Há muito que o status quo mundial se mantém tempestuoso. A meteorologia política e social do planeta Terra tem estado tudo menos calma e harmoniosa, e até no firmamento estelar, no final de 2025, se acusou alguém de ter cometido o primeiro crime espacial. As vibes estão tão más que parece difícil encontrar qualquer tipo de consolo num mundo em espiral, especialmente quando as vidas individuais têm, obrigatoriamente, de continuar a ser vividas. Qualquer dos acontecimentos mundiais que se têm vivido parecerão infimamente menores às tribulações pessoais de qualquer um de nós, pois cada um deverá saber como quer viver a sua vida e só temos direito a uma. Não obstante, o fulgor humano recusa-se a vergar aos remoinhos sufocantes do dia-a-dia e participa num duelo diário contra um zeitgeist, seja ele conceptual, metafísico ou material. Eis o alívio, a toalha na testa que limpa o suor entre rondas: um concerto, leia-se, um desalgemar do espírito, uma libertação dos fantasmas, uma limpeza de esqueletos.
Os By Storm continuaram a sua tour europeia na Galeria Zé dos Bois na passada sexta-feira, 17 de Abril, a penúltima paragem desta caminhada iniciada no final de Março. Uma jornada que, na verdade, já começa em 2023, depois da morte prematura de Stepa J. Groggs, rapper com o qual RiTchie formou os Injury Reserve em 2012, adicionando Parker Corey, produtor, em 2015, ter forçado a reformulação para By Storm. By The Time I Get to Phoenix, o último álbum enquanto trio, foi acabado apenas por RiTchie e Parker, tendo Groggs falecido a meio da sua gravação, em 2020. Já foi há 6 anos, sim, mas foi um adeus difícil, uma despedida que ainda se sente em qualquer rima e produção do duo do Arizona lançada desde aí. Já tinham passado na ZDB em 2022 para apresentar o último LP como Injury Reserve, ainda a sentir na pele o adeus ao seu amigo, e trazem neles uma apreciação particular pela sala de espetáculos lisboeta. RiTchie di-lo num comentário no Instagram a prever o concerto: “Fav place”.
A noite abre com Devlloz, trapper brasileiro sediado em Lisboa que surfa a onda do trap gótico armado com uma guitarra carregadíssima de reverb e uma voz de balada melancólica, flanqueado por um autotune elegante. Não oferece muito dele próprio ao público, mas recebe amor suficiente da sala esgotada, que com certeza contará com ouvintes de Ecco2k, $UICIDEBOY$ e Bones.


Após este primeiro contacto com a ambiência pesada e enfumarada, os headliners da noite. Entra em palco Parker Corey e, como se ele próprio fosse a MPC, os graves começam a ressaltar nas paredes e os acordes sintetizados dissonantes criam uma confusão controlada. Não sabemos onde estamos, mas sabemos exatamente para onde vamos. RiTchie entra pouco depois, os aplausos chegam e sobram, e repara-se na presença inevitável do vocalista em palco, gigante e inevitável, com a gravidade a alterar-se para ser ele o ponto ao qual todos têm de obedecer e prestar atenção, com uma força invisível. Amarelo estridente sobrevoa o palco entre o fumo das máquinas e o bitcrush do instrumental começa a pressionar as paredes do “aquário”.
A setlist é rotineira, começando no tom amoroso e saudoso de “Can I Have You For Myself”, faixa que abre My Ghosts Go Ghost. RiTchie faz vaivéns em palco enquanto repete a frase forte da canção, trocando o protagonismo com o beat. As almas que o rodeiam são palpáveis. Os agudos da faixa, emotivos até ao fim, são apenas dele, e sentimos uma vulnerabilidade perfurante na sua voz. O primeiro drop inaugura a catarse do concerto, uma explosão pesada de luz e de som que se afirma em palco à frente dos membros, escondidos atrás da parede sonora e do véu de fumo, avassalados pela música.
As dreadlocks de RiTchie vão penetrando o véu, soltas, um vislumbre efémero da pessoa por trás desta libertação. Os seus primeiros gritos chegam em “Dead Weight” e soam à continuação da catarse num tom de superação e de lembrança, o largar lento de um fardo que continuará a ser carregado. Os backings introduzem partes de faixas e o efeito que fica é o de elevação da voz do rapper a algo mais real, quase físico, com matéria e peso. As suas palavras em “Grapefruit” soam-nos quase vomitadas, teatralmente expelidas para fora, a respiração entre versos ofegada dramaticamente. É neste tom de performance que agora vemos e revemos By Storm não só como um duo de hip hop experimental, mas como investigadores do som e de emoções, atores numa peça que conta a vida de cada um deles, seja através de rimas ou de batidas.
Se a interação com o público até aqui terá sido parca, em “In My Town” desenrola-se a primeira iteração da colaboração artista-audiência, e todos ali sabem que tudo pode ir para qualquer lado na nossa cidade. O recém-inaugurado coro ajuda a história a ser contada e há uma partilha de experiências tácita. A moral da fábula será sempre uma mensagem generalizada, mas há aqui algo mais profundo na individualidade que a música oferece. A faixa de 7 minutos é tocada na íntegra, com os últimos minutos a serem puramente instrumentais, num crescendo que demoliria qualquer tímpano impreparado.
Que se note a montanha russa emocional que se manteve durante todo o concerto, continuada com o timbre aliviado de “And I Dance”, partilhado com o público, que tem a oportunidade de juntar a sua jubilação diretamente no microfone, com RiTchie de braço estendido para os gemidos da frontline.
Em “Outside”, a cadência muda para malévola, desafiante. O passado nunca deixa de estar no presente, quer queiramos quer não. Parte de nós estará sempre a caminho de Phoenix. Apesar disso, a festa, sempre a festa, sempre os saltos e o bradar de refrões, sempre a sala cheia de pessoas a sentir o mesmo mas de forma diferente, sempre a celebração do tempo a passar e a lamentação fervorosa do que aconteceu enquanto o tempo passou.
A terapia fez-se de tantas formas diferentes nesta sala que a perspiração já foi suor, já foi lágrimas e saliva. RiTchie procura o seu próprio eco em “Double Trio” e em “Double Trio 2”, momentos de apoteose pura e de ascensão a roçar o religioso. Respira-se um pouco, talvez pela primeira vez desde as 22h45 da noite. Sentimos que a atuação está na sua reta final e chega-nos “Zig Zag”, acompanhada no final do “Remix 4” dessa mesma faixa e cantada em jeito de conselho tímido. Atirados da garganta para fora, os versos aqui são pouco pensados, performados como se fossem necessários serem performados. Em “Superman That” e “Knees”, unem-se os seres humanos na sala para um momento irreplicável e fica a pairar no ar, transparente como a água, a ligação inescapável entre artista e o seu público.
Difícil de descrever algo tão imaterial como este fio, fica a recomendação de a experienciarem em primeira pessoa. O que se pode dizer é que os By Storm vivem e viverão, os Injury Reserve sobreviverão à passagem do tempo, e Groggs estará sempre com cada um de nós. O concerto finaliza-se no transcender de My Ghosts Go Ghost, com RiTchie a apelar para o apreço à Zé dos Bois, um sítio especial, sem especificar porquê, mas com todos a sentirem exatamente a razão na pele. Descobrimos todos a bonança diretamente no olho da tempestade.



