5K7s #2

[FOTOS] Rui Miguel Abreu

 

Eu <3 cassetes e antes de me atirar a uma nova série de cinco títulos que nos últimos tempos aterraram aqui em casa quero por aqui deixar uma pequena lista de razões para tanto adorar este formato:

– Foi pelas cassetes que a minha relação com a música em suporte físico começou. Lembro-me bem de ir para a escola com uma coisa destas na mão e de a minha primeira cassete, prenda da minha madrinha Edite, ser Cairo, dos Taxi, o primeiro grupo de rock que vi ao vivo. Recebi a cassete quando tinha 13 anos e gostava particularmente do tema “O Fio da Navalha”. Coisas de adolescente;

– O hip hop faz muito sentido em cassetes. O carácter lo-fi de muita música deste terreno faz sentido, poético até, num formato que consegue responder à urgência deste género. E as cassetes foram muito importantes para os primeiros passos subterrâneos do hip hop português. Compradas a granel no Martim Moniz, copiadas em decks duplos da Sony ou da Technics, com capas fotocopiadas, foram o primeiro exemplo prático de um espírito empreendedor que nunca abandonou esta cultura entre nós;

– Gosto genuinamente do som deste suporte. Talvez por durante anos ter feito mixtapes para consumo interno e para seduzir aquela que é hoje a minha melhor metade. Além disso, quando estava a dar os primeiros passos no jornalismo musical, uma boa quantidade de promos chegava até mim nesse formato, que os CDs eram ainda um luxo que a indústria não esbanjava. E ainda hoje mantenho muitos desses promos. Foi numa cassete promocional, por exemplo, que primeiro ouvi “Numb”, dos Portishead, ainda antes de sair Dummy (o primeiro álbum do grupo de Beth Gibbons saiu em Outubro de 1994 e a minha cassete promocional chegou da editora com a inscrição na capa 13/05/94 – bendita aparição!);

– Continua a sair muita coisa que me interessa exclusivamente neste formato, razão mais do que suficiente para manter dois decks de cassetes a funcionar aqui por casa. E para vos dar mais cinco sugestões…

 


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[RAS G]
(Raw Fruit Vol. 3, Leaving Records, 2014)

Comprei os dois primeiros volumes em cassete, porque gosto genuinamente das produções de Ras G, entendendo que ele vai usando estas edições mais “caseiras” para documentar as suas aventuras com os seus samplers um pouco como Sun Ra usava as gravações domésticas (que depois alimentavam as prensagens privadas da El Saturn) para ir documentando a evolução da sua Arkestra. Os dois primeiros volumes desta série Raw Fruit foram depois reunidos em vinil, que também consta na colecção cá de casa. Este volume 3 já tem algum tempo (o volume 4 acaba de sair, como podem ver já aqui em baixo), mas como comprei agora o 4 e queria ter a série completa lá acabei por encomendar este no Discogs. E em boa hora: trata-se de mais uma curta-metragem de recorte psicadélico, com Ras G a tratar os seus samplers como uma daquelas panelas para onde se atira tudo para se cozinhar um guisado em fogo lento… Jazz, ecos de dub, cordas psicadélicas, beats quebrados, temas à procura de resolução, esboços, farrapos de ideias… cabe tudo aqui dentro. Cassete em concha transparente, impressa.

 

 


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[RAS G]
(Raw Fruit Vol. 4, Leaving Records, 2015)

What’s up with this? People don’t use tapes anymore…” diz uma voz feminina. “Shut the fuck up, tapes is fresh!” responde a voz masculina que depois fala de amor para descrever a relação com as cassetes. Ou seja, uma declaração de princípios claríssima de Ras G no mais recente e ao que parece derradeiro volume da série Raw Fruit: mais beats aguçados, carregados de samples incríveis, talvez um pouco mais de melancolia espelhada nos arranjos orquestrais loopados nalguns temas. E a mesma sensação de montanha russa construída com o uso livre de diálogos de filmes e toneladas de vinis de todas as cores e feitios. Mais uma vez concha transparente neste volume 4.

 

 


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[DEMDIKE STARE]
(Archive Series #1, DDS, 2015)

Na verdade, esta cassete é uma espécie de bónus, um acessório de uma edição especial no selo próprio dos Demdike Stare: (re)edição de um mítico dubplate de Shackleton num vinil sem qualquer informação, que vem dentro de um tote bag de pano onde se encontra também esta mixtape de Demdike Stare. É já a quarta cassete de Demdike Stare que adquiro (falta-me uma quinta, At Rest, que já está a um preço difícil de digerir no Discogs…) e uma vez mais trata-se de uma viagem sem mapa pela colecção de discos da dupla formada por Sean Canty e Miles Whittaker onde tudo cabe: library esquinada, jazz de vanguarda, ecos de techno e drum ‘n’ bass e folk esquisito. Faz bem aos ouvidos, é o que posso garantir. Edição em concha preta embalada em capa simples de cartão, como nas antigas cassingles.

 

 


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[VÁRIOS]
(Merry May, Folklore Tapes, 2015)

Como todos os lançamentos da Folklore Tapes, também esta cassete é luxuosamente embalada: a cassete em si vem em concha cor-de-rosa impressa a branco, protegida em capa de cartão serigrafada e incluída numa caixa maior de cartão onde se guardam diversos materiais impressos, bem à maneira hauntológica. Trata-se de uma compilação de diversos artistas onde se destaca mais uma participação de Children of Alice, projecto de James Cargill que sucede aos Broadcast e que conta com a colaboração de Julian House da Ghost Box e de Roj Stevens que também foi membro dos Broadcast em tempos. Manipulações de fita, fantasias folk, gravações de campo: vários destes exercícios podem não cair facilmente na categoria electrónica, mas são electrónicos no sentido em que muita da música do Radiophonic Workshop também era, quanto mais não seja por ter na sua base uma aproximação laboratorial.

 

 


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[IGOR IMOKIAN & ARMY OF 2600]

(Welcome to the Glitch World, Bonding Tapes, 2015)

Colaboração entre um homem do circuit bending, Igor Imokian, e um manipulador de velhos Ataris, Army of 2600, este é um lançamento bem diferente do último que a Bonding Tapes disponibilizou e que também destaquei na primeira incursão de 5K7s, All Nigga Radio. Muito ruído ácido, como se estivéssemos dentro de um filme de terror passado num velho salão de jogos nos anos 80 ou num pesadelo semelhante ao Tron, perseguidos por máquinas ou algo que o valha. A minha edição física deste novo lançamento da Bonding Tapes ainda vem a caminho, pelo que para já ainda só conheço Welcome to The Glitch World em versão digital, mas posso adiantar que este título está disponível numa prensagem limitada a apenas 50 cassetes impressas em cassete de concha branca com etiqueta exterior em papel impresso a cores e caixa convencional de plástico. Como as velhas cassetes de jogos do ZX Spectrum…

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

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