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Fotografia: Carys Huws

O DJ e produtor haitiano-canadiano estreia-se amanhã em território nacional.

As mil e uma viagens de Kaytranada

Fotografia: Carys Huws

Kaytranada, KAYTRANADA, Kay para os amigos: o nome escolhido para representar o mundo caleidoscópico do DJ e produtor haitiano-canadiano desliza da boca com a mesma facilidade com a qual as suas batidas radiantes escorregam para dentro dos ouvidos. Mas por debaixo da brilhantina do homem que nos trouxe 99.9% em 2016 e que três anos depois se estreia em Portugal (depois de alguns falsos alarmes) na edição do Super Bock Super Rock que hoje mesmo arranca no Meco, esconde-se a faceta bem mais tímida de Louis Kevin Celestin, o miúdo que cresceu a fazer beats recluso no quarto e que antes dos trinta anos já estaria a abrir concertos para a Madonna. Sobre a sua viagem de Louis Kevin Celestin, não podemos dizer muito: abre de vez a vez uma brecha que nos permite vislumbrar pequenos pedaços separados da sua identidade pessoal, mas não conseguimos vê-la por inteiro, mas ao debruçarmo-nos sobre a história de Kaytranada, o super-homem para o seu Clark Kent, conseguimos talvez descobrir um pouco mais sobre o discreto músico.

Primeiro Louis Kevin Celestin, nasceu em Agosto de 1992 na cidade mais populosa do Haiti, Porto Príncipe, mudando-se ainda em criança para Montreal, no Canadá, onde foi criado rodeado de música: não só a esperada influência da emergente cena de hip hop, beats e electrónica que fervilhava a sul do seu país, mas também tomando contacto com as raízes sonoras dos seus antepassados, tendo sido apresentado à kompa, a efervescente tradição musical haitiana, através do seu pai. Com 14 anos, descobre o DJing e é amor à primeira vista: perde-se nas rimas e batidas, nos baixos e tarolas, teclas e programações, e as preocupações mundanas da escola e dos amores adolescentes passam para o banco de trás. Ao volante, a música. Mas como é que um miúdo, imigrante, tímido e perdido no coração do Canadá, poderia alguma vez saltar a cerca e chegar ao coração da crítica e do público numa geração em que novos produtores surgem como ervas-daninhas?

A apresentação ao FL Studio (inicialmente conhecido por FruityLoops), responsabilidade de um carinhoso irmão mais velho, foi o tiro de partida para a corrida da maratona em busca do reconhecimento alargado. Foi em 2012 que cortou a primeira meta: uma reinvenção sua do tema “If” de Janet Jackson começou a borbulhar no SoundCloud e o seu alter-ego atrás da mesa (na época, ainda Kaytradamus) começou a correr o mundo à velocidade a que apenas a Internet se move. Hoje em dia, o tema, reintitulado “If I Was Your Girl”, conta com umas esmagadoras quatro milhões de visualizações no YouTube (e nove milhões de plays na plataforma original) e consta que a veterana adoptou a versão do jovem prodígio para cantar ao vivo, ao invés da sua.

Com o sucesso astronómico e os cliques às suas páginas a multiplicarem-se dia após dia, a chance de sair para o mundo com a mesa atrás foi aceite e um jovem Kaytradamus viu um universo de possibilidades a estender-se diante dos seus olhos: nomeadamente, a hipótese de embarcar numa primeira digressão que permitia encher os bolsos da família no Canadá (o divórcio dos pais, alguns anos antes, deixara o lar ferido com dificuldades económicas), além do lançamento de um primeiro EP através da berlinense Jakarta Records, Kaytra Todo, em 2013. A prolificidade imensa de Louis Kevin Celestin complica a tarefa de traçar a cronologia exacta do lançamento de todos os seus projectos: para além de um álbum a meias com o rapper (e irmão) Lou Phelps (projecto a pares intitulado The Celestics) lançado de forma independente no longínquo ano de 2011, Massively Massive, aquando o lançamento de Kaytra Todo já contava com uma dezena de projectos sob o nome de Kaytradamus. No entanto, o EP de 2013 marca o nascimento da sua forma final graças ao encontro com um nome definitivo: Kaytranada.



O regresso ao duo The Celestics dá-se no ano seguinte, 2014, com Supreme Laziness, ano em que o próprio assina contrato com a gigantesca XL Recordings, casa de nomes como M.I.A, Adele ou até o misterioso Jai Paul. Começava a cozinhar o muito antecipado álbum de estreia, com os ouvidos do mundo postos na sua varinha de condão capaz de transformar qualquer melodia numa festa infinita. Mas, para o recém-nascido Kaytranada, o foco já não era ser DJ, mas sim um artista. Com a pressão de permanecer em digressão, voando de sala para sala, de terra para terra, de país para país, de continente em continente, a difícil tarefa de cultivar cuidadosamente um cunho sonoro imaculado tornava-se ainda mais hercúlea. A insistência de continuar em cima do palco agravava-se com novos e maiores compromissos, como a tarefa de abrir para Madonna para a sua “Rebel Heart Tour” em solo norte-americano, em 2015. Até que a necessidade de refúgio quebra a obrigação de ser músico profissional. “Um dia acordei, tipo, eu não consigo fazer isto. Não sou este gajo”, recorda Kay em entrevista à revista The Fader, em 2016. Foge para a gelidez e a calma de Montreal, enfiando-se no quarto onde começou a produzir ainda em adolescente, em busca daquela magia fervilhante que fez nascer a remistura que o catapultou para a primeira maré de sucesso.

Mas não a encontrou: em vez disso, deu-se de caras com um rapaz assustado, sozinho e triste que não se via ao espelho há anos, distraído pelas luzes piscantes e colunas ensurdecedoras de uma vida inteira de palco. E assim se descobriu, assumindo pela primeira vez à família, e pouco depois, ao mundo, a sua verdadeira identidade — um imigrante gay negro. Três palavras complicadas de conciliar umas com as outras num mundo que trata cada um destes elementos com a sua dose própria de agressividade, mas, munido da consciência do que constituía definitivamente Louis Kevin Celestin, preparava-se para descobrir Kaytranada na sua totalidade.

Assim nasce 99.9%, uma estreia explosiva que resulta da descoberta de si próprio, que quase que se lê, tomando conhecimento do contexto no qual foi concebido, como uma enorme celebração. Faz sentido que o álbum de estreia de Kaytranada tenha sido lançado mesmo antes da abertura da época quente: as batidas estaladiças, os baixos gordurosos e as melodias solares sabem a um refresco leve que apenas pode ser saboreado amplamente nos meses mais quentes do ano. Com convidados como BadBadNotGood, Shay Li, Anderson .Paak e Vic Mensa, Kay fez 59 minutos de êxtase à sombra fresca no dia mais abafado do ano.

Desembarcamos em 2019. Louis Kevin Celestin passou de um miúdo imigrante que passava demasiado tempo ao computador num produtor furiosamente produtivo que viu as suas sementes brotarem numa explosão que se deu nos confins da Internet: saltou de palco em palco, de mesa em mesa, de discoteca em discoteca, até precisar de fugir para casa para se encontrar no quarto onde crescera, descobrindo vértices de si que nunca antes havia tocado, fazendo nascer assim uma das maiores e melhores estreias do mundo da electrónica da última década. E, agora, vem até nós sem máscaras e cheio de mundo. Finalmente.


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