de 1924. Ao contrário da incorporação directa na música, em “La Lontananza Nostalgica Utopica Futura” peça para violino solo e fita magnética, Luigi Nono faz vénia implícita ao ecoar o som de pássaros pela cidade. Podemos ir até ao pioneirismo da ambient japonesa de Takashi Kokubo, aos seus álbuns que mesclam com primazia suaves camadas de sintetizadores e gravações de campo, exuberâncias de vento e dos pássaros. Ou indo a Patricia Wolf e ao seu The Secret Lives of Birds, para um voo sonoro e directo, entre texturas ambient.
Mas para a compositora e pianista Inês Condeço a matéria sonora reside até mais no intervalo do canto das aves. Com o álbum The Space Between Birds — segundo longa duração da autora, depois de Lacuna (2024), o encanto e atenção focam-se no que fica entre trinados, silvos e chilreios. Uma preciosa metáfora para o mais que requisito travão de emergência aos dias. Recordamos a propósito quão belos foram as atmosferas sonoros da imposta paragem pandémica. Onde e quando o canto das aves se sobrepôs em regalos múltiplos ao frenesim das nossas vidas. Condeço reivindica essa reflexão ao apontar o olhar aos céus e escutar as aves se torna um acto de resistência, como assume nas breve notas que acompanham o seu álbum.
A escuta profunda como legado maior da escrita da musicóloga e artista sonora Pauline Oliveros aponta-nos nesse sentido — caminhar e tentar ouvir com a planta dos pés. Com “floating”, Condeço a isso mesmo parece apontar também, com uma composição textural, profunda, e em que a escuta se volve num sentido táctil. Logo depois do tema de abertura “the space between”, que conduz ao campo directo aural, ao que vamos, entre regatos e fios de água correndo até que a fluidez para o ar pontilhado por curtas frases de sintetizadores, como rasgos luminosos.
Em tempos em que amiúde se reflecte, em contraponto, se a música se serve melhor em álbuns ou de forma esparsa em temas isolados, neste disco Inês Condeço aponta para a primeira das possibilidades. “desisto ou resisto” serve bem o propósito da reflexão e nele se escutam o chocalhar dos contrapontos do seguir ou ficar, abdicar ou argumentar. Partindo em sequência no alinhamento sugerido das faixas, o escutar do álbum torna-se um manifesto socio-político. A exemplo “l’appel du vide”, partindo de sons de carrilhões como que para alcançar lugares de fuga deste presente, feito de burburinhos e azáfamas do quotidiano (as vozes de transeuntes a isso apontam). Um álbum que discorre como um livro ficcional da realidade, em contrapontos utópicos numa distopia. Se “blue” surge como interlúdio celestial, “loading” interpõem-se em sonoridades de terrenos do desconforto.
The Space Between Birds leva-nos até ao final quase sem se dar conta da escuta, passando a um efectivo momento de evasão quasi meditativa. Chegados a “preto no branco”, onde habita um piano a ecoar entre sintetizadores — lembrando a veia pianística da autora — para nos fazer querer uma libertação de um mundo a duas cores. “looking for” aproxima-se de um epilogo bem sucedido, linha de fuga, entre folheares, que bem podem ser como as páginas de um livro entre mãos; em que as atmosferas que se sonham, como sinal do quanto há motivo para alcançar. Até “birds”, tema identidade do álbum, que se apanha numa noite no éter da estação da rádio, e nos convoca para uma escuta atenta e profunda que o todo merece e revela. Um potpourri de boas ideias, vontades e sonoridades que convidam à reflexão, sem abrir mão do mundo que nos rodeia e confunde.