Vinil / CD / Digital

Flea

Honora

Nonesuch Records / 2026

Texto de Marco António Vieira

Publicado a: 06/05/2026

Tags: Flea

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Honora assume-se como uma banda sonora fiel ao seu tempo e ao seu lugar, enquanto figura como um símbolo renovado do que são, e sempre foram, os EUA — onde, não raras vezes, o desprezível convive com a beleza. Curiosamente, ou nem tanto assim, parece que os momentos de maior decadência criam belezas mais sublimes. Era assim nos anos 60, é ainda assim hoje. Pouco desviante, nesse aspecto. 

O desvio de Flea também não é assim tão singular quando observamos a história da música. A começar, se quisermos, pelo seu convidado Thom Yorke que, com os Radiohead, encetou um desvio não menos surpreendente aquando de Kid A em 2000. Casos semelhantes há vários — Bowie não fez outra coisa. Embora neste caso particular, existe particularidade de facto. Aqui não se trata apenas de um desvio de linguagem, mas um desvio do meio — o trompete. Flea resgata o seu primeiro instrumento à infância, não como um gesto nostálgico e de divã IKEA, mas como um questionamento que nos expõe a todos, como sabemos, à vulnerabilidade. À dele, desde já. E à de todos nós que envelhecemos sem grande vontade de nos fragilizarmos. É nesta disponibilidade para aprender – e ficar à mercê – que reside a verdadeira coragem do disco.  

Ficar velho costuma ser ficar preso a noções e ambições da juventude, repetir fórmulas e proteger conquistas. Talvez mais, quando atravessámos o perigoso jardim da popularidade. Flea, porém, parece ter escapado à armadilha do aplauso e procurado no desvio uma intenção interna de reposicionamento. Sobra, no entanto, a dúvida: o aclamado baixista sentiu-se sempre assim ou trata-se de uma liberdade que só a idade permite? A resposta parece surgir no título que fecha o álbum: “Free As I Want to Be”. De qualquer forma, é um gesto desenhado com o vagar da ligação íntima do corpo à tarefa e à obra. Um artesanato corajoso que é desejo dos jovens mas só a velhice parece alcançar na plenitude.

O preâmbulo Golden Wingship vai do mistério ao caos num minuto que prepara o ouvido e a alma para o apelo – um portal. Segue-se uma contagem e o baixo de Flea levanta de imediato a questão: continuará Flea a soar aos Red Hot Chili Peppers? O jogo parece ser esse até à chegada das teclas, da flauta e do saxofone alto. Até aí, pouca certeza sobre se é o jazz ou o rock a terra onde vamos pousar. Eis que, liberto disso e desfeita a questão, em “A Plea” — composição original — a progressão aveluda a via para o saxofone e o trompete, até se transformar num manifesto que em vez de contornar, encara a actualidade norte-americana. Desafia a passividade com a voz inflamada de Flea na frente de um rio revolto e em fúria. Um discurso ácido no tom e no sentido que acaba por assentar em águas mais doces.  

Em “Traffic Lights” o baixo elétrico, a percussão e a bateria constroem um groove viciante e rico — uma estrada aberta para o trompete dialogar com a voz de Thom Yorke num mundo etéreo. Todavia real: “Podemos viver num mundo de cabeça para baixo?” — uma âncora à qual também o saxofone responde. Aqui sentimos a mão subtil de Jeff Parker e um certo prazer em estar no mundo. “Frailed”, outro original, é talvez a composição mais ávida e que melhor revela o despojamento do disco. A linha rítmica contida, do baixo e da percussão, é o ninho que aconchega os sopros, ora melódicos ora especulativos, do trompete. A repetição de uma melodia, nesse quase refrão, parece desenhar com confiança, para logo se perder em tracejados e dúvidas, até o baixo e o ritmo aconchegarem novamente o trompete.

“Morning Cry” é alimentada pela guitarra de Jeff Parker e o contrabaixo de Anna Butterss. Parece circundar os clássicos do jazz, enquanto o fraseado do trompete especula sob a sombra inevitável de Miles Davis. “Wichita Lineman”, canção original de Jimmy Webb, viajou por quase todas as grandes vozes da América até Flea a oferecer à de Nick Cave — e, de alguma maneira, satisfaz uma vontade ao mundo. Essa conversa de Nick Cave com Flea e Jeff Parker convoca o misticismo melancólico do australiano para uma ilha partilhada no pacífico onde parte de nós poderia viver para sempre. Surpreendente é, ainda assim, a reinterpretação de “Thinkin Bout You”, de Frank Ocean. Os violinos e o trompete desaceleram qualquer mente e ficam sempre mergulhos por dar. Os temas originais aparecem com mais espaço para a dúvida e a descoberta (para as incursões do trompete), enquanto as versões se apresentam como reinterpretações de autor que se agarram ao álbum.   

Todos nós já atirámos pedras a um charco de águas paradas e ficamos a contemplar as ondas de choque. Uma interação que tem tanto de previsível como de surpreendente. O mesmo efeito sucede quando em frente a um mar calmo lançamos a pedra, esperando candidamente que plane até à linha do horizonte. O que une estas ideias é uma certa vontade — inocente, talvez — de interferir e nos inscrevermos no mundo, enquanto esperamos que os efeitos nos confirmem que estamos vivos diante os sentidos. Os EUA, hoje, estão longe de ser um mar calmo, que tem mais de ruidoso e contraditório. Flea está vivo, não se tornou estátua — essa é a notícia. Escolheu mostrar-nos uma sensibilidade e uma espiritualidade até então obscurecidas pelos holofotes do sucesso. 

A virtude de Honora não é a técnica nem a inovação. É a vontade de continuar a perguntar por novos pontos de fuga e procurar novas formas de libertação para o que, às vezes, enclausuramos durante anos a fio. Honora figurará entre os álbuns do ano, embora talvez não como o melhor, mas certamente como o mais inesperado. Acima de tudo marcará a viragem, na carreira de Flea, para uma nova forma de se cumprir artista: mais livre, mais frágil e, por isso, mais verdadeiro.


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